Vacinar, rastrear e tratar: estamos prontos para erradicar o câncer de colo de útero?

O Ministério da Saúde recomenda que mulheres entre 25 e 64 anos que tenham tido atividade sexual façam o rastreamento com o teste de Papanicolau

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No fim do ano passado, a Organização Mundial da Saúde apresentou uma estratégia global para erradicar o câncer de colo de útero. A entidade propôs um plano em três etapas que prevê a redução de mais de 40% dos novos casos e de 5 milhões de mortes relacionadas à doença em 30 anos. Em linhas gerais, vacinação contra o HPV, rastreamento e tratamento são os pilares da proposta.

O câncer de colo de útero é o quarto mais comum entre as mulheres em todo o mundo. No Brasil, é o terceiro tumor maligno mais frequente na população feminina e a quarta causa de morte de mulheres por câncer no país. Na análise regional, é o mais incidente na região Norte e o segundo nas regiões Nordeste e Centro-Oeste. Frequentemente relacionado aos índices socioeconômicos, trata-se de uma importante questão de saúde pública. Em países em desenvolvimento, sua incidência é quase duas vezes mais alta e as taxas de mortalidade são três vezes maiores do que em economias desenvolvidas.

Vacinação, rastreamento e tratamento. Estamos prontos para erradicar o câncer de colo de útero no mundo e aqui no Brasil? A própria Organização Mundial da Saúde reconhece que a pandemia de Covid-19 pode retardar a implantação da estratégia prevista. As dificuldades, no entanto, não podem ser atribuídas apenas à pandemia.

Em nosso país, enfrentamos o desconhecimento sobre a doença e as táticas de prevenção e diagnóstico precoce, dificuldades de acesso à rede de saúde, preconceitos para a realização de exames e tabus sobre este tipo de câncer. Pais e responsáveis não falam com meninos e meninas sobre a vacina contra o HPV e a importância da imunização em duas doses. As taxas de vacinação estão baixas no Brasil.

Segundo dados do Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações, obtidos em novembro de 2020, 79,7% das meninas de 9 a 14 anos e 54,7% dos meninos tomaram a primeira dose da vacina contra o HPV. Os dados para a segunda dose, infelizmente, despencam: 56,14% e 34,4%, respectivamente.

Um estudo publicado no fim de 2020 no New England Journal of Medicine mostrou, de forma inédita, a eficácia da vacinação contra o HPV numa população. Os pesquisadores avaliaram quase 1,7 milhão de mulheres suecas, entre 2006 e 2017. A pesquisa mostrou que, quando a vacinação foi aplicada para meninas abaixo de 17 anos, a chance de desenvolvimento de câncer de colo de útero era reduzida em aproximadamente 90%. Se a idade para a imunização fosse acima de 17 até os 30 anos, esta taxa diminuía em 50%. Os dados comprovam a melhor eficácia quando a menina ou o menino ainda não contraiu o HPV, por meio de uma relação sexual. Por isso, quanto antes as crianças forem imunizadas, mais importante é a proteção.

O Ministério da Saúde recomenda que mulheres entre 25 e 64 anos que tenham tido atividade sexual façam o rastreamento com o teste de Papanicolau. Os dois primeiros exames devem ser realizados anualmente e, se ambos os resultados forem normais, os próximos exames devem ocorrer a cada 3 anos. Em 2017, o Observatório de Oncologia divulgou um estudo mostrando que de 60 a 80% das mulheres diagnosticadas com câncer de colo uterino não haviam realizado a triagem recomendada nos 5 anos anteriores ao diagnóstico. Esta realidade se repete de Norte a Sul do país, com ligeiras variações. Com a pandemia, estima-se um atraso de até dois anos no diagnóstico de câncer por conta dos exames postergados.

Em outubro de 2019, lideramos um grupo de 200 médicos da América Latina, África, Oriente Médio e Europa Oriental, que elaborou o primeiro consenso mundial para tratamento do câncer de colo de útero e vulva em países em desenvolvimento.

O grupo procurou traçar as melhores estratégias para o tratamento da doença em nações com recursos escassos para a saúde. Na grande maioria dos casos, o tratamento do câncer de colo de útero geralmente ainda é cirúrgico. Quando a doença está mais avançada, envolve radioterapia, em geral com combinação com quimioterapia. Existe uma grande expectativa quanto à eficácia de agentes imunoterápicos no tratamento da doença localmente avançada, em combinação a outros tratamentos.

As estratégias se mostram possíveis e extremamente necessárias para impedir um sofrimento desnecessário causado por esta doença evitável, que representa um prejuízo para a saúde das mulheres aqui no Brasil e em todo o mundo. Mas temos um longo trabalho pela frente!

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