Telemedicina: durante a pandemia, mais consultas e menos prescrição de exames

Estudo realizado em Los Angeles indica que pacientes com problemas cardiovasculares realizaram mais consultas médicas em 2020. O aumento se dá devido ao uso da telemedicina, que se tornou ainda mais comum com a chegada da pandemia.

               
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A necessidade de isolamento social causada pela pandemia da Covid-19 fez aumentar o uso de serviços de telessaúde, mesmo em países onde essa modalidade da medicina já apresentava maior índice de adesão. Publicado no JAMA Network Open, um novo estudo do Smidt Heart Institute constatou que o cenário pandêmico está causando ‘mudanças digitais’ com o aumento da procura por cuidados cardíacos via telemedicina em Los Angeles, nos Estados Unidos.

Os pesquisadores observaram que a procura por cuidados referentes à saúde do coração foi maior no período de pandemia, que começou em 2020, do que no período anterior, em 2019. Isso aconteceu principalmente por parte de pacientes jovens de grupos étnicos-raciais como asiáticos, negros ou hispânicos, que possuíam pelo menos uma doença cardiovascular e que tinham acesso ao seguro de saúde. As doenças mais frequentes nesses pacientes eram hipertensão, doença arterial coronariana, fibrilação atrial e insuficiência cardíaca.

A razão desse aumento, segundos os especialistas, pode estar associada com o fato desses grupos sociais estarem mais suscetíveis a infectar-se com a Covid-19 e também por terem menos possibilidades de realizar consultas presenciais, devido a dificuldades com horário ou transporte. O estudo aponta que, nos Estados Unidos, há mais pessoas negras em trabalhos essenciais, o que pode causar dificuldade em reservar um tempo para cuidar da saúde.

Outro ponto constatado é que a prescrição de remédios e de exames de diagnóstico — como eletro e ecocardiogramas — diminuiu com as consultas virtuais. Entretanto, os especialistas ainda não sabem se isso poderia ser interpretado como uma redução saudável na solicitação excessiva de medicamentos e exames.

O estudo sugere que a explicação para essa queda no número de exames médicos está relacionada com o fato de muitos deles serem realizados durante as consultas presenciais. Outra hipótese levantada seria uma possível falha no atendimento remoto, como a falta de compreensão do quadro clínico dos pacientes, na comunicação ou ainda a impossibilidade de realizar exames mais abrangentes.

“Nossos dados revelam uma taxa reduzida de testes e prescrição, provavelmente devido a uma série de fatores”, disse Joseph Ebinger, médico e diretor de análises clínicas no Smidt Heart Institute e autor sênior do estudo em entrevista para o EurekAlert. “Vemos esses resultados como não sendo obviamente negativos ou positivos, mas uma tendência que é importante entender. Por exemplo, taxas mais baixas de exames podem, em muitos casos, refletir reduções na prescrição de testes que nem sempre são necessários para atingir bons resultados de saúde, ao mesmo tempo que adicionam custos ao sistema” completou o especialista.

Estudo

Para chegar nessas observações, os pesquisadores analisaram dados de consultas presenciais e virtuais de 31 clínicas de cardiologia de Los Angeles, nos Estados Unidos, nos anos de 2019 e 2020, no período de 1 de abril a 31 de dezembro de ambos os anos.

Quanto às consultas presenciais, os especialistas analisaram 87.182 realizadas em 2019 e 74.498 em 2020. Já no que se refere às consultas a distância, foram analisadas 4.720 consultas por chamada de vídeo e 10.381 por telefone, ambas no período da pandemia em 2020.

Apesar dos números parecerem amplos, uma das limitações do estudo é a análise restrita, pois apenas um sistema médico e região geográfica foram estudados. Os pacientes também eram em sua maioria clientes de seguros de saúde e moradores de centros urbanos, faltando então considerar pessoas que podem estar em situação de exclusão digital.

Contraponto

Enquanto o Smidt Heart Institute detectava um aumento no uso da telemedicina por parte de seus pacientes, outro estudo dos Federally Qualified Health Centers (FQHCs), clínicas de atenção primária nos Estados Unidos, identificou o oposto.

A análise das clínicas de atenção primária à saúde, que tem como público pessoas de baixa renda, constatou que a necessidade de teleatendimento durante a pandemia causou uma redução de 6,5% no número de consultas médicas, com a queda concentrada nos meses de março e abril de 2020.

O estudo sugere que a redução do número de consultas nos FQHCs está associada a falta de acesso das pessoas a tecnologias que permitam consultas por chamada de vídeo. As clínicas de atenção primária afirmam que faltam recursos para desenvolver uma estrutura melhor para os pacientes.

O Centers for Medicare & Medicaid Services (CMS), agência federal de saúde dos Estados Unidos, informou que 30% dos atendimentos a distância durante a pandemia foram feitos apenas por telefone, sem vídeo.

Recentemente, o Futuro da Saúde publicou reportagem especial que explica o que esperar da telemedicina no Brasil: “Quais são os desafios da telemedicina para 2021?“.

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