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Telemedicina leva especialistas do Einstein a postos de saúde do SUS na Amazônia

Em menos de dois anos, foram feitos mais de 25 mil atendimentos de atenção especializada em Estados da região Norte do País por meio de projeto do Proadi-SUS

               
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(Conteúdo oferecido por Hospital Israelita Albert Einstein)

Para os 27 mil habitantes de Barcelos, município do Amazonas às margens do Rio Negro, conseguir uma consulta com um cardiologista ou um psiquiatra, por exemplo, podia demorar meses ou até anos e, quando agendada, exigia um deslocamento de 24 horas de barco até Manaus, onde o profissional atendia. Muitos pacientes, desencorajados pela demora e pelo custo da viagem, desistiam de procurar o especialista. Outros viam seu problema de saúde se agravar pela dificuldade em conseguir assistência especializada.

“Tínhamos casos de depressão, ansiedade e autismo que nunca tinham sido diagnosticados porque os pacientes estavam há anos esperando uma consulta com um psiquiatra ou neurologista. Como o acesso para a capital é bem difícil, geralmente feito em uma viagem demorada e que custa R$ 500, os pacientes, a maioria formada por uma população ribeirinha, desistiam de buscar esse atendimento”, conta Ana Kelly Rodrigues Amaro, médica generalista que atua na atenção básica e no hospital do município.

A situação mudou há pouco mais de um ano, quando a cidade foi uma das escolhidas para participar de um projeto de telemedicina que oferece aos pacientes da rede pública do município atendimento remoto com especialistas do Hospital Israelita Albert Einstein. 

Iniciada em novembro de 2020, a iniciativa faz parte do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), aliança entre seis hospitais de excelência do País e o Ministério da Saúde que tem como objetivo aprimorar o sistema público de saúde por meio de projetos de capacitação, pesquisa, gestão, incorporação de tecnologia e assistência.

A partir da demanda do ministério e dos conselhos de secretários estaduais e municipais de saúde do País (Conass e Conasems, respectivamente), o Einstein disponibilizou um time de médicos de sete especialidades que passaram a atender de forma remota pacientes de municípios dos sete Estados do Norte do País. Hoje, contando o município de Barcelos, são 128 cidades atendidas pelo projeto na região por um grupo de 112 especialistas do Einstein das áreas de neurologia pediátrica, neurologia adulto, psiquiatria, endocrinologia, pneumologia, cardiologia e reumatologia. Em menos de dois anos de projeto, foram realizados 25.612 atendimentos.

O número de municípios beneficiados já supera a meta inicial de 120 e deverá aumentar ainda mais, segundo Renato Tanjoni, gerente do escritório Proadi-SUS do Instituto Israelita de Responsabilidade Social Albert Einstein. “A Região Norte tem uma dimensão e geografia que dificultam a locomoção. Não é incomum pessoas demorarem de um a dois dias para chegar a uma unidade de saúde. Como já tínhamos desenvolvido outros projetos de telemedicina e sabemos que ela pode quebrar essas barreiras, topamos liderar esse projeto e, durante a implantação, outros municípios começaram a pedir para participar porque viram o impacto. Com isso, devemos chegar ao número de 140 a 150 polos de atendimento de telemedicina na região Norte”, conta Tanjoni.

A escolha das especialidades e dos municípios participantes, ele explica, é feita pelo ministério e pelos conselhos de secretários seguindo critérios de demanda, escassez de especialistas na região, IDH do município, entre outros fatores. Os atendimentos online com especialistas são sempre intermediados por um médico generalista da atenção básica que já acompanha o paciente localmente, como é o caso de Ana Kelly, de Barcelos (AM). O usuário vai até a Unidade Básica de Saúde (UBS) onde é atendido e de lá participa de vídeochamada com o especialista do Einstein que fica em São Paulo.

Para Carlos Pedrotti, gerente médico de telemedicina do Einstein, o trabalho conjunto do médico generalista e do especialista agiliza o atendimento e aumenta as chances de resolução mais rápida e adequada do caso do paciente. “O médico generalista indica ao paciente o atendimento com um especialista quando acha necessário e participa dessa consulta. Com isso, ele consegue discutir o caso com o colega e dar seguimento posterior ao atendimento conforme as recomendações do especialista, ou seja, a contrarreferência é imediata”, destaca.

Além de acesso, intercâmbio de conhecimento

Pedrotti ressalta ainda que a dinâmica aumenta a eficiência do sistema ao promover o intercâmbio de conhecimento, diretrizes e protocolos entre os médicos. “O médico da família ou generalista que atua no município vai aprendendo com as condutas passadas pelos especialistas. Muita gente pode achar um desperdício ter dois médicos no mesmo atendimento, mas isso tem um benefício para o profissional local e para o paciente”, destaca.

Para o cardiologista Antônio Fernando Barros de Azevedo Filho, médico do pronto-atendimento do Einstein no Morumbi e um dos integrantes do time de especialistas que participa do projeto de telemedicina, as equipes locais “se sentem mais seguras ao ter o respaldo de um especialista, mesmo que, em muitos casos, a nossa participação apenas confirme a conduta inicial”.

Semanalmente, Azevedo Filho dedica uma ou duas tardes da sua jornada para atender remotamente os pacientes da região Norte. “Costumamos brincar que todas as tardes fazemos uma viagem pela região. Atendemos no mesmo dia pacientes do Amazonas, do Pará e do Acre, por exemplo”, comenta o especialista. 

Ele afirma que, dentre os atendimentos mais comuns, estão queixas relativamente simples, mas com potencial de maior gravidade se não houvesse a assistência especializada por meio da orientação remota. É o caso do controle da hipertensão arterial ou da investigação de dor torácica. “Também fazemos muitas avaliações pré-operatórias. Há casos de pacientes que aguardavam por cirurgia há anos, inclusive já avaliados pelo cirurgião, mas sem conseguirem a avaliação do risco pré-operatório pelo cardiologista”, diz o médico.

Há ainda casos em que o especialista evita um deslocamento desnecessário do paciente ao avaliar a real necessidade de procedimentos mais invasivos. “Recebemos um paciente encaminhado para avaliação por diagnóstico de coração aumentado em um exame de rotina, mas sem sintomas. Por cautela, o colega generalista pretendia encaminhá-lo para a capital para a cirurgia de troca de uma válvula cardíaca. A família já estava preocupada, fazendo vaquinha para custear o trajeto até Manaus. Ao final, percebemos que não teria indicação cirúrgica naquele momento, e que o paciente deveria ser apenas monitorado. Evitou-se o deslocamento e um custo desnecessário para a família e para o sistema de saúde”, comenta.

Ana Kelly, médica de Barcelos, nasceu e cresceu na região, saiu do município para cursar Medicina e voltou à cidade de origem em 2021 para atender no SUS. Ela conta que ter o suporte de especialistas a fez ter mais confiança para atuar na região. 

“Confesso que fiquei receosa quando voltei da faculdade porque a gente está em um local de difícil acesso, sem muita estrutura, com poucos pontos de internet. Quando o programa de telemedicina começou, minha mente abriu, cada vez que eu fazia uma interconsulta, era como se eu estivesse tendo uma aula igual às que eu tinha na faculdade. É como se eu sentisse alguém segurando na minha mão e dizendo ‘vamos juntos’”, diz ela. “Em alguns casos, são atendimentos simples para um especialista, mas que nós, generalistas, já não sabíamos mais o que fazer. Às vezes é só uma troca de uma medicação, um ajuste no tratamento de uma doença crônica e o paciente tinha que ficar na fila de espera por meses para conseguir uma consulta especializada em Manaus”, completa a médica amazonense.

Para Carlos Pedrotti, a experiência do projeto do Proadi-SUS na região Norte demonstra que o maior benefício da telemedicina é justamente dar acesso à saúde a mais pessoas. “E quando você fala em maior acesso, você embute uma melhor assistência para o paciente e uma eficiência de custos ao sistema de saúde. É colocar o paciente no lugar certo na hora certa”, destaca Pedrotti.

“Toda a vida a gente foi ensinado que tinha que sair do interior e ir para a capital em busca do conhecimento. Hoje, finalmente estamos vendo esse caminho de volta, do conhecimento chegando até aqui por meio da telemedicina e mudando a condição desses pacientes”, diz Ana Kelly.

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