“Temos a responsabilidade de levar melhorias para aqueles que não têm acesso”, afirma Bernardete Weber, do HCor

Em entrevista a Futuro da Saúde, superintendente de responsabilidade social do HCor explica o funcionamento do PROADI-SUS e sua importância para o sistema de saúde brasileiro

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O SUS é referência internacional no atendimento e oferta de saúde pública, mas por uma série de razões como gestão, recursos, desigualdades regionais, entre muitas outras, demanda aprimoramento constante. Uma das formas de buscar essa evolução é por meio de parcerias público-privadas. Neste contexto, em 2008 nasceu o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde, PROADI-SUS.

O objetivo do programa é fortalecer e qualificar o SUS em todo o Brasil por meio de projetos, que envolvem pesquisa, educação, avaliação de tecnologias, gestão e assistência especializada. Como funciona? Estes projetos são submetidos a um comitê gestor composto pelo Ministério da Saúde e secretários de saúde dos estados e municípios. O comitê aprova e demanda os hospitais do PROADI-SUS, que hoje tem a participação de cinco hospitais: Hospital Alemão Oswaldo Cruz, HCor, Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital Moinhos de Vento e Hospital Sírio-Libanês. E, mais recentemente, no início deste mês, a Beneficência Portuguesa de São Paulo passou a integrar o programa.

Desde o surgimento, os hospitais participantes já destinaram cerca de R$ 5,7 bilhões ao SUS por meio de 579 projetos. Os recursos vêm dos próprios hospitais, que desenvolvem projetos em contrapartida à imunidade tributária garantida pela Constituição Federal. Em entrevista ao Futuro da Saúde, a superintendente de responsabilidade social do HCor, Bernardete Weber, responsável pela interface com o PROADI-SUS, fala da importância do programa, do preconceito de parcerias privadas na área da saúde e do desafio de dar conhecimento do PROADI para toda a população brasileira.

Como funciona o PROADI-SUS na prática, quem faz parte dele e o que ele significa?

O PROADI teve início em 2008 e é o maior programa público-privado da área da saúde em que o Ministério da Saúde pode se beneficiar da excelência e da expertise de seis grandes hospitais do Brasil, que são referência na área da saúde suplementar e são beneficentes. Para participar, o hospital precisa ter uma certificação internacional que assegure conformidade na geração de conhecimento, em pesquisa, na assistência qualificada e de ponta, que permita incorporar qualidade assistencial e gestão clínica e administrativa para o SUS.

Como se define um projeto?

Temos um comitê gestor dentro do Ministério da Saúde que assina e publica esses projetos. Compõem o comitê gestor do PROADI: o Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde, o Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde e o Ministério da Saúde. Essa representação é fundamental porque recebemos demandas que atendem municípios, estados e a federação. Como a saúde é tripartite, os municípios são, via de regra, responsáveis pela atenção básica e aí nós temos projetos que atendem UBS’s, por exemplo, com uma cobertura de 170 milhões de habitantes. Somando os hospitais participantes do PROADI, temos mais de 150 projetos em andamento.  

Quais são as temáticas principais desses projetos?

São projetos dos mais variados, alguns são realizados a partir da expertise de cada hospital, outros realizados em conjunto. Temos desde projetos para atenção básica até outros que investigam o impacto da resistência microbiana. Por exemplo, o HCor e a Beneficência Portuguesa fazem cirurgia cardíaca pediátrica de crianças com doenças congênitas. Outra expertise, que só o Einstein e o Sírio fazem, são os transplantes de fígado e múltiplos órgãos, enquanto o Moinho de Vento faz especialmente medula.

Você acredita que a sociedade tem conhecimento de como isso funciona?

Para mim, a sociedade não tem o devido conhecimento do poder social destes projetos. Olhando para a área de pesquisa, por exemplo, são projetos que incorporam novos conhecimentos com pesquisas muito estratégicas, de validação de novas drogas, de incorporação de novos medicamentos, de validação de procedimentos e protocolos. Também há capacitações que promovem transferência de conhecimento, qualificação de residências em outros Estados com mais fragilidade acadêmica.

Há algum exemplo de projeto durante a pandemia?

No início da pandemia, não tínhamos protocolos específicos. Começamos a receber os pacientes, com expertise da influenza, das gripes e das infecções respiratórias. Só que esse vírus tem comportamentos peculiares. À medida que os casos avançavam, fomos realizando tratamentos até que se chegou a um padrão. Talvez ainda não seja o estado da arte, mas chegamos nesse padrão com pesquisas como a realizada pelo Coalizão, feitas por hospitais que trabalham no PROADI por terem estrutura de pesquisa ágil e dinâmica, que permitiu ir a campo imediatamente para trabalhar, buscar material de pesquisa bom, em tempo real, com a doença acontecendo. E esses projetos definiram tratamentos, foram publicados em revistas como o JAMA. Então foi uma contribuição de conhecimento para o mundo e trouxe conhecimento do mundo para cá. Com esse substrato de conhecimento e com serviço de controle de infecção qualificado como esses hospitais têm, eles passaram a transferir isso também em tempo real para os hospitais do SUS.

“Aplicamos R$ 41 milhões em três anos, somando os recursos dos cinco hospitais do PROADI. Esse investimento garantiu a economia de R$ 320 milhões de reais, calculado a partir da redução de tempo médio de permanência na UTI, em redução do custo desse paciente por não ter se infectado.”

O que fica de legado para o SUS?

O legado para o SUS continua acontecendo, já que a Covid-19 continua ativa. Criamos salas virtuais de situação emergencial, com a presença de um infectologista ou intensivista ou fisioterapeuta, que estavam na linha de frente, nos primeiros 60 dias, só respondendo perguntas. Chegamos a ter mais de 300 acessos simultâneos no Brasil inteiro. Nessas sessões, foi muito interessante, eu estava presente em uma delas, quando entrou uma pergunta: “por favor, como a gente trata o óbito de Covid?”. É preciso ter um protocolo. Como você vai trabalhar para retirar de dentro de uma área protegida e expor ele até chegar no cemitério? Eram esses tipos de informações eram compartilhadas com profissionais da saúde de todo o país.

De alguma forma os hospitais do PROADI entram dentro dos hospitais do SUS para ajudar a melhorar o funcionamento deles. Como é essa receptividade?

É mais complexa, porque a gente vai interferir no status quo desses hospitais. Em geral, a gente começa com gestão assistencial, porque temos protocolos e processos que são hoje sistematizados e conhecidos, como segurança do paciente. Na governança clínica, as equipes assistenciais são muito responsivas para melhoria de cuidado, isso é do âmago dessas pessoas, médicos e equipes multidisciplinares. A receptividade ali é sempre muito boa, por isso sempre começamos na governança clínica para depois entrar nas questões da governança administrativa, insumos, por exemplo.

A realidade nesses hospitais, até como você mesma acabou de mencionar, é muito diferente desses outros hospitais, os filantrópicos. Às vezes falta o básico, uma gaze, uma máscara, o cabo que conecta o respirador. Qual a dificuldade de trabalhar com uma realidade completamente diferente do que a que existe dentro desses hospitais de referência?

Aí entra a importância da participação dos gestores locais, estados e municípios. Agora na Covid, fomos a mais de 40 municípios em Minas Gerais quando começou a interiorização do vírus. Por que foi bem sucedido? Porque tinha junto um representante da governança local, da Secretaria de Saúde local.

A privatização no conceito literal da palavra é inviável. Existem políticas públicas que não têm como vir no setor privado.”

Mas ele consegue te garantir o recurso, por exemplo?

No momento em que eles se engajam, o Secretário de Saúde arruma recursos. Na Covid-19 tinha recurso. Nós temos sim um problema de melhoria de infraestrutura. Então quando o gestor local é comprometido, a coisa acontece. Tem fragilidades? Tem. Mas temos exemplos positivos também. Temos um projeto de redução de infecção associada à assistência hospitalar. É uma iniciativa que depende de insumos como antibióticos, materiais e equipamento de segurança. Nesses últimos três anos, trabalhamos na prevenção de infecções associadas à ventilação mecânica, à cateter venoso central, e à infecções do trato urinário. Ao todo, o projeto envolveu 119 hospitais em todas as regiões. Aplicamos R$ 41 milhões em três anos, somando os recursos dos cinco hospitais do PROADI. Esse investimento garantiu a economia de R$ 320 milhões de reais, calculado a partir da redução de tempo médio de permanência na UTI, em redução do custo desse paciente por não ter se infectado.

Recentemente teve um debate grande sobre a privatização do SUS por uma portaria que foi mal interpretada. As pessoas começaram a se posicionar nas redes sociais em defesa do SUS deixando claro esse receio em relação à privatização. Qual sua visão sobre o tema?

Acho que é inviável privatizar. A privatização no conceito literal da palavra é inviável. Existem políticas públicas que não têm como vir no setor privado. Tanto na definição quanto na sua regulação e implementação. E a privatização já existe através da saúde suplementar. O sistema é único. O que existe é um grupo, um segmento da sociedade, que tem acesso à saúde suplementar e que faz uso dela. Mas mesmo eu, como dependente de saúde suplementar, uso o SUS. Eu uso o SUS na vacinação, eu uso o SUS enquanto proteção de políticas de saúde. Eu me beneficio quando vou na farmácia e compro medicamento de uso contínuo, porque mesmo em farmácias privadas eu consigo preços subsidiados. O sistema de saúde é muito mais amplo que a oferta de assistência e isso não é privatizável.

E de alguma forma dá para pensar nessa parceria público-privada trazendo benefícios para o SUS?

Eu entendo que sim. Uma das limitações de programas como o PROADI é principalmente que a grande maioria dos hospitais filantrópicos que atenderiam os requisitos – e existem muitos no Brasil – é que eles ofertam leitos para o SUS.  De acordo com a regulação atual, não é permitido que eles participem por ofertarem leitos. Outra questão é que existe um desconhecimento do impacto do funcionamento do PROADI. E aí a sociedade olha para esses hospitais como se eles se prevaricassem de benefícios e não é isso. Recentemente falamos em um programa de comunicação para atingir a população. É um tema que está na pauta.

“Viemos de uma ideologia em que a saúde não tinha a menor possiblidade de ser discutida no âmbito privado.”

Sobre a questão dos leitos, um paciente que é do SUS pode ser atendido em um leito operado pelo Hcor via PROADI?

Todas as crianças hoje que não tem acesso a outros hospitais para cirurgia cardíaca pediátrica vêm para o HCor. No triênio que estamos concluindo, atendemos ao redor de 250 crianças. Atendemos 100% das gestantes que recebem encaminhamento fora do Estado de origem da pessoa. Então uma gestante de Roraima, do Acre, da Paraíba, do Piauí, quando tem um feto que precisa atenção no pós-parto imediato, ela vem para São Paulo. Esse bebê nasce no HCor e já tem a primeira intervenção. Se ele nascer na sua cidade de origem, não chega a tempo para o procedimento ou não tem esse procedimento que atenda um neonato. Esse é um caso que é atendido aqui. É um recurso 100% PROADI.

Qual o maior desafio em relação a essa integração do sistema público e privado? Você falou sobre a comunicação. O preconceito ainda é um grande entrave para o Brasil?

É bastante complexo, mas primeiro tem que ter vontade política. Nós viemos de uma ideologia em que a saúde não tinha a menor possiblidade de ser discutida no âmbito privado. A segunda questão é o preconceito mesmo, cultural, de que o privado se prevarica. Isso foi vendido e é algo difícil de mudar. Além disso, é um discurso que tem algumas evidências, como foi essa das corrupções com os respiradores, que prejudicam muito essa relação. A rede social tem um papel fundamental – de levar a população a cobrar do ente público a lisura no uso dos recursos e, com isso, a participação privada, poder ser ampliada. Na pandemia, muitas empresas foram solidárias. A pergunta é: por que isso não se mantém? Quanto mais acesso podemos dar com projetos público-privados? A grande maioria que já tem esse espírito solidário não o faz por falta de instituições com credibilidade. Por exemplo, as organizações sociais. Tem muita organização social muito idônea, que faz trabalhos belíssimos. Mas tem muita que foi feita para ser laranja, e aí? Nós estamos diante desses dilemas. Nós temos que buscar, enquanto sociedade, temos que manter nosso caráter social ativo, nosso senso de responsabilidade com o outro, para que a gente corrija essas distorções e, corrigindo elas, nós teremos doações sim para ampliar público-privada, dentro não só de renúncia fiscal, isenções, de imunidades, mas também como cidadania.

O que você diria para as pessoas, de forma geral, que tem esse preconceito com a saúde privada no auxílio ao sistema público?

Eu diria que não existe saúde privada, a saúde é igual para todos, é o direito de todos. Aqueles que não têm o mesmo acesso, nós temos a responsabilidade de levar melhorias. Não conseguiremos atender todos ao mesmo tempo, mas juntos chegaremos a muitos rincões desse país que precisa de nós. E, se cada um der um pedacinho, o todo ganha. Eu acho que fazer assistência social, ter responsabilidade social é um dever de quem teve acesso e tem oportunidades maiores do que aqueles que não têm.

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