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Como o Brasil pode se tornar novamente um modelo mundial de vacinação?

Estratégias como a ampliação do horário das salas de vacinação, a busca ativa e o investimento em campanhas estão entre as principais medidas.

               
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Ampliação do horário de funcionamento das salas de vacinação, retomada de campanhas e a busca ativa estão entre as principais estratégias para o país voltar a ser um modelo de vacinação.

A baixa cobertura vacinal brasileira tem preocupado autoridades e médicos de todo o país. Doenças que antes haviam sido erradicadas, como o sarampo, voltam a apresentar casos pelo Brasil e reforçam a importância da imunização. No entanto, o país que já foi modelo de vacinação mundial patina ao tentar retomar os índices do passado.

Na visão dos especialistas ouvidos pelo Futuro da Saúde, os principais motivos que levaram a esse quadro são a falta de comunicação, as fake news, o distanciamento da população das unidades de saúde, as limitações dos postos e o próprio sucesso das vacinas. Para que o Programa Nacional de Imunizações (PNI) volte a ser uma potência, uma mudança de estratégia seria bem-vinda, com a ampliação dos horários dos postos, busca ativa, descentralização e sensibilização dos pais e responsáveis.

Mesmo com o fortalecimento da imagem que o Sistema Único de Saúde (SUS) ganhou na pandemia de Covid-19, ainda há uma dificuldade do Ministério da Saúde, secretarias e profissionais de se comunicarem de forma clara com a sociedade e reforçarem a importância da vacinação. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que ao menos 3 milhões de vidas são salvas por ano graças às vacinas.

A recomendação da OMS é que se atinja 95% de cobertura vacinal para erradicar, eliminar ou controlar as doenças no país. Entretanto, o Brasil não atinge desde 2016 esse índice para todas as doenças, tendo em 2021 uma das coberturas mais baixas da história, com apenas 59,49% da população imunizada.

Movimentos antivacina e fake news

Para Carla Domingues, ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações entre 2011 e 2019, “com o próprio sucesso do PNI as doenças deixam de acontecer na sociedade. A população começa a não ver mais essas doenças e achar que as vacinas fazem mal à saúde. Aliado a isso, vem o fenômeno das fake news e dos grupos antivacinas, colocando que os eventos adversos se sobrepõem aos benefícios das vacinas”.

No passado, a mortalidade infantil assolava o país. Em 1960, a cada mil crianças nascidas vivas, 100 morriam. Graças à estrutura de vacinação brasileira, esse número atualmente é muito abaixo: 12 a cada mil. Gerações mais jovens que não viram a realidade de um país sem vacinas podem estar entre os principais motivos da queda na cobertura vacinal, já que deixam de levar seus filhos para serem imunizados, por terem uma percepção equivocada de que as doenças infecciosas não são mais uma ameaça.

Outros grandes problemas foram a ascensão dos movimentos antivacina e das fake news, que ganharam ainda mais destaque na pandemia de Covid-19 e acabam por afetar a imunização para outras doenças. Uma pesquisa de 2019 da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBim) indica que 7 a cada 10 brasileiros acreditam em notícias falsas sobre a vacina, como a possibilidade das vacinas causarem a doença que prometem prevenir.

Desabastecimento e horário de vacinação

“Em 2017 e 2018 a gente vê outro fenômeno que não aconteceu só no Brasil, que é o desabastecimento das vacinas. A indústria farmacêutica não conseguiu produzir vacinas suficientes com a expansão de programas de imunização, com o Gavi [Aliança Mundial para Vacinas e Imunização] e a Unicef [Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas] trabalhando de forma intensa”, lembra Domingues.

O primeiro passo para que se tenha uma retomada de altas taxas de cobertura vacinal é garantir as doses e o material necessário para aplicação. A vacina BCG, por exemplo, teve uma racionalização por parte do Ministério da Saúde neste ano.

Desde 2016, a fábrica da Onco BCG, a única que fornece as doses desse imunizante ao PNI, foi suspensa diversas vezes por irregularidades, como falhas nas garantias de esterilidade. Mesmo que o Brasil tenha recorrido ao Fundo Rotatório da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) para conseguir as doses necessárias, há uma perspectiva de que somente 500 mil das 1,2 milhão de doses previstas serão destinadas aos estados nos próximos meses.

Outro ponto defendido pela ex-coordenadora do PNI é a ampliação do funcionamento das salas de vacinação, estendendo o seu funcionamento aos finais de semana e em horários não comerciais: “Se a gente continuar funcionando naquele modelo aguardando passivamente o pai ou a mãe chegar ao posto de saúde, a cobertura não vai acontecer. Principalmente quando a gente está falando de 15 vacinas. Uma criança para completar o calendário de vacinação até 1 ano e 3 meses precisa comparecer 9 vezes ao posto de saúde”.

Além do horário, é preciso levar a vacinação para fora das unidades de saúde. Com a Covid, foi possível observar que a imunização só conseguiu avançar em algumas regiões e faixas etárias com estratégias “extra-muro”, como aplicação de casa em casa, escolas e drive-thru.

Falta de campanhas públicas e de vínculos com a população

Uma das maiores críticas dos especialistas é que atualmente o Governo Federal não realiza campanhas publicitárias robustas para incentivar a população a imunizar as crianças. Houve redução de 36% do investimento nessa área entre 2018 e 2020, passando de 71,5 milhões para 45,7 milhões de reais, de acordo com números obtidos pela agência de dados Fiquem Sabendo. Na visão de Domingues, é preciso que haja uma retomada, mas estados e municípios também devem realizar campanhas próprias.

Carla também defende que os profissionais de saúde precisam retomar os laços com a população. “Precisa de acolhimento dos pais. Às vezes eles estão em dúvida se devem vacinar ou não e simplesmente o filho é colocado na sala e não se explica a vacina ele está tomando, por que está tomando, que ele pode tomar 4 ou 5 vacinas no mesmo dia. O pai fica inseguro. A gente tem que pensar no acolhimento, entendimento e esclarecimento desse pai”, afirma.

No entanto, as equipes precisam ser renovadas, já que médicos e enfermeiros reclamam do esgotamento profissional causado pela pandemia, com postos de saúde constantemente lotados, principalmente nos picos das ondas de Covid, e a força-tarefa para vacinar o maior número de pessoas contra a doença.

PNI sem coordenador

O Programa Nacional de Imunizações está sem coordenador há quase 1 ano. Franciele Fantinato, que assumiu o cargo após a saída de Carla Domingues, foi exonerada em julho de 2021. Ela afirmou durante depoimento à CPI da Covid que deixava o posto após a politização da vacinação e declarações de autoridades que colocavam em xeque a eficácia das vacinas.

Em outubro, o Ministério da Saúde nomeou Ricardo Gurgel, pediatra e professor-titular da Universidade Federal de Sergipe (UFS), como novo coordenador. O médico, contudo, foi informado que não seria empossado. Especula-se que os motivos estejam relacionados ao seu posicionamento a favor da vacinação de crianças contra a Covid e a não recomendação do uso do chamado “Kit Covid”.

“Qualquer secretário, ministro ou presidente que saiba que aquele órgão é importante, obviamente iria querer uma pessoa lá. Um lugar que era respeitado não ficaria esse tempo todo sem uma pessoa se tivesse a mínima possibilidade de trabalhar direito. É um problema e está atrapalhando o desenvolvimento do PNI”, afirma Gurgel.

Aproveitar Covid para aplicar outras vacinas

Com a pandemia de Covid-19, pais e responsáveis passaram a vacinação de crianças pequenas para segundo plano, assim como toda sociedade deixou de lado os cuidados com as outras doenças além do SARS-CoV-2. Na visão do pediatra, com a possível aprovação no Brasil de uma vacina contra a Covid para crianças menores de 5 anos, o ideal seria aproveitar o momento de vacinação para atualizar a carteirinha.

“É mais um motivo para que essa recomposição da cobertura vacinal seja feita. É uma coisa que precisa entrar na cabeça dos dirigentes. Nesse momento, nenhuma oportunidade de vacinação deveria ser perdida. Se há outras vacinas atrasadas para essas crianças, deveriam dar tudo no mesmo dia”, defende o médico.

Mas existe um entrave para que isso possa ocorrer. Ao contrário da vacinação de adultos, a orientação para a aplicação em crianças de 5 a 11 anos, que já possuem vacina contra a Covid disponível no país, é que elas não sejam aplicadas de forma concomitante, ou seja, junta a outras do calendário vacinal infantil.

O pediatra Marco Aurélio Sáfadi, presidente do departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) explica que o recomendado é esperar 15 dias entre as vacinas por segurança, para se observar os efeitos adversos, mas que outros países não possuem essa restrição. “Nós mantemos a recomendação, mas esse é um ponto de possibilidade de melhoria. Poderíamos começar a discutir de fato a possibilidade de aplicação concomitante, seria uma estratégia para ajudar a resgatar a cobertura para essas doenças”, aponta.

Método de análise da cobertura

Apesar de haver de fato uma redução na cobertura vacinal, Sáfadi alerta que pode estar ocorrendo discrepância nos dados por conta de alterações no processo. Segundo o médico, a digitalização dos sistemas de saúde e a criação de um registro digital acompanhou a redução no número de vacinados, que vem em queda desde 2016.

“Existe um componente de como a mensuração é feita. Provavelmente, nossas coberturas anteriores não eram tão altas, e as de hoje não são tão baixas quanto se está relatando. Há provavelmente um delay na checagem dessas informações. Ainda não há uma clareza do impacto disso, mas não podemos esquecer dessa discussão”, alerta.

O presidente do departamento de Infectologia da SBP explica que, anteriormente, era apenas contabilizado o número de doses enviadas e o número de doses aplicadas, chegando assim à porcentagem de cobertura. Hoje, é preciso preencher as informações detalhadas no sistema. 

“Com o passar dos anos foi se criando a necessidade de ter um registro digital, que permitisse ter um controle em plataformas das doses aplicadas. Alguns municípios e estados começaram a fazer essa migração. Obviamente que é o ideal e teria uma informação mais confiável, mas exige várias etapas. A pessoa tem que computar no relatório, colocar no sistema e enviar para uma central que disponibiliza a informação”, explica o pediatra.

Cobertura ano a ano

  • 2022: 26,93% (dados de janeiro a maio)
  • 2021: 59,50%
  • 2020: 67,18%
  • 2019: 73,44%
  • 2018: 77,13%
  • 2017: 72,93%
  • 2016: 50,44% (índice mais baixo dos últimos anos, principalmente em função de desabastecimento)
  • 2015: 95,07% (índice mais alto dos últimos anos)
  • 2014: 86,31%
  • 2013: 73,29%
  • 2012: 77,32%
  • 2011: 85,31%

Fonte: DATASUS

Histórico

As vacinas foram um dos maiores avanços da medicina e da saúde pública. Junto à ampliação do saneamento básico, foram responsáveis por aumentar a expectativa de vida e diminuir a mortalidade. No Brasil, a mortalidade infantil reduziu 90% entre 1974 e 2014, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Até os anos 60, as chamadas “doenças da infância” afetavam grande parte da população e deixavam graves sequelas. Rubéola, sarampo, coqueluche, difteria e poliomielite eram as principais doenças infecciosas que atingiam as crianças. Doenças que se tornaram pouco conhecidas dos brasileiros com o passar dos anos.

Impulsionado pela vacinação contra a varíola humana em 1968, através da Campanha de Erradicação da Varíola, e pela Campanha Nacional de Vacinação contra a Poliomielite de 1971, que vacinou 18 milhões de crianças em um único dia, o Brasil viu que era capaz de criar uma estrutura sólida, descentralizada e com adesão da população para criar um programa contínuo de vacinação.

A criação do Programa Nacional de Imunizações (PNI) em 1973 foi importante para erradicar doenças do país e melhorar as condições de saúde da população. São cerca de 38 mil salas de vacinação espalhadas pelo país, com mais de 300 mil profissionais envolvidos e com 19 vacinas oferecidas para crianças, adolescentes, adultos e idosos.

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