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Vanessa Teich, do Einstein: “Hospitais precisam compartilhar indicadores”

À frente da área de economia da saúde do Einstein, Vanessa Teich acredita que a prática assistencial dos hospitais melhoraria ao compartilhar indicadores

               
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(Conteúdo oferecido por Hospital Israelita Albert Einstein)

A utilização de dados para tomada de decisão virou um verdadeiro dogma corporativo. E com razão: ao conhecer as informações é possível aprimorar o planejamento, melhorar a eficiência, reduzir custos, ser mais transparente e, no caso da saúde, melhorar a prática assistencial tanto do ponto de vista interno quanto para os pacientes. Contudo, apenas ter dados em mãos não é suficiente. É preciso saber o que fazer com eles. Foi neste contexto que o Hospital Israelita Albert Einstein iniciou, há cerca de 10 anos, uma área de economia da saúde, que desde 2019 está sob a liderança de Vanessa Teich.

Em entrevista exclusiva para Futuro da Saúde, ela explica a atuação dessa área, aborda a importância de ter os indicadores certos para que o hospital tome melhores decisões e revela uma bandeira clara: “Ter indicadores e compará-los entre os hospitais”, discussão que ela tem fomentado com outros hospitais no âmbito da Associação Nacional de Hospitais Privados, Anahp.

Engenheira de produção com especialização e mestrado em economia da saúde, Vanessa acredita que a sociedade ganharia com a transparências desses dados: “As pessoas vão para os hospitais sem fazer ideia do que esperam. Não sabem as taxas de complicação, de mortalidade, de readmissão daquele hospital. Elas sabem mais informações de um hotel quando vão se hospedar do que de um hospital, onde sua vida está em jogo”. Confira os principais trechos da entrevista:

O que exatamente faz a área de economia da saúde?

Vanessa Teich – É uma atuação bastante ampla. Há uma área de epidemiologia, responsável por todos os indicadores de volume não só do hospital, mas de todas as nossas unidades ambulatoriais, atenção primária, telemedicina. A gente consolida esses dados e faz vários estudos, das coisas mais diversas. Há também uma área de performance médica, que atualiza anualmente o processo de segmentação médica para avaliar a relação dos médicos com a instituição em quatro pilares: qualidade assistencial, volume, ensino e pesquisa e atividades voluntárias. E dentro dessa área há também o feedback para os médicos sobre indicadores de prática assistencial, onde apresentamos sua adesão a protocolos institucionais, taxas de infecção e complicações, tempo médio de permanência dos pacientes, uso de materiais de alto custo, dentre outros.

Qual a receptividade dos médicos com relação ao feedback?

Vanessa Teich – Os médicos têm sido receptivos a estes feedbacks. Muitos questionam, fazem sugestões e isso por si só já é muito positivo. Acredito que envolver o médico nessas discussões é algo cada vez mais necessário. Quando a gente pensa em melhorar a qualidade assistencial, ter esses dados e entender como eu uso esses dados para melhorar a performance é fundamental. Até motivado por isso a gente também criou uma área de performance hospitalar. É como se a gente pudesse ter essa mesma visão sobre o médico, mas dos hospitais. É muito fácil “vender” o Einstein para quem conhece e quer “comprar” o Einstein. Mas como eu demonstro o valor que entrego para quem nunca ouviu falar do Einstein? Precisamos ser capazes de quantificar isso em números. Essa é a iniciativa da área de performance hospitalar.

Quais outras áreas estão dentro da atuação da economia da saúde?

Vanessa Teich – Temos uma área de desfechos pós-alta, que hoje acompanha pacientes com 20 condições clínicas, mas a meta é aumentar essa quantidade. Há outra área de soluções baseadas em valor, que faz análises envolvendo custos e desfechos em saúde, mas que também identifica oportunidades de novos produtos com as áreas assistenciais e dá suporte para a área comercial na criação destes produtos, baseados em novos modelos de remuneração. Além disso, tem uma área nova que estamos criando, de avaliação de tecnologias em saúde. Acho que o hospital terá um papel importante nesse processo, de ter algum racional para incorporar a tecnologia em saúde, porque no fundo todo mundo tem uma limitação de recurso, seja o hospital ou o sistema de saúde como um todo.

Mas em que contexto o hospital entraria nessa questão de avaliação de tecnologia?

Vanessa Teich – Um exemplo: estamos avaliando agora uma nova tecnologia na área de medicina intervencionista, que realiza procedimentos minimamente invasivos. Isso porque para pedir incorporação no rol da ANS precisamos ter experiência e avaliar se a tecnologia nova é realmente boa. E aí, às vezes, fazemos isso atrelado à pesquisa, porque tem produto que mesmo tendo aprovação da Anvisa e um racional clínico de que aquilo faz sentido, tem pouca evidência. Estamos encaminhando isso para a nossa área de pesquisa.

Como vocês avaliam se os indicadores que medem estão melhores ou piores do que outros players de mercado?

Vanessa Teich – Dentro desse contexto há algumas iniciativas acontecendo. Uma delas da ANS, com o Sistema de Indicadores Hospitalares (SIHOSP), e outra da Anahp, com o SINHA. Hoje os hospitais conseguem ver os indicadores deles e a média de um grupo de hospitais, mas isso não é suficiente para saber o que fazer para melhorar. Estamos discutindo com a Anahp a possibilidade de reunir alguns hospitais e abrir os resultados individualmente sem dizer quem é quem. O compromisso é de que o hospital que tem o melhor resultado seja revelado com a intenção de mostrar as melhores práticas para que os outros hospitais possam identificar as oportunidades de melhoria. Ainda é uma ideia, um plano de boas intenções, não sabemos se vai funcionar. De uma forma geral, sinto falta de uma discussão mais objetiva do sistema de saúde no sentido de melhorar o resultado clínico. As pessoas vão para os hospitais sem fazer ideia do que esperam. Não sabem as taxas de complicação, de mortalidade, de readmissão daquele hospital. Elas sabem mais informações de um hotel quando vão se hospedar do que de um hospital, onde sua vida está em jogo.

Mas você não acha que isso acontece por causa da resistência que temos aqui no Brasil no sentido de qualificar a saúde?

Vanessa Teich – Acho que tem uma resistência a comparações individuais e uma dificuldade também de definirmos quais seriam os resultados ideais, uma vez que em saúde há muita variabilidade clínica e incertezas. Vejo isso internamente nas nossas análises comparando médicos. Tentamos sempre estabelecer benchmarks e metas de resultados clínicos. Mas quando pergunto se posso dizer que um médico que tem um porcentual maior de pacientes com melhora é melhor do que um que tem um porcentual menor, geralmente os médicos me dizem que não, porque tem a questão da complexidade. Como eu uso, então, esse dado de forma útil? Temos anos de experiência com feedback médico, mas ainda um longo caminho a percorrer para que os profissionais de saúde aceitem essas comparações e usem dados para melhorar suas práticas assistenciais. O mesmo acontece quando planejamos comparações entre hospitais. Ainda temos que amadurecer esse processo e não encarar como uma auditoria. Há também o fato de que precisamos educar as pessoas, usuários e pacientes, a cobrarem esse tipo de informação, porque acho que eles nem sabem que deveriam esperar algo desse tipo.

Onde você acha que estamos nesse sentido de educar?

Vanessa Teich – Muito no começo. Acho que essa iniciativa da ANS pode ser uma coisa legal por ser uma agência pública, um órgão do Ministério da Saúde. Por outro lado, ninguém no sistema de saúde hoje cobra dos hospitais informações de indicadores como obrigatórias. A ANS está começando a fazer esse papel, mas muito mais em caráter consultivo do que regulador. Também não acho que o caminho seja ter mais regulação. Nossa intenção é criar um movimento para que a divulgação dos indicadores seja algo que os hospitais precisem fazer. E aí acho que falta muito a educação do público para cobrar isso dos médicos e dos hospitais.

Quando se falava em telemedicina, muitos respondiam que não daria certo, mas agora vimos que sim. Você acha que essa utilização de dados é um caminho sem volta?

Vanessa Teich – Eu acho e espero que seja um caminho sem volta. O que é difícil hoje? Exige muito investimento e tempo de aprendizado e implementação tanto com pessoas quanto com sistemas. E hoje os hospitais não são remunerados e nem cobrados para ter isso. Então, você precisa de uma pró atividade do hospital em querer investir em ter indicadores, acreditando que aquilo vai melhorar a prática dele. Por isso eu acho que ainda é um longo caminho. Ainda há poucos hospitais fazendo isso de uma forma estruturada. A nossa intenção é que, começando a divulgar essas informações, esse movimento faça com que os demais hospitais também divulguem. E tem que ser um indicador confiável e útil para gerar algum tipo de melhoria de qualidade assistencial.

Quais seriam esses indicadores, por exemplo?

Vanessa Teich – Eventos relacionados à segurança, como os vários tipos de taxa de infecção, indicadores relacionados às UTIs, como pneumonia associada à ventilação e infecção de corrente sanguínea associada à cateter, tempo de permanência, taxa de readmissão e taxa de mortalidade, que é difícil de comparar, mas é um indicador geral e relevante. Acho que daria para começar por alguns indicadores gerais para começar a fazer essas comparações.

Mas os hospitais já não têm isso?

Vanessa Teich – O ponto é que não divulgam e nem comparam esses dados. Acaba ficando uma coisa muito interna para tentar melhorar os resultados, mas ninguém olha os indicadores de um hospital, que tem uma taxa menor, para entender se a prática ali é melhor que no outro. Não há essa discussão. E nem os pacientes usam isso para escolher um hospital.

Nem as acreditações internacionais medem esses indicadores?

Vanessa Teich – As acreditações em geral são muito mais ligadas a processos. No Einstein temos a acreditação da Joint Commission International, que olha nossos indicadores e audita nossas práticas para que a gente reduza ao longo do tempo as taxas de infecção e de eventos adversos com dano grave para os pacientes, por exemplo. Essas auditorias são muito boas para que os hospitais passem a ter processos que contribuam para melhorar a qualidade assistencial e a segurança para o paciente. Quando um hospital tem uma acreditação, significa que tem processos e que há um foco em melhorar a qualidade assistencial, mas ainda assim os indicadores muitas vezes não são tornados públicos ou, se são tornados públicos, não são comparados entre os hospitais.

Neste contexto de uso de dados e informações, na prática qual o impacto disso nos novos modelos de remuneração que estão sendo debatidos?

Vanessa Teich – Acho que há uma demonização do fee for service como a culpa de todos os problemas. Realmente, se a gente pensar, o fee for service cria os piores incentivos, porque é o incentivo de quanto mais usa, mais cobra. É quase como se a operadora realmente desse um cheque em branco para o hospital usar. Tem auditoria, tem autorização, tem tudo isso, mas para a operadora é muito complicado. Imagine um paciente que interna para fazer uma cirurgia de retirada do apêndice, que é uma cirurgia simples. Tem paciente que fica um dia, outro fica dois, tem paciente que faz o procedimento ambulatorial, tem aquele que usa o material mais caro, outro não. A operadora fica sem entender direito, até porque ela não tem nível de controle sobre a prática e nem sobre as características do paciente para saber se isso foi uma questão clínica necessária ou se varia entre os médicos. E o que a operadora faz? Já que a prática varia, ela transfere a responsabilidade de controlar a utilização para o hospital ao criar pacotes cirúrgicos por exemplo.

E como os dados e indicadores podem contribuir nesse cenário?

Vanessa Teich – Todo mundo fala que novos modelos de remuneração são uma forma de gerar valor para o paciente. Depende. Se uma instituição conseguir medir que continua fazendo bem gastando menos, ótimo. Agora, se não medir isso, pode ser que esteja gastando menos, mas entregando um resultado pior. No mercado como um todo acho que falta ainda essa discussão de resultado. E o difícil em saúde é que tem muita incerteza. Não necessariamente você consegue garantir o que vai acontecer com o paciente em uma internação. Então, quando você olha o caso isolado, você não consegue saber se aquele caso não teve o resultado favorável porque nem todos têm ou se está tendo uma prática pior do que poderia. Você só consegue ver isso se agrega o dado e compara. Por isso essa é minha bandeira, de que temos que ter indicadores e comparar entre os hospitais. Cada vez mais estamos transferindo essa responsabilidade de utilização das operadoras para os hospitais, mas sem medir esse outro lado que é a entrega de resultados para os pacientes.

Você não acha que a existência de um protocolo básico, que poderia ser seguido por todos os hospitais, facilitaria as comparações?

Vanessa Teich – Existe uma dificuldade muito grande de consenso na área da saúde. Recentemente, por exemplo, estávamos discutindo um protocolo que praticamente todos os hospitais têm, que é o de profilaxia de evento tromboembólico. É quase um padrão, mas o que varia entre os hospitais? A forma de classificar o risco. Existem metodologias diferentes de classificação e você não consegue um consenso.

No contexto da pandemia, o quanto essa gestão de dados ajudou a lidar com o momento?

Vanessa Teich – A pandemia trouxe um mundo novo de dados. Falo isso pelo Einstein, mas vejo que para o mercado como um todo também. Se parar para pensar, independentemente da pandemia, nós já deveríamos saber a quantidade de leitos de UTI, ventiladores e profissionais tínhamos no sistema de saúde do Brasil. Mas não sabíamos. Sem isso, você não consegue planejar a infraestrutura necessária. Se no mundo ideal eu soubesse onde as pessoas moram, qual o perfil, onde estão os hospitais, quais os recursos disponíveis, conseguiria fazer uma análise mais completa. Mesmo no Einstein, tínhamos informações consolidadas mensalmente. Por exemplo, por volta de 10 de março tinha indicadores de fevereiro. Quando começou a pandemia, não havia possibilidade de esperar para saber a taxa de positividade de exames. Isso fez com que passássemos a acompanhar isso em tempo real.

Isso teve reflexos em outras áreas?

Vanessa Teich – De lá para cá, passamos a controlar diversas outras coisas em tempo real ou no D-1, até ontem. A própria telemedicina começamos a usar como forma de antecipar o movimento do hospital. O que tenho discutido é que esse pensamento vale para tudo. Consigo acompanhar qualquer doença infecciosa que tenha um movimento sazonal no ano, como a influenza. E acho que a pandemia foi a primeira vez, que eu me lembro, que o mercado começou a comparar entre os hospitais dados de desfecho. Tem um site que é de UTIs brasileiras, onde criaram uma seção especificamente para o COVID-19, com dados de mortalidade, tempo de permanência, de uso de ventilação mecânica e de várias outras coisas que ainda exploramos pouco. Por que variou tanto entre hospitais? Quais eram os protocolos? Foi um momento em que começamos a tornar esses dados mais públicos e talvez usar um pouco mais as informações para a tomada de decisão e para tentar melhorar a assistência.

Os dados também passaram a ser mais valorizados pela sociedade. Muitos começaram a acompanhar taxa de internação e entender quanto a ocupação de leitos de UTI era um indicativo de possível colapso do sistema.

Vanessa Teich – As pessoas passaram a usar dados que nunca tinham usado antes. Existe um movimento importante pró-dados. Por outro lado, isso também mostrou a nossa fragilidade das informações, porque vejo como é difícil ter dados confiáveis. E muito poderia ser feito se organizássemos melhor o sistema para prestar uma boa assistência. Tem muita informação que a gente poderia gerar usando o Datasus. Acho que tem uma cultura de uso de dados que eu espero que continue. Para o Einstein mudou completamente o nosso padrão de uso de informação. Hoje a gente usa muito mais as informações e até tem uma linha que a gente segue hoje que é tornar o Einstein uma instituição que toma decisões baseadas em dados. Porque tem muita coisa que a gente acha que é de um jeito, mas quando vemos os dados é diferente.

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