Desenvolvimento de novas terapias para transtornos mentais esbarra na própria complexidade das condições

Desenvolvimento de novas terapias para transtornos mentais esbarra na própria complexidade das condições

Avanços na descoberta e interpretação de biomarcadores, além de investimentos em novas classes de medicamentos, estão entre apostas para o futuro

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By Published On: 24/04/2024
Terapias para transtornos mentais

Foto: Adobe Stock Image

Nos últimos anos, a saúde mental assumiu um lugar de preocupação para diferentes atores do sistema de saúde – de gestores públicos ao RH de empresas. Isso porque estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que uma em cada oito pessoas vive com algum transtorno mental, totalizando quase 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo – a pandemia tratou de evidenciar ainda mais esse problema, desencadeando um aumento de 25% nos casos ansiedade e depressão, segundo a entidade.Mas, ao contrário de áreas da medicina como oncologia e doenças raras, que vivem um boom de novas soluções e tratamentos, as terapias para transtornos mentais não têm experimentado o mesmo nível de desenvolvimento.

A baixa disponibilidade de fármacos para o tratamento de transtornos psiquiátricos na comparação com outras condições foi destacada no “Plano de Ação Integral de Saúde Mental 2013-2030” produzido pela OMS. Embora reconheça a necessidade de explorar abordagens não farmacológicas, a entidade admite que essa lacuna impacta o tratamento adequado e o acesso à saúde daqueles pacientes que seriam beneficiados pelo uso de medicações.

“Nos últimos 15, 20 anos, tivemos pouca coisa realmente nova. Não que tenhamos parado de tentar, mas o desenvolvimento de uma nova substância é complexo e custoso”, argumenta Mario Rodrigues Louzã Neto, psiquiatra e coordenador do Programa Esquizofrenia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCFMUSP).

A carência de inovação no desenvolvimento de novas classes de medicamentos psiquiátricos foi rotulado até mesmo como um período de “abstinência” em artigo publicado em 2022 na renomada revista científica Science. A publicação aponta que um dos principais motivos para o aparente desinteresse de investimento em pesquisas de novas moléculas com foco na psiquiatria é a complexidade por trás da fisiopatologia dos transtornos. “A linguagem da doença psiquiátrica são os sintomas, a linguagem da farmacologia são as moléculas e, neste momento, não temos nenhum material que traduza esses sintomas em moléculas e que possa nos ajudar a combinar o medicamento certo com o paciente certo”, diz o texto.

Descoberta de genes e biomarcadores

Em outras áreas da medicina, a descoberta de biomarcadores para determinadas condições de saúde tem ajudado a ciência a desenvolver moléculas com atuações específicas. Na psiquiatria, de acordo com um artigo de revisão publicado na revista Front Psychiatry, diversos estudos nos últimos anos têm associado uma gama de genes a diversos transtornos psiquiátricos. No entanto, ainda não se sabe o papel exato de cada gene nos quadros psiquiátricos, uma vez que a natureza de tais condições é multifatorial e inclui fatores biopsicossociais.

“O cérebro é um órgão muito complexo, que vai se construindo ao longo do tempo e é extremamente plástico. Isso faz com que seja um órgão muito sujeito ao ambiente”, detalha Louzã Neto. “Na esquizofrenia, por exemplo, calculamos que há cerca de 300 genes envolvidos e cada microgene dá uma pequena chance de risco maior para esquizofrenia, mas ele sozinho não é capaz disso. Por isso, às vezes, pessoas que viveram exatamente as mesmas situações, desenvolvem condições diferentes, ou uma desenvolve e a outra, não.”

A evolução tecnológica em outras áreas, como os exames de imagem, que estão processando resoluções cada vez maior, tem contribuído na busca por novos entendimentos. Contudo, ainda há uma limitação do que é possível interpretar a partir dos resultados. Isso porque o campo observado é limitado; além disso, não é possível ignorar que, mesmo ao observar uma área específica do cérebro, as conexões neuronais envolvidas na manifestação de um transtorno mental são inúmeras.

O médico psiquiatra Alfredo Maluf Neto, coordenador da Psiquiatria do Hospital Israelita Albert Einstein, pontua que, no geral, a psicofarmacologia consiste em quatro classes de medicamentos: antidepressivos, ansiolíticos, antipsicóticos e estabilizadores de humor. Hoje, segundo ele, já é comum ver um uso mais diversificado dessas classes entre diferentes condições psiquiátricas justamente pelo avanço da ciência. “Tudo isso é baseado em novos entendimentos, graças ao avanço de tecnologias como ressonância magnética, o que nos permite também novas abordagens terapêuticas utilizando os medicamentos já existentes.”

Substâncias psicoativas como terapias para transtornos mentais

Uma tendência que vem sendo observada nos últimos anos é o retorno à pesquisa sobre o efeito de substâncias psicoativas no tratamento de transtornos mentais. Dos anos 1990 em diante, o interesse voltou a crescer, muito graças ao trabalho desenvolvido pelo Centro Johns Hopkins para Pesquisa Psicodélica e da Consciência, como salientou outro artigo publicado na revista Frontiers in Psychology.

Nos últimos anos, por exemplo, o centro publicou diversos estudos apontando resultados positivos do uso da psilocibina, encontrada em uma classe de cogumelos alucinógenos, no tratamento de transtornos como depressão de difícil tratamento, ansiedade e abuso de substâncias. Em 2024, a Food and Drugs Administration (FDA), agência reguladora americana concedeu a designação de terapia inovadora para um análogo à psilocibina.

Outro exemplo é a ketamina, substância muito conhecida pela medicina por ser utilizada como anestésico desde a década de 1960, mas que ganhou força recentemente após disseminação de uso para transtornos mentais nos Estados Unidos. No Brasil, o uso do medicamento também tem se popularizado nos consultórios psiquiátricos após a aprovação pela Anvisa, em 2020, do cloridrato de escetamina, terapia desenvolvida a partir da ketamina com aplicação intranasal.

Para Louzã, o avanço das substâncias psicoativas como um todo é interessante, mas deve ser avaliado com cautela e com foco na produção de um volume maior de evidências científicas. “Precisamos investigar mais, produzir estudos de qualidade antes de podermos de fato indicar essa abordagem. É uma área em aberto para se investigar com seriedade, não é uma coisa assim tão trivial.”

Psiquiatria de precisão como aliada do acesso

Além do investimento em pesquisas relacionadas ao desenvolvimento de novas intervenções medicamentosas para o tratamento de doenças psiquiátricas, o futuro da psicofarmacologia passa também pelos esforços redobrados para alcançar a era da precisão através da genômica. “O futuro é a genética e esse olhar para uma psiquiatria de precisão. Temos que nos dedicar para ampliar cada vez mais essa compreensão, para que seja possível praticar essa medicina personalizada também na psiquiatria. Isso levanta algumas discussões éticas, bioéticas, mas temos que olhar para essa direção”, defende Maluf.

Aprimorar e repensar os métodos e critérios de diagnóstico é outro ponto de destaque. A psiquiatria social, que traz um olhar mais transversal para o paciente a partir do contexto em que este indivíduo está inserido, também deve ganhar destaque e moldar a maneira como os transtornos mentais são abordados e tratados.

“No Brasil mesmo nós temos um desafio muito grande de acesso psiquiátrico, porque somos um país com muitas iniquidades sociais. Às vezes, não há psiquiatra disponível na Unidade Básica de Saúde (UBS), então a pessoa precisa ter acesso a um médico da família que, por sua vez, deve estar preparado para fazer esse acolhimento”, avalia o coordenador de psiquiatria do Einstein.

Segundo ele, é preciso olhar para os nossos problemas sociais a partir de uma perspectiva de prevenção e dialogar sobre temas como violência, abuso de substâncias e bullying. “Tudo isso, quando não conversado, tende a se transformar em adoecimento mental.”

Isabelle Manzini

Graduada em jornalismo pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação. Atuou como jornalista na Band, RedeTV!, Portal Drauzio Varella e faz parte do time do Futuro da Saúde desde julho de 2023.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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