Transplantes de órgãos no Brasil: falta de doadores e recusa familiar ainda são maiores desafios

Transplantes de órgãos no Brasil: falta de doadores e recusa familiar ainda são maiores desafios

Com mais de 29 mil transplantes de órgãos em 2023, Brasil precisa reduzir o índice de recusa familiar e estruturar equipes na região Norte.

By Published On: 17/04/2024
Sistema de transplantes de órgãos do Brasil é exemplo para o mundo, mas falta de doadores ainda é entrave.

O lançamento do aplicativo do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para registrar o interesse da população em ser doador de órgãos é uma iniciativa para tentar resolver o maior gargalo nessa área no Brasil: a falta de doadores e a alta taxa de recusa familiar, quando a família do doador decide não seguir com o processo, que chega a 42%. Após 3 anos, o Brasil conseguiu ultrapassar os números pré-pandemia, chegando a 19,9 doadores a cada milhão de habitantes, aquém do índice considerado ideal, cerca de 40 doadores. Mesmo sendo o 4º país no ranking de nações que mais realizam transplantes de órgãos no mundo e tendo atingido recordes de doações em 2023, com mais de 29 mil transplantes realizados, o país convive com a falta de órgãos. 

De acordo com especialistas ouvidos pelo Futuro da Saúde, o país tem qualidade técnica, profissional e hospitalar suficiente nessa esfera. Contudo, o grande desafio é tornar a doação de órgãos uma cultura no país, assim como a Espanha, grande referência no tema, que atingiu o patamar ideal e tem uma recusa familiar de apenas 16%. Para isso, é preciso esforços do Governo e da população para inserir o tema no dia a dia.

Mesmo com os desafios, o Sistema Nacional de Transplantes (SNT) é visto pelos especialistas como um modelo para o mundo. Com organização e credenciamento de equipes capazes de atender a população, o país é considerado como um serviço que é eficaz e transparente, conseguindo atender a população.

Para Gustavo Ferreira, presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) e diretor do Programa de Transplantes da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora, esse sistema faz com que não haja desperdícios de órgãos, pois quando há recusa de um estado ele é oferecido para outro. “O ideal é conseguir 80% da utilização de órgãos, e atualmente estamos na margem de 65%. Estamos tentando melhorar alguma forma de comunicação entre a atuação e os exames complementares ofertados. Mas temos um modelo bem desenvolvido no Brasil para os transplantes de órgãos”, afirma.

Falta de doadores e recusa familiar

No entanto, o presidente da ABTO afirma que o grande desafio do país é conseguir mais doadores e autorização das famílias. A lista de espera brasileira em 2023 era estimada em 60 mil pessoas aguardando por um transplante, sendo mais da metade, cerca de 32 mil, à espera de um rim, e 24 mil de córnea, de acordo com dados do Registro Brasileiro de Transplantes.

“Se compararmos com países de primeiro mundo, ainda podemos crescer muito. Em Santa Catarina e Paraná já atingimos os 40 doadores por milhão de habitantes, que é o grande modelo que a Espanha segue. No entanto, estados como São Paulo e Minas Gerais, que são bem desenvolvidos e estão com número de doações inferiores, podem crescer também. Mas nas regiões Norte e Nordeste os números ainda são inferiores”, afirma Gustavo Ferreira.

Enquanto a média nacional de recusa familiar é de 42%, o Paraná tem um índice de 27% e Santa Catarina de 32%. As maiores recusas ficam com o Mato Grosso, com 78%, estado que não realiza transplantes, e o Amazonas, com índice de 75%, que retomou a realização de transplantes de rins em 2023.

“A Espanha conseguiu desenvolver uma cultura muito grande perante a sociedade e os órgãos de saúde para o desenvolvimento da doação de órgãos. Foi um trabalho feito pelo governo espanhol durante décadas. Desde a escola para crianças pequenas já se fala em doação de órgãos, e isso se perpetua depois durante a formação mais avançada escolar dessas pessoas. Isso é discutido em todos os âmbitos da sociedade, como no cinema espanhol”, afirma Ferreira, que aponta a iniciativa do CNJ como uma possibilidade de ampliar a discussão, mas que é preciso avaliar o impacto.

Desigualdades regionais nos transplantes de órgãos

As desigualdades regionais também se refletem no transplante de órgãos. Assim como na saúde como um todo, existe a centralização de serviços especializados em algumas regiões. No caso dos transplantes de órgãos, Sul e Sudeste realizam a maioria dos procedimentos, recebendo pacientes de todo o país. Tocantins, Sergipe, Roraima, Rondônia, Mato Grosso e Amapá são estados que realizaram em 2023 apenas transplantes de córneas, seja por falta de estrutura ou equipe habilitadas, o que pode trazer custos para o sistema com a transferência de pacientes para outros estados.

O Amazonas esteve nesta mesma situação, mas desde o ano passado realiza transplantes de rins entre pessoas vivas. São os primeiros passos em direção à retomada dos transplantes de órgãos, que desde 2016 praticamente não eram realizados, apenas transplantes de córneas. Em 2023, 45 rins foram transplantados com doadores vivos. Agora, com 67 transplantes acumulados até o momento, a equipe irá partir para transplantes com doadores falecidos.

Parte dessa mudança ocorre por uma parceria do Governo do Estado com o projeto Transplantes Sem Fronteiras para retomar a realização de procedimentos. “Estamos há 1 ano em Manaus, chegamos em março de 2023. Em julho fizemos o primeiro transplante e hoje, 16 de abril, completamos o transplante de número 67. Saímos do zero, não se fazia nenhum por milhão de habitantes, e agora iremos abrir a fila de doadores falecidos. Atualmente fazemos transplantes intervivos”, explica Leon Alvim, nefrologista responsável pela equipe clínica de transplantes que está atuando no Hospital Delphina Aziz e médico do Transplante Sem Fronteiras.

Alvim explica que o projeto consiste em, ao invés de levar o paciente para operar em outras regiões, médicos com formação e experiência em transplantes de órgãos se deslocaram para o Amazonas e estão desenvolvendo as equipes locais, com treinamentos e acompanhamento. Segundo ele, houve interesse do Governo atual em resolver esse gargalo, e outros tipos de transplantes estão em negociação.

O médico, que também é coordenador nefrológico do Hospital Leforte, do Grupo Dasa, vê com bons olhos a possibilidade de desenvolver as equipes locais ao invés de realizar contratações de profissionais de fora do estado. Com a possibilidade de desenvolver residências especializadas na região, o Amazonas pode criar uma estrutura que forneça profissionais da saúde para o setor de transplantes.

Durante o treinamento, médicos cirúrgicos e clínicos, enfermeiros, assistentes sociais, anestesiologistas, nutricionistas e psicológicos, além de toda a equipe de laboratório e radiologia, estão envolvidos no processo. Com o sucesso dos transplantes intervivos, a equipe irá se adaptar agora para a nova fase.

“A equipe vai ficar mais um ano, vai abrir a fila de doadores falecidos. É um cenário um pouco diferente, a qualquer hora e que precisa de agilidade. O setor de transplantes foi montado com tudo de melhor possível, com uma equipe motivada e envolvida. Seria uma surpresa se o Amazonas não despontasse como um centro transplantador de qualidade e referência para o Brasil”, analisa Leon. Segundo ele, o potencial é de se tornar um dos 10 maiores estados em realização de transplantes de rins.

Saúde suplementar

Ao redor do Brasil, os hospitais privados também têm papel na realização de transplantes, com cerca de 10% do total das cirurgias feitas no país. “A saúde suplementar já participa do processo de doação de órgãos, é bem prevalente na maioria das UTIs do país. Já sobre os transplantes, qualquer valor que venha a financiar a atividade e não pese tanto no SUS, traz benefícios para o programa. Mas o mais importante é que isso não muda a chance do paciente receber um órgão, a organização é feita independente da fonte financiadora, cor, raça, gênero e religião”, avalia Gustavo Ferreira, presidente da ABTO.

Referência em transplantes de fígado pediátrico, o Hospital Sírio-Libanês desenvolve, junto ao Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde, PROADI-SUS, como detalha Rodrigo Vincenzi, coordenador do Centro de Reabilitação Intestinal e Transplante da instituição: “O Sírio-Libanês tem um grande papel no transplante de órgãos no Brasil, é uma potência no transplante de fígado pediátrico. É um centro com um grande volume, que completou neste mês 1.500 crianças transplantadas. A maior parte deles foi realizada pelo SUS, por meio de parceria através do PROADI, firmado em 2009”.

Os hospitais privados também realizam procedimentos via planos de saúde. Dentro do rol de procedimentos e eventos da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), existe a cobertura para transplantes de fígado, rim, córnea e medula, podendo realizar cirurgias nos cerca de 51 milhões de beneficiários.

“Os hospitais privados têm uma boa participação, mas há uma concentração em alguns estados, principalmente no Sudeste. A região Norte é carente. Com a entrada de algumas modalidades no rol da ANS, pode ajudar a desafogar um pouco o SUS. É um sistema muito importante para a população, mas ainda é sobrecarregado. O papel dos hospitais privados está em reduzir o impacto e conscientizar as pessoas sobre doação”, afirma o coordenador.

O Sírio-Libanês também é referência na realização de técnicas para aproveitar os órgãos de diferentes formas, em um cenário de escassez. É o caso do split, quando se divide um órgão para duas pessoas, como no caso de fígado. Também há o transplante dominó, em situações que o paciente precisa de um transplante por uma alteração metabólica, mas o órgão pode ser doado para outra pessoa. No hospital também foi realizado o primeiro transplante de intestino intervivos da América Latina, em 2019.

“A falta de doadores é o maior gargalo. Temos um dos maiores sistemas públicos de transplantes do mundo e temos no setor privado equipes brilhantes prontas para realizarem um grande número de transplantes, mas acaba tendo falta de órgãos. A conscientização da população sobre a importância e melhorias no sistema público para preservação dos doadores são pontos importantes”, avalia Vincenzi.

Ele explica que as técnicas de transplantes avançaram pouco nos últimos 20 anos, mas a possibilidade de alternativas, como os xenotransplantes, com órgãos provenientes de animais e modificados geneticamente, podem contribuir com o cenário. “Ainda não temos o sucesso absoluto em fazer transplantes com esses tipos de órgãos para ter um desfecho favorável, mas estamos vendo evolução do ponto de vista de tolerância imunológica”, conclui.

Rafael Machado

Jornalista com foco em saúde. Formado pela FIAMFAAM, tem certificação em Storyteling e Práticas em Mídias Sociais. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou no Portal Drauzio Varella. Email: rafael@futurodasaude.com.br

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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