Telemedicina chega ao sertão

Neste ano, o tradicional Rally dos Sertões terá que se adaptar por causa da pandemia. Uma das transformações será na saúde: a telemedicina vai chegar a locais remotos e carentes do Brasil

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Imagem 3D de como será o consultório da UTA, a Unidade de Teleatendimento

Neste ano, o  Rally dos Sertões vai acontecer, apesar da pandemia. A expedição se deslocará de bolha em bolha, ao invés do modelo tradicional de cidade em cidade. Isso quer dizer que pilotos, equipes e organização do evento ficarão confinados em acampamentos, sem acesso ao público local, assim como foram as bolhas dos times de basquete nos Estados Unidos. Mas por que um tema esportivo está dentro de uma página como o Futuro da Saúde? Desde 2013, o Sertões segue com um braço social, em parceria com o SAS Brasil, em que leva atendimento de saúde para populações em que o acesso é difícil ou inexistente. Agora, a ideia é levar acesso a partir da telemedicina.

Para o projeto, se enquadram cidades de até 30 mil habitantes que não tenham saúde especializada disponível e que estejam a pelo menos 200 quilômetros de distância de um centro de referência para uma consulta. “O SAS nasceu em 2013, a partir de uma ideia de como a gente poderia viajar e levar atendimento médico para as pessoas em um momento em que a telemedicina não era nem de perto realidade. Brinco que a nossa primeira plataforma foram as carretas e as tendas”, conta  Adriana Mallet, coordenadora geral do SAS Brasil. 

Por causa da pandemia, a operação foi adaptada para um modelo digital, mas que também não exclui o atendimento presencial, se for necessário. Com a telemedicina, a iniciativa pretende atender 30 mil pessoas ao longo de um ano, mais que o dobro do ano passado. Para isso, foram criadas duas estruturas especialmente para a expedição. Uma cabine de autoatendimento, equipada com internet, câmera para videoconsulta, aparelho de pressão, oximetria, eletrocardiograma, além da capacidade de impressão de receitas em tempo real. “O sistema garante a experiência completa do atendimento. O paciente entra, o médico está na tela e já faz o atendimento. No final, ele já encaminha, se necessário, e imprime a receita”, explica Mallet. A médica e empreendedora conta que já tem uma cabine instalada no complexo da Maré, no Rio de Janeiro.  “O paciente vai fazer consulta de psicologia e não tem nem banda de internet para 45 minutos de chamada e  nem privacidade na casa dele”.

O outro modelo é a UTA, a Unidade de Teleatendimento. Nesse caso, além da infraestrutura para a consulta online, há também a possibilidade de realização de procedimentos que são realizados por técnicos e supervisionados por especialistas à distância incluindo teledermatologia, telecolposcopia, tele-endoscopia, fundoscopia ocular, eletrocardiograma com laudo, entre outros. Ao todo, serão oferecidas 14 especialidades médicas no projeto. “Essas estruturas serão utilizadas por qualquer  paciente em que sua situação não puder ser resolvida no digital. Vamos ter equipamentos e consultórios específicos, além de exames laboratoriais. Então, se o paciente precisa de um hemograma ou de uma sorologia, ele faz e o resultado é transmitido pela nuvem para o profissional de saúde”, diz Mallet.

Adriana Mallet sempre foi empreendedora e apaixonada por inovação. Ainda na faculdade, contou que enlouquecia os chefes da residência porque não se conformava em preencher vários papéis e, para isso, criou um sistema de pós-consulta. Decidiu abandonar a residência da Unicamp e foi explorar temas como inovação em Israel e na Inglaterra.

“A minha história de vida e minha razão de ser médica é que eu tenho 5 tias que tiveram câncer de mama e duas tiveram câncer de colo de útero também. Então, fui ser médica para resolver o problema do câncer. Entendi que o único jeito da gente resolver realmente o câncer era diagnosticando precocemente e criando um sistema melhor. Usar a tecnologia pra gerar eficiência, efetividade naquilo que a gente se propõe a fazer, que é diagnóstico e tratamento de doenças”.

Mallet defende que a tecnologia e a inovação sejam realmente acessíveis para as pessoas. “É bonito fazer um projeto para baixar um aplicativo de agendamento de consulta, mas quem vai usar isso de verdade na população? Inovação só é inovação quando ela resolve problema. A gente brincou e chamou de médico do “zap”, não porque a gente acha que a telemedicina tem que ser feita pelo Whatsapp, mas porque essa é a linguagem que a população que mora em uma comunidade. Então, a pessoa recebe um link, clica no link e abre a consulta. Para nós, tem todo um sistema atrás, mas para o paciente é simplesmente um link que ele apertou e encontrou o médico lá”.

O Sertões 2020 sai de São Paulo no dia 30/10 e chega no Maranhão dia 07/11. Serão aproximadamente 5.000km de percurso.

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