Volta às aulas: uma análise do retorno com base na ciência

É possível organizar a volta às aulas, desde que sejam considerados a situação de transmissão local, protocolos rigorosos para esse retorno, o escalonamento, o distanciamento, as medidas de proteção, etc.

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Vou abordar aqui um tema que tem rendido debates acalorados nos últimos meses: a volta às aulas. Antes que vocês leiam o texto, acho importante que saibam que, para escrever essa análise, eu conversei com pais e mães de crianças e adolescentes em idade escolar, assisti dois webinars com argumentos contra e a favor da volta às aulas, li artigos científicos, entrevistas, reportagens e conversei com especialistas. Usei também a interação do Instagram para sentir o que as pessoas estavam pensando sobre isso.

Surgiram algumas dúvidas e comentários:

  • retorno só com vacina disponível;
  • preocupação com professores e profissionais que trabalham nas escolas;
  • o que fazer se a criança em caso de morar com alguém do grupo de risco;
  • medo de novo surto;
  • a desigualdade entre escolas públicas e privadas;
  • crianças estão mais ansiosas;
  • mães estão desamparadas com as escolas fechadas e isso aumenta a desigualdade para as mulheres;

Todas essas preocupações são legítimas e importantes e, provavelmente, é impossível dar respostas objetivas para todas elas. É impossível também abordar aqui tudo isso em profundidade, seria preciso muito mais que um artigo. Mas vamos lá.

Como sempre, é importante esclarecer alguns pontos. Não sei se isso está claro para todos, então gosto de repetir: o vírus vai continuar circulando entre nós por um tempo. Temos nove vacinas em fase avançada de testes, mas não há nenhuma garantia absoluta que elas vão funcionar e nem previsão de quando estarão disponíveis. Especialistas apostam no segundo semestre do próximo ano – mesmo que governantes estejam prometendo para janeiro vacinação em larga escala. Então, para quem gostaria de esperar ter vacina para que as crianças e adolescentes voltem à escola, é bom saber que pode demorar bastante. Sem contar que eles dificilmente fariam parte do grupo prioritário. Inclusive, até agora os estudos estão sendo feitos com maiores de 18 anos.

A segurança das crianças e adolescentes em si não é o principal tópico para o retorno. Até o momento, o que se sabe é que eles são menos suscetíveis ao coronavírus e a doença é menos agressiva neles. A grande questão é: qual o potencial de transmissão para os educadores, funcionários e grupos de risco? Essa sim é uma questão mais discutida. Na live organizada pela Abepar (Associação Brasileira de Escolas Particulares), Wanderson Oliveira, ex-epidemiologista do Ministério da Saúde, mostrou que países de todos os continentes que já reabriram as escolas tiveram resultados positivos, adotando as famosas medidas de controle não farmacológico. Isso quer dizer distanciamento, máscaras e práticas básicas de higiene. Na apresentação, foi divulgada uma análise da literatura disponível sobre o assunto, bem como a experiência de 15 países que já retornaram às aulas. Citaram também uma revisão realizada pelo Instituto Karolinska, e o autor concluiu que: “abrir escolas e pré-escolas dificilmente impactaria a mortalidade por covid-19”.

Israel é citado como uma experiência negativa. Wanderson explicou que lá houve falta de estratégia: abriram todos os anos escolares ao mesmo tempo e, poucos dias depois, retiraram obrigatoriedade de máscara nas salas. O país não criou protocolos. Por isso, a escola Gymnasia Ha’ivrit, em Jerusalém, foi confirmada como o foco de um dos piores surtos de coronavírus em Israel. Na Coreia do Sul, a reabertura das escolas chegou a ser adiada cinco vezes e, em meio ao processo, mais de 200 escolas tiveram que ser fechadas depois que novos focos de Covid-19 foram registrados em Seul. O noticiário indica que a maior parte dos novos focos de infecções tenha ocorrido em um centro comercial e nas igrejas. Outro caso que ficou conhecido foi no estado da Geórgia, nos EUA. Mais de 800 alunos e funcionários foram colocados em quarentena uma semana após a reabertura das escolas, quando um aluno testou positivo.

Fica claro que surtos em escolas são possíveis e podem acontecer no Brasil também. Mas, segundo um artigo na Science, surtos maiores estão relacionados à maior transmissão na comunidade (fora da escola), distância física insuficiente, ventilação deficiente e falta do uso de máscara (dentro das escolas). O mesmo artigo diz: “as escolas que implementaram medidas de mitigação da transmissão (inclusive em países europeus) parecem não ter contribuído substancialmente para o aumento da circulação do vírus entre as comunidades locais”.

Alguns dados relevantes para colocar também no debate: 30% das crianças em quarentena desenvolvem critérios clínicos para transtorno do stress pós-traumático. As mulheres são duas a três vezes mais afetadas que os homens por essa situação. E quando a gente pensa em disparidade, é possível pensar em dois pontos principais. O primeiro é que sim, as escolas públicas não têm a mesma estrutura para garantir todos os processos se comparados às privadas. Por outro lado, o webinar da Abepar citou a opinião de líderes comunitários de São Paulo que afirmaram que as favelas estão com as crianças nas ruas, como se fossem férias.

Ou seja: é possível organizar a volta às aulas, desde que sejam considerados a situação de transmissão local, protocolos rigorosos para esse retorno, o escalonamento, o distanciamento, as medidas de proteção, etc. É isso que tem mostrado a experiência internacional até o momento.

O estado de São Paulo estabeleceu critérios de contágio e tem registrado queda no número de óbitos. Segundo o G1, a média móvel de mortes (que leva em consideração os registros dos últimos 7 dias e minimiza as diferenças das notificações) foi de 151 óbitos por dia na terça-feira. A variação foi de -34% em comparação ao valor registrado há 14 dias, o que, para os especialistas, indica tendência de queda nos óbitos.

Um artigo na Scientific American aponta que a dependência prolongada de aprendizagem virtual por si só pode interromper o desenvolvimento educacional e social de uma criança e pode ter repercussões econômicas graves a longo prazo.

Desde terça-feira, as escolas públicas e privadas do estado de São Paulo estão permitidas a reabrir para aulas de reforço escolar, tutoria e atividades esportivas em regiões que estejam na fase amarela do plano de flexibilização econômica há, pelo menos, 28 dias. Já a retomada das aulas presenciais está prevista para o dia 7 de outubro em todo o estado. O Sindicato dos Profissionais de Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) defende que o retorno presencial fique apenas para 2021. Para a ONU, uma volta segura às salas de aula deve ser colocada como grande prioridade. O que faltou esclarecer é como a saúde dos professores e dos funcionários das escolas será protegida.

Não sei o quanto vocês chegaram ao fim desse texto e o que pensaram sobre isso enquanto liam as informações. É importante que os pais tenham opção de mandar seus filhos para as escolas e que tenham também a liberdade de não mandar, se assim decidirem que é o mais seguro. Depende de muitas variáveis: a idade da criança, a realidade da família, o impacto disso no contexto geral, a convivência com pessoas do grupo de risco. Também que é preciso cobrar o poder público para que os professores tenham segurança ou que se estabeleça critérios para substitutos para aqueles que estão no grupo de risco. Mas não acho que a escola só deve voltar quando tiver vacina. Infelizmente, por mais que o otimismo queira prevalecer, não sabemos quando isso vai acontecer

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