Vacina em 2020 é uma realidade possível, diz CEO da Pfizer

Na Entrevista do Mês, Carlos Murillo traz as perspectivas sobre a vacina contra a Covid-19 e aborda temas essenciais como acesso e a importância da comunicação

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Com mais de duas décadas no setor farmacêutico, o boliviano Carlos Murillo é CEO da Pfizer no Brasil desde 2017. O executivo certamente não esperava que neste ano viveria um dos maiores desafios mundiais já vistos no campo da saúde em toda a história, provocado pela pandemia do novo coronavírus. Ainda mais em um momento em que parte da esperança das pessoas está depositada na chegada de uma potencial vacina elaborada em tempo recorde. Uma delas é da Pfizer. Murillo garante que, quando estiver disponível, será segura: “Uma companhia como a Pfizer não vai se arriscar a colocar no mercado um produto que não cumpra as condições de segurança”.

Na Entrevista do Mês para o Futuro da Saúde, Murillo contou qual o status e previsão de aprovação da vacina, explicou como foi possível avançar em um tempo tão curto, falou sobre a relação com a Anvisa e a possibilidade de um legado do processo mais agilizado em função da Covid-19. O executivo também explorou temas como os desafios e expectativas da produção, a pesquisa de outros tratamentos, o acesso aos medicamentos, a participação do Brasil nas pesquisas globais e importância da comunicação da indústria farmacêutica em tempos de disseminação de notícias falsas.

Como a pandemia afetou a rotina da Pfizer?

A Pfizer estabeleceu três focos no início da pandemia, em março. O primeiro era proteger os funcionários e os colaboradores; o segundo era manter o abastecimento regular de medicamentos, especialmente aqueles de doenças crônicas; e o terceiro investir na pesquisa e desenvolvimento como forma de contribuir para o avanço de combater a Covid-19, tanto em vacina como em tratamento. Nos três temos conseguido avançar muito bem. Temos avançado muito bem em uma potencial vacina.

Como está o status da vacina?

Por séculos, as vacinas têm salvado milhões de vidas, mudaram o curso da história e estamos certo de que isso acontecerá novamente e a ciência vencerá essa batalha. Estamos muito otimistas com o desenvolvimento da potencial vacina e continuamos com o compromisso de trabalhar com as autoridades regulatórias para desenvolver, testar e produzir a partir da técnica de RNA mensageiro (mRNA) contra o novo coronavírus. O Brasil é um dos poucos países que participaram do estudo e os testes aqui estão sendo conduzidos em duas localidades: São Paulo e Bahia. No mundo inteiro, agora são 44 mil pessoas participando dos testes, com 3 100 voluntários no Brasil. Houve uma expansão recentemente que permitirá uma diversidade maior da população participante, incluindo adolescentes a partir de 16 anos de idade, pessoas com HIV estável e crônico, pacientes com hepatite C ou infecção por hepatite B. Os resultados preliminares têm sido muito positivos e estamos com uma expectativa muito boa. Isso tem dado mais confiança para aumentar a participação destes grupos mais jovens, mais velhos e também para o acréscimo de pessoas com outros problemas de saúde.

Os idosos estão contemplados nas pesquisas?

Inicialmente, os estudos começaram com pessoas até 65 anos. Agora, já se ampliou em alguns grupos de até 85 anos. Se os estudos também comprovarem a segurança nesses grupos, a vacina também poderá ser aplicada neles.

“Pelo planejamento, pela forma como foram feitos os estudos, realmente acreditamos que [2020] é uma data muito real e factível [para a vacina de covid-19]”

E como estão os diálogos com os órgãos brasileiros?

Entre final deste mês e começo de novembro, esperamos ter os primeiros resultados de eficácia e segurança do estudo da vacina. Se forem positivos, pretendemos submeter a vacina para a avaliação dos órgãos reguladores mundiais, incluindo a Anvisa aqui no Brasil, ainda em 2020. Portanto, já iniciamos as conversas com a Anvisa para definir o processo para essa futura submissão e a ideia é trabalhar com a agência para fornecer todos os dados necessários para um possível processo de avaliação rápida, que obviamente está alinhada com a necessidade que a pandemia impõe o país.

Não é uma previsão muito otimista pensar que teremos uma vacina ainda em 2020?

Não tenho como dizer que não é otimista, porque é, claro. Mas é uma realidade possível. Nós trabalhamos na indústria de risco. Contudo, pelo planejamento, pela forma como foram feitos os estudos, realmente acreditamos que é uma data muito real e factível. A companhia vem trabalhando em muitas etapas em paralelo e com um desenho de estudo muito interessante.  Muitas vezes, me perguntam como é possível termos uma vacina em menos de um ano pensando que, no passado, a vacina demorava entre 10 e 15 anos para ser desenvolvida. Obviamente essa dúvida surge.

Qual a resposta para isso?

Primeiro, é a urgência. A necessidade requer medidas extremas para uma situação extrema que o mundo está vivenciando. Outro ponto é que, no passado, muitas etapas se faziam de forma sequencial. Então, iniciava-se o estudo fase 1, depois a fase 2, depois a fase 3 e só depois a aprovação regulatória. Com esta aprovação, você começava o processo de manufatura e assim por diante. Agora, muitas dessas etapas foram feitas em paralelo. Então, a Pfizer desenhou um estudo de fase 1 e fase 2 que permitiu a avaliação de várias vacinas experimentais simultaneamente, a fim de identificar a candidata mais segura e potencialmente mais eficaz para ser utilizada em um maior número de voluntários. Em paralelo à fase 3, a companhia já submete dados dos estudos para os órgãos regulatórios. Não era assim antes. Agora, as autoridades estão recebendo resultados quase que ao vivo para que sejam avaliados.

E a questão da manufatura?

A Pfizer já começou a fabricar a vacina assumindo alguns riscos. Amanhã, se a vacina não for aprovada, essas quantidades já produzidas não serão vendidas. Mas se tudo continuar avançando conforme o esperado, a produção não começa do zero. Há também uma questão extra porque estamos falando de uma época sem precedentes em termos de tecnologia. Vai ser a primeira vacina sintética. A vacina tem como base o RNA mensageiro, que utiliza o código genético do patógeno que carrega instruções para as células do corpo produzirem determinadas proteínas. Ou seja, não utilizamos o vírus inativado como em outras vacinas, mas damos uma instrução genética para o maquinário do nosso corpo fazer esse processo.

“A segurança não está comprometida porque está se respeitando os mesmos passos que se cumpria em longo prazo”

Essa tecnologia surgiu agora?

Esta nova tecnologia está sendo muito oportuna para o momento, mas não começou a ser estudada agora. A Pfizer tem uma parceria com a BioNTech desde 2018, justamente para encontrar uma melhor forma de produzir vacinas, principalmente as de influenza. Já se estava trabalhando em uma tecnologia que permita um melhor desenvolvimento de vacinas.

Sabemos que há uma corrida para a aprovação por parte das empresas e há também uma pressão política. Com base em todo esse cenário, é comum que haja essa insegurança. Como responder a isso?

É preciso reforçar que, no nosso caso, pela forma e pelo desenho do estudo, a segurança não está comprometida porque está se respeitando os mesmos passos que se cumpria em longo prazo. Hoje eles estão mais rápidos pelos motivos que expliquei há pouco e estão sendo coordenados com as autoridades regulatórias. No passado, os processos tinham seus tempos, mas agora todo mundo entendeu que agora a corrida é diferente. De novo, não significa que está se pulando etapas e nem que está se deixando de fazer coisas que garantam a segurança.

“Temos espaço e tomara que tenhamos mais de uma vacina. Para a maioria das doenças, você tem mais de um fabricante de vacina. Existe realmente uma limitação em relação à capacidade de produção”

Imagino que nenhuma indústria queira colocar a sua reputação em risco ao expor a população a uma vacina sem segurança, apenas pela velocidade de lançamento.

Exatamente. Seria o contrário do nosso propósito e do nosso modelo de negócio. O nosso propósito é levar saúde para as pessoas. Uma companhia como a Pfizer não vai se arriscar colocar no mercado um produto que não cumpra as condições de segurança. A eficácia desta vacina já foi provada nas fases 1 e 2. Já está provado que a eficácia é muito boa, gera a imunogenicidade. O tema mais delicado são os potenciais efeitos adversos e por isso que é preciso testar em milhares de pessoas. Nesses resultados preliminares, vimos que a segurança está sendo muito boa e justamente por isso expandimos para pessoas mais jovens ou com outros problemas de saúde. Recentemente, o CEO mundial da Pfizer, reuniu-se com CEOs de outras companhias para um compromisso muito importante de que a ciência não pode ser refém de situações políticas. O que garante a todos um bom remédio e uma boa vacina é a ciência, respeitando todos os processos. Eles fizeram esse compromisso de que não vão buscar aprovações antes de cumprir o processo de pesquisa, os prazos e os tempos, apesar de eventuais pressões políticas.

Existe espaço para várias vacinas no mercado?

Temos espaço e tomara que tenhamos mais de uma vacina. Para a maioria das doenças, você tem mais de um fabricante de vacina. Existe realmente uma limitação em relação à capacidade de produção. É um problema que a humanidade já estava vivendo: a sociedade entendeu que a melhor forma de prevenir doenças é a vacina, mas a capacidade de produção da maior parte de vacinas não era suficiente para atender a demanda, até porque o processo de manufatura é muito complexo. Na situação da Covid-19, isso é mais desafiador ainda. Sabemos que este ano conseguimos produzir 100 milhões de doses e, para o próximo, 1,3 bilhão de doses. Se você considerar a população mundial, não é suficiente. Por isso, há espaço para mais de uma vacina. Diferentes tipos estão em testes, desde as tradicionais, com vírus enfraquecido, até vacinas que estão usando novas formas de produção. No Brasil, os potenciais acordos que o país já tem são para plataformas tradicionais que já estavam disponíveis aqui.

“A vacina pode não ser a única solução. Tem que ter também um medicamento. Por mais que tenhamos mais de uma vacina disponível, ainda vamos ter pessoas que vão ficar doentes. E precisamos ter tratamento para essas pessoas”

Como vai ser a produção da vacina da Pfizer?

A empresa vai produzir somente em plantas que já estavam se preparando para esse momento. No futuro, poderá ter a possibilidade de transferência de tecnologia para outros países mas, no começo, a forma mais rápida é produzir de forma centralizada naquelas plantas que já estavam se preparando para essa nova tecnologia.

Por que o investimento em uma vacina e não na busca por um tratamento? É mais fácil encontrar a vacina do que um remédio para a Covid-19?

Não é que é mais fácil. A Pfizer tem uma estratégia que percorre três caminhos em paralelo. O primeiro é a vacina, que já falamos. A outra é um medicamento antiviral específico para a Covid-19. Os cientistas entendem que, por mais que tenha uma vacina, ela não vai poupar 100% da população de ficar doente. Então, uma alternativa terapêutica específica é também muito importante. Temos alguns antivirais testados especificamente para o SARS-CoV-2 e um deles mostrou um potencial significativo. Agora, está passando para a fase 3. É um composto que estava sendo utilizado para combater vírus similares, como o SARS. O processo de um novo medicamento também demora, mas está avançando e acredito que em alguns meses também vamos contar com medicamentos. A terceira estratégia consiste em explorar os medicamentos já existentes no portfólio e avaliar quais deles seriam efetivos. A vantagem, nesse caso, é que já foi aprovado em termos de segurança, então é um processo mais rápido. A solução de médio, curto prazo é a vacina. Mas a vacina pode não ser a única solução. Tem que ter também um medicamento. Por mais que tenhamos mais de uma vacina disponível, ainda vamos ter pessoas que vão ficar doentes. E precisamos ter tratamento para essas pessoas.

“A Anvisa tinha criado um mecanismo especial para a aprovação dos testes no Brasil. Por isso a Pfizer e muitas outras conseguiram fazer em tempo recorde. A agência mudou a forma como era feito no passado. Me parece que isso vai ser um bom legado”

O senhor acredita que esses processos mais ágeis que ocorreram agora na pandemia ficam como legado ou essa movimentação só ocorre quando surge um vírus mortal?

Acredito que ficará um legado. A experiência atual vai ajudar no desenvolvimento e pesquisa de novos medicamentos, já que vimos que há outra forma de ser feito. Claro que a urgência do momento deu uma aceleração especial. Temos aprendido de que várias coisas que fazíamos poderiam ser realizados de formas diferentes, ainda que respeitando os processos e sem pular nenhuma etapa, mas permitindo avançar mais rapidamente.

A indústria farmacêutica sempre teve dificuldade de colocar o Brasil nas pesquisas clínicas. Isso porque os processos regulatórios acabavam atrasando o estudo e poderiam atrapalhar o andamento de uma pesquisa mundial. Isso mudou?

Sem dúvida isso está avançando. Preciso reconhecer que a Anvisa tem feito um bom trabalho de agilizar seus processos agora e já havíamos percebido um bom avanço. Quando estávamos tentando aprovação para fazer estudo clínico no Brasil, incialmente a resposta da empresa, com base nessa experiência no país, disse: “Mas o Brasil demora muito. Não dá para esperar a aprovação”. Mas a Anvisa tinha criado um mecanismo especial para a aprovação dos testes no Brasil. Por isso a Pfizer e muitas outras conseguiram fazer em tempo recorde. A agência mudou a forma como era feito no passado. Me parece que isso vai ser um bom legado. Mostrou que o país tem as condições de participar de um estudo. O Brasil sempre foi um país muito importante para fazer estudo clínico por conta de seu tamanho, sua diversidade populacional, os profissionais e os centros. Os processos sempre foram muito estritos e muito certos, mas em contrapartida eram demorados. Isto foi totalmente diferente no momento atual. E parece que no futuro será também. Inclusive esse projeto de lei que se encontra no Congresso para modernizar como são feitos os estudos clínicos no país também é um grande avanço.

Agora, além da Covid, as outras pesquisas para doenças como câncer, por exemplo, continuam sendo feitas?

Em um momento, os estudos clínicos em andamento para outros medicamentos potenciais ficaram parados porque não era possível recrutar novos pacientes. Agora já está voltando ao normal. A inovação faz parte do DNA da Pfizer. A companhia tem hoje um cenário sem precedentes, com um pipeline promissor que reúne 90 moléculas em estudo. Estamos falando de inovações que poderão mudar a vida de milhões de pacientes em todo o mundo. A Pfizer investe em âmbito mundial aproximadamente 8 bilhões em pesquisa e desenvolvimento em cinco áreas principais: medicina interna, imunologia e inflamação, oncologia, doenças raras e vacinas. Temos na nossa história moléculas que transformaram a forma de tratar doenças de forte impacto para a sociedade. Atualmente, já está se falando de um medicamento de terapia gênica, em que passaremos de um medicamento para a cura de doenças. É impressionante o novo momento da ciência.

Os novos tratamentos são importantes, mas ao pensar em um país como o Brasil, temos um desafio que é a sustentabilidade da saúde e o acesso a esses novos medicamentos. Como você vê essa situação?

É um desafio no Brasil e no mundo inteiro. A sustentabilidade do sistema financeiro é um tema muito complexo. Tem a ver com entender que não podemos ver a saúde só em função do custo ou do preço, mas também a partir dos resultados para o paciente. É preciso que todos trabalhem juntos. Não é um tema só da indústria farmacêutica, do pagador privado, do pagador público ou dos médicos. Se focarmos no resultado, provavelmente vamos encontrar novas formas de manejar e encontrar a sustentabilidade do sistema. É muito importante desenvolver novos medicamentos, mas tão importante quanto desenvolver moléculas capazes de mudar o curso das doenças é atuar para que essa inovação chegue de fato às mãos dos pacientes.

“Esse momento da pandemia tem sido muito oportuno para que a sociedade entenda o valor da ciência e o valor por trás das inovações. No passado, a indústria teve sua parte da culpa. Éramos muito passivos em nossa comunicação”

O que tem sido feito neste sentido?

O trabalho realizado pela Conitec [Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS] até hoje trouxe um impacto muito positivo para a sociedade brasileira, mas há espaço para melhoria. Os tempos de aprovação têm melhorado, mas ainda são longos. A taxa de resposta de inclusão ainda é baixa e deixa fora medicamentos importantes, o que cria um incentivo perverso de judicialização. Com isso, o governo acaba arcando com um produto de preço cheio e mais caro, em vez de algo que poderia ser muito mais acessível se estivesse incluído em algum tipo de programa. É preciso pensar em todos os componentes da cadeia. Dessa forma, vamos encontrar soluções diferentes e inovadoras para a sustentabilidade do sistema. Porque a conta não fecha se seguir pensando no preço do medicamento versus milhões de pessoas. Vamos encontrar formas onde a inovação tenha o seu reconhecimento, mas também os benefícios para o sistema.

Você acha que falta comunicação com a sociedade? Nos últimos tempos, temos visto um aumento das fake news em saúde e a indústria farmacêutica costuma ser uma grande vítima. Algumas dizem que a indústria tem a cura do câncer e não quer contar para a população, entre outras notícias que seguem a mesma lógica de teoria da conspiração. Há um abismo de comunicação com a sociedade. É um tema que é discutido na indústria? É difícil mudar essa mentalidade?

Nós discutimos muito e gera muita frustração para nós. Temos muito orgulho e sabemos os benefícios que a indústria leva para a sociedade. Mas, quando você pergunta para as pessoas, realmente ficamos com uma imagem ruim. Esse momento da pandemia tem sido muito oportuno para que a sociedade entenda o valor da ciência e o valor por trás das inovações. No passado, a indústria teve sua parte da culpa. Éramos muito passivos em nossa comunicação. Claro que há uma parte regulatória também. Somos uma indústria muito regulada, não posso sair falando do meu medicamento diretamente ao paciente e isso geralmente nos levava a ter muita cautela em nossa comunicação. E acho que isso gerou espaço para fake news e falta de entendimento. A indústria e a Pfizer, particularmente, perceberam que para mudar isso precisamos ser muito mais proativos, comunicando nosso lado da história e o que está por trás. Agora a população está mais aberta para ouvir e entender a importância da saúde. Precisamos ser muito ativos nessa comunicação. Hoje estamos com mais espaço também na própria imprensa. É preciso aproveitar esse momento para mostrar o que fazemos em prol da sociedade.

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