Vacina contra covid-19: uma realidade próxima ou distante?

Se a próxima etapa de pesquisa tiver resultados positivos, ainda é preciso viabilizar a aprovação pelo órgão regulador, a produção das doses e a distribuição

               
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O mundo ficou sabendo da existência do coronavírus em janeiro deste ano. Sete meses depois, já estamos falando na produção de vacinas para proteger a população da covid-19. Se tudo der certo, será sim um tempo recorde. Toda esperança está atrelada ao sucesso das pesquisas com a vacina. Voltaremos a sair sem máscara, a abraçar quem amamos, a aglomerar em shows, eventos, viajar… a lista é longa. Mas será que é tudo tão simples assim?

Toda semana o noticiário divulga algum resultado promissor, com dados que indicam que a vacina está mais próxima. Só que algumas confusões têm sido feitas nesse processo. Antes de tudo, é preciso saber que, embora os estudos estejam avançando, há um processo que deve ser seguido para que uma vacina esteja disponível. Se a próxima etapa de pesquisa tiver resultados positivos, ainda é preciso viabilizar a aprovação pelo órgão regulador, a produção das doses e a distribuição.

Por que tantas vacinas?
Temos pelo menos 6 vacinas que estão (ou estão prestes a entrar) na fase III da pesquisa clínica. Em primeiro lugar, as vacinas não são iguais e utilizam metodologias diferentes para garantir a proteção contra o vírus. “A vacina da farmacêutica chinesa Sinovac é feita a partir do vírus inativado, já a vacina de Oxford, desenvolvida em parceria com a farmacêutica AstraZeneca, usa uma tecnologia de engenharia genética em que cria uma espécie de vírus híbrido para produzir uma resposta imune”, segundo explicou o infectologista Celso Granato, diretor clínico do Grupo Fleury. Em segundo lugar, à parte da questão científica, há também uma corrida do próprio mercado farmacêutico para encontrar uma arma para derrotar o vírus. Toda vez que um novo resultado é publicado, as ações dessas empresas sobem (ou descem, dependendo do que foi encontrado).

Vamos ter mais de uma vacina ao mesmo tempo?
Isso vai depender dos resultados das pesquisas. Se todas as vacinas tiverem resultados positivos, pode ser que tenhamos mais de uma disponível sim.

Mas qual é melhor?
Não é possível ter essa resposta sem o resultado dos estudos. Pode ser, inclusive, que as vacinas sejam usadas como estratégias complementares. Não se sabe, por exemplo, se serão necessárias duas doses para garantir a imunização ou se uma será suficiente. Outros fatores também podem influenciar a disponibilidade. “Vacinas podem ser sensíveis a temperaturas mais altas e podem precisar de uma infraestrutura específica para logística e distribuição”, segundo Granato.

Imunização em massa
A estimativa, de acordo com o infectologista, é que pelo menos 60% da população precise ser vacinada para frear a disseminação do vírus. Ou seja, no Brasil, seriam necessárias 130 milhões de doses. Para que isso seja alcançado, é necessário criar uma infraestrutura que envolve a fábrica para a produção da vacina, frascos, seringas, recursos humanos, logística de distribuição, entre outros passos.

Distribuição somente pelo SUS ou também por clínicas particulares?
Isso vai depender do volume de vacinas ao qual teremos acesso. Diz Granato: “Se tivermos um volume relativamente restrito de dose, provavelmente o governo vai reter essas doses e estabelecer uma política de priorização: profissionais da saúde, segurança pública e idosos, por exemplo. Caso o volume de doses seja mais amplo, provavelmente isso iria, em parte, para a iniciativa privada”.

Quanto tempo demora
Algumas farmacêuticas falam em doses disponíveis até o fim deste ano, mas a Organização Mundial da Saúde já afirmou que não se deve esperar por uma vacina até o primeiro semestre de 2021. A fase III de estudos clínicos ainda demora alguns meses até que os resultados estejam disponíveis. É nessa fase que um grande número de voluntários é recrutado. As pessoas são divididas em grupos, uma parte recebe a vacina e a outra parte recebe uma substância inócua. Depois, os cientistas comparam os resultados. Se os estudos demonstrarem eficácia da vacina para a proteção da covid-19, ainda há o processo de aprovação, de produção e de distribuição. “Quando chega na ‘fórmula do bolo’, a escalabilidade é muito grande. Em três meses, se a infraestrutura já está preparada, é possível produzir um número alto de doses”, afirma o infectologista.

Brasil vai ter vacina
As pessoas ficaram assustadas quando o presidente americano Donald Trump anunciou a compra de 100 milhões de doses para os Estados Unidos após acordo com Pfizer e Biontech. Mas isso não quer dizer que o Brasil vai ficar sem vacina. O país acertou em fazer as parcerias para a realização de estudos clínicos aqui e a transferência de tecnologia para produção local. Não podemos esquecer que o Brasil tem tradição em vacinação e é referência mundial nesse tema. A quantidade de doses que precisamos, no entanto, depende de outros fatores também. Além de um resultado bem-sucedido na pesquisa, será necessária a criação de política de distribuição, investimento em infraestrutura como a construção de fábricas e disponibilidade de frascos, seringas, por exemplo. Vimos o que aconteceu quando o mundo inteiro estava em busca de respiradores. Pode ser que essa guerra ocorra novamente.

Segurança ok, mas e a eficácia?
O que os resultados preliminares mostraram até agora é que, sim, a vacina é segura e não tem efeitos colaterais graves. Além disso, a vacina também foi capaz de induzir uma resposta do sistema imunológico. Falta descobrir outras informações como por exemplo quantas doses serão necessárias, qual o grau de proteção, se a vacina evita a doença de modo geral, se evita que as pessoas fiquem em estado grave, se impede que os casos leves ocorram, entre outras questões que ainda estão sendo investigadas.

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