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Tecnologia da informação trabalha para possibilitar o futuro da saúde

Avanço da tecnologia da informação será um dos pilares para o futuro do setor, utilização de inovações e avanço de ecossistemas

               
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Um dos desejos do usuário do sistema de saúde é poder abrir um aplicativo e ter lá todo o seu histórico de saúde. Poder ver seus exames, quando ficou doente, o que o médico prescreveu, como estão os seus índices e todas essas informações interagindo com atividade física praticada, alimentação, sono e etc. Na era de dados e inovações, como as empresas usam a tecnologia da informação para lidar com isso e como pretendem tornar a gestão da saúde mais eficiente e otimizada?

Vale lembrar que o desejo do usuário é o mesmo das empresas de saúde. Contudo, elas esbarram no desafio da falta de diálogo: hospitais não conversam com laboratórios, que não conversam com planos de saúde, que não falam com academias e, por fim, não estão integrados ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Um dos entraves para esse desenvolvimento se acelerar ainda mais é o custo. Como aponta o presidente da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS), Luis Gustavo Kiatake, mesmo com a tecnologia bastante inserida na saúde, o custo ainda é muito alto e, ao invés de baixar, com o passar dos anos, tem aumentado.

Otimista em relação a esse tema, o diretor da Associação Brasileira CIO Saúde (ABCIS) Renato Marcos Endrizzi Sabbatini, vê como ponto de atenção a conscientização por parte dos médicos e demais profissionais de saúde sobre a importância de incluir as informações necessárias nos sistemas de prontuário do paciente: “Quantas vezes você teve que responder que era alérgico, por exemplo, a penicilina antes de iniciar qualquer consulta? O quanto seria benéfico para o sistema de saúde se essa informação estivesse automatizada quando esse profissional acessasse os seus dados?”.

Sustentabilidade x tecnologia da informação

Para Kiatake, essa equação entre a tecnologia e o custo é um dos entraves para um sistema de saúde mais eficiente e sustentável. “Um sistema mais eficiente, de uma maneira muito pragmática, é aproveitar o exame que o paciente fez. Por exemplo, no SUS, o paciente faz um exame e a consulta é só depois de três meses. Se esse paciente perde esse exame, ele terá de voltar no médico em três meses, que pedirá outro exame. Então precisamos minimamente ter informações como essa de exames, disponíveis de uma forma acessível para quem precisa consumir esta informação, isso tanto no SUS quanto no setor privado. Essa sustentabilidade é o primeiro ponto para essa eficiência”, analisa.

Sabbatini acredita que a sustentabilidade é o que vai ajudar também na otimização dos custos em saúde: “Não há como sustentar financeiramente o sistema atual considerando que os custos aumentem na velocidade que eles estão aumentando. Portanto, olhar para essa rede integrada de informações sobre o paciente é, também, fazer uma melhor gestão de recursos e especialmente de políticas públicas para que no futuro esse paciente não volte ao sistema com doenças que poderiam ter sido evitadas ou curadas precocemente”.

Com uma rede de saúde onde todas as informações e dados dos pacientes sejam compartilhados e complementados entre si, não apenas como banco de dados, mas com uma inteligência artificial, o paciente é beneficiado. Afinal, ele não apenas terá mais posse de suas informações de saúde, como poderá tratar melhor e prevenir problemas futuros, melhorando sua saúde e utilizando menos os serviços de consultas e exames. Da mesma forma, as consultas passam a ser mais precisas, em número menor e o profissional de saúde tem mais ferramentas para um diagnóstico preciso e um tratamento mais assertivo.

Do ponto de vista financeiro, os serviços de saúde gastarão menos e terão uma visão mais clara do uso de salas e equipamentos, como exemplifica Kiatake: “O centro cirúrgico é um espaço muito caro dos hospitais. Quanto tempo demora uma cirurgia? Nem sempre temos como precisar esse tempo. Para uma cirurgia de uma patologia com determinado tipo de paciente, o médico calculou duas horas. A inteligência artificial, porém, mostra que em geral não são duas horas, porque para este paciente, especificamente, pelo histórico e exames, tem uma possibilidade de ter um tempo maior, possibilitando mais precisão e otimização da agenda deste centro cirúrgico”.

A Rede Nacional de Dados em Saúde

Instituída pela Portaria 1.434, de 28 de maio de 2020, a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) é a plataforma nacional de interoperabilidade (troca de dados) em saúde. Trata-se de um programa do Governo Federal voltado para a transformação digital da saúde no Brasil e tem o objetivo de promover a troca de informações entre os pontos da Rede de Atenção à Saúde, permitindo a transição e continuidade do cuidado nos setores públicos e privados, além de promover a estruturação do Conecte SUS.

De acordo com o site da RNDS, “até 2028, a RNDS estará estabelecida e reconhecida como a plataforma digital de inovação, informação e serviços de saúde para todo o Brasil, em benefício de usuários, cidadãos, pacientes, comunidades, gestores, profissionais e organizações de saúde”.

O projeto da RNDS, inicialmente, contava com a realização de uma fase piloto no estado de Alagoas, prevista para ser iniciada em março de 2020, acabou sendo reorientado para receber e compartilhar informações que pudessem auxiliar no controle da situação de emergência da saúde pública. “O primeiro ponto positivo dessa integração pôde ser visto em relação às informações de controle e acompanhamento da vacinação contra a COVID”, explica Kiatake. As expectativas em relação a isso são positivas, embora sejam um tanto complexas e dependam de ações de diferentes atores do sistema de saúde.  

Ao longo de sua evolução, a RNDS está se constituindo como uma plataforma informacional de alta disponibilidade, segura e flexível, de forma a favorecer o uso ético dos dados de saúde. Além disso, o tratamento dos dados coletados pela plataforma possibilita a inovação, a pesquisa e o surgimento de novos serviços que resultem em benefícios para a população e para o Brasil.

Open Health, um caminho possível?

Em 2021, o Banco Central colocou em operação o Open Banking. É um conceito de banco aberto, onde, após a permissão do cliente, os dados financeiros dele ficam disponíveis para outras instituições bancárias. Isso facilita a transparência, a possibilidade de acessar contas, produtos e serviços bancários de várias plataformas, com o benefício de ter a oferta de serviços mais personalizados. No começo deste ano, o Governo anunciou a intenção de começar a discutir a ideia de se criar a Open Health, nos moldes da operação dos bancos, mas com os sistemas de saúde.

Diferentemente do sistema bancário, a Open Health ainda gera dúvidas. A começar pela segurança dos dados: no sistema bancário os dados estão com os bancos, enquanto na saúde estão pulverizados. Outro fator é a desconfiança, tanto das empresas de saúde como da própria população, segundo a médica e mestra em Administração de empresas, Ana Maria Malik, que também é professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP):

“O pensamento que se dissemina tanto entre os prestadores, quanto entre os financiadores e entre os cidadãos é que todo mundo acha que o outro vai usar mal as informações. A questão também tem a ver com a fidedignidade e confiabilidade das instituições. As pessoas confiam no Banco Central? Aparentemente sim. Existe um Banco Central da Saúde? Não”.

Essa confiança é ainda menor depois que o sistema do Ministério da Saúde sofreu um ataque hacker e os dados de milhões de brasileiros foram roubados. Outro impasse é que na atual visão do ministro da saúde, o Open Health seria apenas uma maneira de aumentar a concorrência entre os planos de saúde, o que pode acarretar efeitos negativos como a seleção de pacientes pelos convênios devido a seu histórico de saúde, por exemplo.

Para Danilo Zimmermann, diretor geral de tecnologia e transformação digital da Dasa, a integração entre os sistemas de dados em saúde e transparência de dados ao usuário são entraves para o Open Health, mas sua implantação seria positiva: “Todo o setor vem discutindo isso, procurando se antecipar às futuras regulamentações que devem ser colocadas. Alguns padrões estão sendo estabelecidos para que os diferentes sistemas possam intercambiar os dados com precisão e eficiência. Este modelo – de Open Health – certamente trará benefícios para toda a indústria da saúde e para a experiência do usuário”.

Diversas formas de ecossistema

Uma das possibilidades vistas no mercado para driblar todos esses entraves é a formação de ecossistemas compostos por empresas do mesmo grupo. A rede Dasa anunciou em abril de 2021 a integração de todos os negócios em um ecossistema único com o objetivo de “colocar as pessoas – médicos e pacientes – no centro das decisões, viabilizando o cuidado certo, na hora certa, em todas as etapas da jornada do paciente e em todos os momentos da vida”.

Para Zimmermann, “hoje, existe uma ampla consciência de que as tecnologias de dados vão transformar o setor de saúde. Esse é um ótimo começo para fazer uma transformação digital e, também cultural, mudando inclusive as estruturas das organizações”. Ele complementa que implementar a coordenação de cuidados como uma premissa, cuidando da saúde – e não da doença – e orientando o caminho do usuário na rede de saúde, assim como estar aderente à LGPD, colabora para encerrar a fragmentação do sistema.

Ele afirma ainda que a proposta é liberar médicos e pacientes de burocracias do sistema, para que ambos possam focar no que é mais importante: a saúde. “Um exemplo prático deste modelo na rotina: algoritmos preditivos nos ajudaram a cuidar dos nossos pacientes com diabetes, sendo que 49% deles que tinham diabetes descompensada ficaram com a doença sob controle, enquanto 28% viram seus níveis de hemoglobina glicada reduzirem a níveis considerados pré-diabetes”, exemplifica Zimmermann.

Nessa mesma linha de atuação dentro do mesmo grupo está o modelo de negócios baseado na verticalização, ou seja, quando uma mesma empresa atua em diversos elos da cadeia com o objetivo de acompanhar os pacientes e reduzir custos. Neste rol estão casos conhecidos como a Prevent Senior e o Grupo NotreDame Intermédica.

Há ainda a união entre diferentes empresas, como o recente caso da Beneficência Portuguesa de São Paulo, Grupo Bradesco Seguros e Grupo Fleury para criar uma empresa de serviços em oncologia. A nova companhia terá as três instituições como acionistas em partes iguais, receberá aporte primário de R$ 678 milhões nos cinco primeiros anos de operação e terá gestão independente e autônoma.

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