Um passo adiante ao olhar para o câncer de mama

Devemos atuar no Brasil não só em outubro, mas ao longo do ano todo e chamar a atenção da saúde da mulher por inteiro

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Neste mês de outubro, não poderia começar a escrever meu artigo sobre outro assunto que não fosse a saúde das mulheres. Desde o início da década de 90 e com mais ênfase a partir de 1997, com a intensificação da campanha internacional do Outubro Rosa, o mundo reforçou as ações de conscientização para o diagnóstico precoce do câncer de mama, a segunda neoplasia mais incidente no planeta, atrás do câncer de pulmão e a quinta em índice de mortalidade, segundo dados de 2018 da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Não entrarei aqui nos dados numéricos do impacto do câncer de mama no mundo e no Brasil, pois há centenas de publicações oficiais e artigos qualificados com essa abordagem e eu seria repetitiva. Porém, quero dar luz e foco não ao específico, mas sim à necessária ação de alardear a importância dos cuidados com a saúde integral das mulheres, das jovens e das meninas. E é nesse contexto que acredito que devemos atuar no Brasil não só em outubro, mas ao longo do ano todo e chamar a atenção da saúde da mulher por inteiro.

Já faz vários anos que tenho trabalhado em parcerias, como essa com o portal Futuro da Saúde, para amplificar as ações de conscientização para que as brasileiras também dediquem seu olhar para os demais tumores que atingem a população do sexo feminino: os tumores ginecológicos, como o de colo de útero; de ovário e do endométrio. Esse alerta dá-se porque em minhas andanças pelo País, ouço relatos de que há inúmeras mulheres que passaram a entender a necessidade de realizar a mamografia, principal exame para detecção do câncer de mama, mas não têm a mesma preocupação com o diagnóstico precoce dos demais tumores femininos.

Um contingente enorme de brasileiras não procura o serviço médico para realizar o exame de Papanicolau e a consulta com o ginecologista, disponível na rede pública e, ainda mais assustador, é a baixa adesão à vacinação contra o HPV, também oferecida pelo SUS (Sistema Único de Saúde) gratuitamente para as meninas de 9 a 14 anos. A simples atitude de vacinar as filhas – e filhos, já que meninos também estão incluídos no programa vacinal – previne o desenvolvimento do câncer de colo de útero, como abordei em detalhes no meu artigo publicado neste Portal em agosto.

O impacto das ações do Outubro Rosa é excepcional e esse movimento foi, certamente, um divisor de águas no cenário da oncologia. A partir da criação da campanha nos Estados Unidos e sua disseminação pelo mundo, mulheres e homens passaram a buscar informações sobre o câncer de mama e, ano após ano, encará-lo com menos tabu e, ainda mais relevante, abrindo espaço para que pacientes que enfrentam o seu diagnóstico ou estão em tratamento ganhassem voz e passassem a ser verdadeiras testemunhas de que quanto antes tratar o tumor, maiores as chances de cura. Mais recentemente, falar sobre o câncer de mama incentivou as mídias tradicionais e as redes sociais a publicar notícias e informações sobre as pesquisas e os avanços da medicina genética e, consequentemente, para divulgar as constantes evoluções dos tratamentos oncológicos, que estão mais eficazes e menos agressivos.

No entanto, estamos longe de celebrar. E quando digo isso, ressalto que não estou me referindo somente ao que diz respeito ao câncer de mama e aos demais tumores femininos, mas, sim, ao que se refere ao cenário da oncologia em geral.

Em fevereiro deste ano, a OMS divulgou um alerta sobre a necessidade de ampliação dos serviços de atenção à saúde destinados ao tratamento de câncer em países de baixa renda, que respondem por aproximadamente 70% das mortes causadas pela doença. As previsões da agência global especializada em saúde são as de que, mantidas as tendências atuais, os casos de câncer no mundo aumentarão 60% nos próximos 20 anos, sendo que 81% de novos casos serão registrados nesse universo de países, onde encontra-se o Brasil e, consequentemente são locais onde há menores taxas de sobrevivência. Somente em 2018, foram diagnosticados 18 milhões de novos casos e 9,6 milhões de pessoas morreram em decorrência de doenças oncológicas em todo o mundo.

Na região das Américas, no mesmo ano de 2018, cerca de 3,8 milhões de pessoas foram diagnosticadas com câncer e 1,4 milhão foram a óbito pela doença. Um dado que chamou muito a minha atenção e me faz dedicar ainda mais energia e tempo para trabalhar pela prevenção e pelo diagnóstico precoce do câncer, foi o de que 57% dos casos e 47% das mortes por doenças oncológicas ocorreram em pessoas com 69 anos ou menos. Esse é um cenário que deveria tirar o sono de gestores públicos e ser um incentivo para que a sociedade civil se mobilizasse para discutir o que pode ser feito para diminuir as estatísticas em nosso país que, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), deverá registrar 625 mil novos casos ao ano no triênio 2020-2022.

Essa constatação é mais um forte incentivo para que as organizações da sociedade civil aumentem suas atividades e intensifiquem as ações para levar informação sobre câncer aos quatro cantos do país. Há inúmeras possibilidades para ampliar esse eco, por exemplo “turbinando” as redes sociais com conteúdo qualificado que informe a população sobre os distintos tipos de câncer, alertando os indivíduos para que não deixassem de cuidar da saúde de forma integral, mesmo em um ano impactado pela pandemia do novo coronavírus.

Neste ano de 2020, houve um empenho gigantesco de organizações sociais, como o nosso Instituto Lado a Lado pela Vida, para alertar a todos os brasileiros que o vírus pode ter parado o mundo, mas ele não parou o desenvolvimento de inúmeros casos de câncer e, muito menos, o trabalho intenso e vigilante de milhares de médicos, enfermeiros, gestores, empresários e voluntários. E é esse caminho que devemos seguir, o de incentivar a população a assumir o seu lugar de protagonista na necessária mobilização social em prol da saúde e da vida no Brasil.

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