O que falta para realizar as transformações necessárias à sustentabilidade do sistema de saúde brasileiro?

O que falta para realizar as transformações necessárias à sustentabilidade do sistema de saúde brasileiro?

Conforme destacado em artigo recente da revista The Economist1, o […]

By Published On: 19/04/2023
Transformações Necessárias - Fabricio Campolina

Conforme destacado em artigo recente da revista The Economist1, o setor de saúde sofre globalmente com o impacto da demanda reprimida durante a pandemia, somado ao burnout de seus profissionais, desorganização das cadeias produtivas globais, crescente inflação médica e maior custo de capital. Esta também é uma realidade no Brasil, tanto no Sistema Único de Saúde (SUS), quanto na saúde suplementar, e demanda transformações necessárias. Aqui, somam-se aos fatores acima, possíveis custos adicionais associados ao rol exemplificativo da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS); indefinições sobre as fontes de financiamento para o piso estabelecido pela PEC da Enfermagem; incertezas quanto à reforma tributária; incorporação de terapias de altíssimo custo e as crescentes fraudes de reembolso praticadas contra os planos de saúde.

Neste cenário, a preocupação de todas as esferas da sociedade em relação ao sistema de saúde é legítima e bem-vinda. Afinal, para 32% da população brasileira, saúde deve ser a principal prioridade do atual governo, segundo apontou pesquisa do Instituto Datafolha, publicada nesse ano2. Esta relevância, somada a notícias sobre as filas no SUS, prejuízos no setor de saúde suplementar e o aumento significativo de insatisfação dos usuários3, aumentam a crença de que algo diferente precisa ser feito.

Neste contexto, é compreensível que apareçam propostas de soluções baseadas em interpretação de dados públicos, sem o aprofundamento adequado, e também que alguns especialistas sejam céticos em relação aos caminhos apontados pelos Think Tanks da saúde no Brasil, passando a defender propostas heterodoxas. 

Ainda que tenham boa intenção e sejam propositivas, algumas destas opiniões consideram diagnósticos superficiais ou apresentam propostas que causam distrações, tornando ainda mais confuso o debate.

Acima de tudo, neste momento, é preciso ter serenidade para avançarmos na direção apropriada. Em minha visão, sabemos quais são os principais problemas do setor e quais ações são necessárias para promover um sistema mais efetivo, sustentável e com maior equidade.

O desafio real é a dificuldade em implementar as ações estruturantes necessárias em um sistema de saúde pressionado para melhorar os resultados financeiros no curto prazo e impactado pela continua mobilização para atender interesses corporativos. Além disto, a desconfiança generalizada existente no setor somada à forte assimetria de informações, torna este desafio ainda mais complexo.

Então, como conseguir avançar com a agenda estruturante no setor de saúde? O conhecimento acumulado na promoção de transformações em larga escala4,5,6pode trazer insights importantes, dentre os quais destaco:

1. Compromisso público de autoridades, entidades setoriais, sociedades de profissionais de saúde e pacientes e da alta liderança das organizações líderes do setor em relação a uma visão de mudança inspiradora, clara e convincente, e definição de metas necessárias para promover estas mudanças no horizonte de 2025 e 2030. Este compromisso poderia ser inspirado na Agenda 2030 da ONU, acordo firmado em 2015 pelos seus 193 Estado-membros, com objetivo de pôr o mundo em um caminho de desenvolvimento sustentável por meio de medidas ousadas e transformadoras e suportada por uma ambiciosa lista de metas a serem cumpridas até 2030.

2. Foco em iniciativas que gerarão valor em um curto espaço de tempo e celebração das conquistas para manter todos engajados com a transformação. Cuidados à Saúde Baseados em Valor (Value-Based Health Care, na sigla em inglês) é uma ótima ilustração sobre este ponto. A expectativa não realizada de uma mudança estrutural rápida e abrangente no setor faz com que algumas lideranças percam a crença neste modelo. Por outro lado, casos de sucesso na implementação de linhas de cuidado para alta complexidade, como o IPU for Metabolic Syndrome and Obesity7 da Santa Casa de Porto Alegre, finalista da maior premiação global para projetos de VBHC, inspiram outras lideranças a continuar nesta jornada.

3. Estabelecer um ritmo efetivo para avançar com as mudanças é outra chave para se ter sucesso nestas transformações, pois a velocidade influencia a mobilização de pessoas em torno das soluções.

4. Construir capacidades e incentivos que promovam a mudança desejada, ou seja, regulamentações que definam incentivos financeiros para adoção de VBHC, estilo de vida saudável, alocação efetiva dos recursos, e que punam rigorosamente desvios de condutas e fraudes. A isto se soma a criação de capacidades como prontuário eletrônico universal integrado, com todos os dados dos pacientes – donos de sua informação, e sistemas de inteligência artificial que, analisando estes dados, antecipem e orientem estes pacientes no cuidado de sua saúde.

Em resumo, existe risco de que a conjuntura atual leve à perda de confiança no caminho apontado pelas lideranças do setor e que o debate se torne ainda mais confuso e distante de uma solução. Precisamos ser mais efetivos no avanço dos eixos estruturantes identificados, alavancando melhores práticas de transformação para promover avanços iniciais robustos e, desta forma, iniciar o círculo virtuoso que tanto necessitamos neste momento.

Referências:

1. https://www.economist.com/finance-and-economics/2023/01/15/why-health-care-services-are-in-chaos-everywhere

2. https://g1.globo.com/politica/noticia/2023/04/01/datafolha-saude-prioridade-governo-lula.ghtml

3. https://valor.globo.com/empresas/noticia/2023/04/10/empresas-de-saude-perdem-valor-e-cliente-reclama-mais.ghtml

4. The Secret Behind Successful Corporate Transformations (hbr.org)

5. 4 Actions Transformational Leaders Take (hbr.org)

6. https://www.mckinsey.com/capabilities/people-and-organizational-performance/our-insights/the-four-building-blocks–of-change

7. https://vbhcprize.com/ipu-for-metabolic-syndrome-and-obesity/

Fabricio Campolina

Fabricio Campolina é referência no setor quando o assunto é tecnologia, inovação e transformação digital e, atualmente, é presidente da Johnson & Johnson MedTech Brasil. Graduado em ciência da computação pela UFMG, possui ainda especialização em gestão de negócios pelo Ibmec e MBA em administração de negócios pela Duke University, onde se graduou entre os top 10% de sua classe. Foi também presidente do conselho da ABIMED, onde liderou o processo de reposicionamento estratégico da associação, e é membro-fundador do Instituto Coalização Saúde.

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Fabricio Campolina é referência no setor quando o assunto é tecnologia, inovação e transformação digital e, atualmente, é presidente da Johnson & Johnson MedTech Brasil. Graduado em ciência da computação pela UFMG, possui ainda especialização em gestão de negócios pelo Ibmec e MBA em administração de negócios pela Duke University, onde se graduou entre os top 10% de sua classe. Foi também presidente do conselho da ABIMED, onde liderou o processo de reposicionamento estratégico da associação, e é membro-fundador do Instituto Coalização Saúde.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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