Vacinação: a difícil tarefa de aplicar o princípio básico da equidade

Enquanto o mundo comemorou a agilidade da ciência em produzir imunizantes para uma nova doença, no Brasil o que chamou a atenção foi que ainda não temos antídoto para a falta de vergonha, falta de ética, falta de empatia e, sobretudo, para a falta de consciência coletiva sobre saúde

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Aqueles que têm lido meus artigos no Futuro da Saúde talvez se surpreendam com o tom que imprimirei ao expor minha opinião sobre um assunto que me tem causado sentimentos que mesclam perplexidade e tristeza, desde o domingo, 17 de janeiro, quando Monica Calazans, a enfermeira da UTI do Instituto Emilio Ribas (SP) tomou a primeira vacina contra a Covid-19, aplicada no Brasil.

De lá para cá, o assunto vacinação não só tem sido a pauta prioritária dos veículos de mídia, sejam eles digitais, impressos ou eletrônicos, como tornou-se o tema central das conversas dos grupos de WhatsApp de familiares, amigos e colegas de trabalho.

Muito se falou sobre a rapidez com que as vacinas foram desenvolvidas. A BBC (sistema de rádio, portal e televisão pública do Reino Unido) chegou a usar chamadas em suas reportagens com o título: “10 anos em 10 meses”. Sobre esse feito, não podemos esquecer que essa conquista é o resultado prático do trabalho que, há anos, centenas de cientistas desenvolvem. O que ocorreu no caso da vacina contra a Covid-19 foi a força, a rapidez e a amplitude da pandemia, o que exigiu que o trabalho de centros de referência fosse potencializado para solucionar um desafio universal.

Pessoalmente, acredito que o efeito dessa agilidade trará inúmeros desdobramentos nos anos que estão por vir, com novas descobertas impactando positivamente pesquisas para tratamento e cura de outras doenças que assolam nossa sociedade.

Voltando às notícias e conversas nos aplicativos sobre vacina e vacinação no Brasil, surpreende acompanhar o que temos visto e ouvido. Ao invés de imagens de celebração de profissionais de saúde que têm desempenhando um trabalho excepcional para salvar vidas ou de idosos que começam a retomar encontros com parentes e caminhadas nos parques, após quase 365 dias de confinamento, o que temos visto são relatos de pessoas burlando as regras e furando a fila, para receber a “sua” dose.

Se não bastassem esses comportamentos, desprovidos de escrúpulo ou senso de cidadania, ainda temos de conviver com relatos de políticos e profissionais encarregados de vacinar a população, desviando vacinas para comercializá-las ou oferecer aos seus parentes.

Esses acontecimentos não só causam indignação e um tremendo mal estar, como escancaram a constatação de que a ciência não conseguirá imunizar a sociedade da falta de vergonha, da falta de ética ou a falta de empatia.

Não consigo entender o que leva certos profissionais de saúde que não trabalham em hospitais ou não atendem pacientes contaminados pelo novo coronavírus a achar que “têm o direito” de receber o imunizante antes de outros profissionais que trabalham na linha de frente como, por exemplo, agentes do Samu, motoristas de ambulâncias e de transporte público ou professores. E, até mesmo, pacientes de alto risco, como os que estão em tratamento de um câncer ou portadores de doenças crônicas ou cardiovasculares, entre outras tantas que os tornam grupo de risco para a Covid-19.

Esses comportamentos nos mostram que nós brasileiros precisamos evoluir muito para que tenhamos orgulho de pertencer a uma nação que está realmente unida e dedicada a enfrentar crises com atitudes cidadãs, altruístas e desprovidas de egoísmo e não aquelas baseadas nos privilégios.

Outro ponto que ficou escancarado desde que o processo de imunização no Brasil foi a falta de memória e a simples atitude de reproduzir o que já sabemos fazer e fazemos muito bem. Muitos esqueceram que o Brasil já é, há anos, mais precisamente desde final de 1973, um exemplo em implementar programas de vacinação em massa. Não precisamos de ideias novas, de reinventar programas ou reunir mentes brilhantes para implementar com eficácia a vacinação em massa contra a Covid-19.

Precisamos, em primeiro lugar, “da vacina”. De nada adiantará uma frota de aviões ou uma caravana de caminhões, se não tivermos os insumos para a produção local ou os contratos para compra de vacinas prontas de laboratórios que já testaram seus imunizantes em fase 3.

Pelo que temos acompanhado, o Brasil seguirá imunizando a população em passos lentos. Ao que tudo indica, as negociações para aquisição de outros imunizantes, além dos que hoje têm sido aplicados, ainda não estão sacramentadas e há, também, muitas notícias desencontradas sobre possíveis acordos com fabricantes.

Concretamente? Até agora não temos informação oficial sobre a compra de outras vacinas além das duas que estão sendo aplicadas a conta-gotas. No entanto, notícias de demonstrações egocêntricas, brigas políticas e maus exemplos crescem a cada dia.

Temos, desde final da década de 70, um dos mais eficientes programas nacionais de vacinação do mundo, o PNI (Programa Nacional de Vacinação) com inúmeros casos de sucesso como a erradicação da varíola e do sarampo, eliminação do tétano neonatal, do combate à meningite; ações de controle de doenças imunopreveníveis como difteria, coqueluche e tétano acidental, hepatite B, febre amarela, formas graves da tuberculose, rubéola e caxumba; além do amplamente conhecido programa de erradicação da Poliomielite.

Poucos brasileiros sabem, mas o PNI também coordena a aquisição, distribuição e normatização do uso de imunobiológicos especiais, recomendados para grupos específicos como os de pacientes portadores de imunodeficiência congênita, infectados pelo vírus HIV, portadores de doenças neurológicas e hematológicas, cardiopatas, pneumopatas, pacientes oncológicos e transplantados, que são atendidos nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais – CRIEs espalhados por todo o Brasil.

Como líder de uma organização social dedicada a difundir conhecimento sobre saúde, para que o cidadão em geral e os pacientes possam conhecer seus direitos e trilhar suas jornadas nos sistemas público e privado de saúde; propor alternativas para a sustentabilidade econômica do setor e atuar para que todo brasileiro que precise tenha acesso a diagnóstico precoce, tratamento e reabilitação, tenho uma visão bastante simples de como o Brasil poderia ter assumido um papel destacado na imunização contra a Covid-19 e seguido como referência mundial em vacinação em massa: bastaria comprometimento cívico, vontade política e gestão pública.

Com isso, certamente, a vacina chegaria aos quatro cantos de um País com 8.514.876 km² de extensão territorial em tempo adequado para que pudéssemos iniciar a retomada das atividades e, como propôs a agenda de 2021 do World Economic Forum, “reconstruir a confiança pós Covid-19 e conceber os princípios, as políticas e as parcerias necessárias para 2021”.

Encerro esta minha coluna, três dias antes de completar um ano da data em que o Brasil registrou o primeiro caso da Covid-19 com uma citação sobre a “Ética do Dever” de Immanuel Kant, célebre filósofo da era moderna:

“Dever é uma obrigação de agir segundo uma lei moral ditada pela pura razão, a despeito de quaisquer inclinações sensoriais ou afetivas, ou mesmo de regras e valores de origem religiosa ou política”.

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Marlene Oliveira
Formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) e em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes. É Empreendedora Social e Presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida, organização que dedica esforços para nutrir a população brasileira com informações qualificadas e oferecer orientação sobre as políticas públicas de saúde. Para o Triênio 2019 – 2021, Marlene Oliveira é também Conselheira no Conselho Nacional de Saúde (CNS). É a idealizadora da Campanha Novembro Azul, movimento que ao longo dos anos tornou-se uma ação de domínio público e a maior em prol da saúde do homem no país, e também criadora do Global Forum – Fronteiras da Saúde, evento internacional que discute os desafios e tendências da saúde no Brasil

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