Tornando-se mãe em tempos de pandemia

Não é tarefa fácil em momentos “normais”, já que o nascimento de um filho é  naturalmente um período de maior vulnerabilidade para as mulheres, o que dirá durante uma pandemia. São tantas mudanças, hormonais, físicas, emocionais, que a tristeza ou “blues” é quase a regra.

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A pandemia causada pelo covid-19 alterou a realidade de diversas formas. Para algumas famílias, representou a morte de pessoas queridas e a perda do emprego. Para outras, gerou uma aproximação e convivência sem precedentes. Para as gestantes e mães de bebês pequenos, vem amplificando incertezas e angústias próprias deste momento da vida.

No mês em que celebramos as mães, uma bela foto-reportagem no NY Times mostra como mães de bebês nascidos durante a pandemia vêm lidando com esse momento. São imagens e textos que refletem a ansiedade de ser mãe em um mundo com muitas ameaças, e a capacidade de muitas em criar um ambiente de afeto e segurança e de se manterem sensíveis e responsivas às necessidades emocionais e físicas de seus bebês. Essa capacidade da mãe em blindar a relação com seu filho contra as ameaças do mundo, e ainda assegurar o afeto, a criatividade e o prazer na interação, é fundamental para um desenvolvimento saudável. É na relação com a mãe que o bebê encontra o estímulo para se desenvolver, a regulação do desconforto, o prazer no toque e na amamentação, a segurança contra o desconhecido. É esta a relação que servirá como base para o desenvolvimento das emoções e da sua personalidade, como modelo para as relações futuras.

Não é tarefa fácil em momentos “normais”, já que o nascimento de um filho é  naturalmente um período de maior vulnerabilidade para as mulheres, o que dirá durante uma pandemia. São tantas mudanças, hormonais, físicas, emocionais, que a tristeza ou “blues” é quase a regra. Muitas desenvolvem depressão clínica, que pode trazer problemas ao desenvolvimento das crianças ao longo dos anos seguintes, além de um sofrimento grande às mulheres.

Infelizmente, a depressão no puerpério ainda é cercada de desconhecimento e estigma e a maioria não recebe tratamento. Muitas mães sentem-se culpadas porque estão tristes, porque sentem-se aliviadas quando alguém cuida de seu filho, ou ainda sentem que é esperado que não durmam para garantir que o bebê está seguro. Isso faz com que não contem para ninguém o que se passa com elas. São muitas as barreiras para que possam receber ajuda nesse momento. Em nosso grupo de pesquisa, desenvolvemos o Motherly, um app de uso livre específico para saúde mental materna e estamos testando o seu efeito em prevenir e tratar a depressão. Estratégias como essa, que podem alcançar um grande número de mulheres e que podem ser utilizadas em casa, nos momentos em que o bebê está dormindo, por exemplo, são promissoras para reduzir os prejuízos sociais causados pela depressão materna.

Nossa sociedade tem a tendência de caracterizar as mães como seres quase míticos, indestrutíveis, com forças inesgotáveis. Essa imagem só aumenta a culpa daquelas que estão fragilizadas. Ainda não sabemos se a pandemia representará o aumento das taxas de depressão durante a gestação e no puerpério na população. Não seria surpreendente se isso ocorresse, dado o cenário de insegurança e incerteza em que vivemos e a vulnerabilidade desse momento. Para que as mães possam efetivamente criar um ambiente de afeto e segurança para seus bebês, é fundamental que a família, a comunidade e o Estado estejam ao seu lado, dando o suporte que elas necessitam. O cuidado das crianças não é apenas uma tarefa das mães, mas de toda a sociedade.

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