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Tecnologia Assistiva: startup brasileira desenvolve robô cão-guia

Robô portátil será capaz de guiar deficientes visuais. A tecnologia está sendo testada em ambientes fechados e custará 15 mil reais

               
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O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que 3,5% da população brasileira seja deficiente visual. São 580 mil pessoas totalmente cegas e 6,5 milhões com baixa visão. Mesmo assim, há pouca variedade entre os recursos disponíveis para facilitar a vida das pessoas com deficiência, as chamadas tecnologias assistivas. Observando um mercado escasso, com um amplo público-alvo – mas que passa despercebido justamente por estar principalmente dentro de casa, devido às dificuldades de alcançar a independência – a startup Vixsystem desenvolveu um cão-guia robótico que pode melhorar a experiência desses indivíduos.

Trata-se de Lysa, um robô que cumpre o papel de cão-guia, através de uma estrutura de 40 centímetros de altura e 4 quilos, similar a uma pequena mala de mão, com alça retrátil e rodinhas.

A tecnologia destoa das demais no mercado por oferecer orientação além de esquerda e direita. “É como um carro autônomo, Lysa tem uma tecnologia de “scanner”, que analisa o ambiente e entende como navegar por esse local. Nós cadastramos os pontos de interesse daquele ambiente e com o aplicativo, acoplado no robô, o usuário pode escolher para onde quer ir. O robô fala quais são as opções e após a escolha do usuário, ele vai andando sozinho, desviando dos obstáculos detectados pelos sensores frontais, laterais e superiores. Assim, ele faz o caminho de forma segura para o usuário”, explica Hudson Rodrigues, diretor financeiro e co-fundador da startup Vixsystem.

Atualmente, a proposta principal da nova tecnologia é oferecer orientação e mobilidade para os usuários circularem de forma segura e independente em ambientes fechados, como: shoppings, escolas, universidades, metrôs e aeroportos. Em breve, deficientes visuais nos estados de Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo devem ter acesso a essa tecnologia.

Os fatores que motivaram o desenvolvimento de Lysa

A Vixsystem surgiu em 2014, já com o propósito de desenvolver uma tecnologia assistiva para deficientes visuais. A bacharel em ciência da computação, Neide Sellin, foi motivada a fundar a startup no período em que atuou como professora de robótica em uma escola pública. Um dos projetos da aula era a criação de um robô para uma aluna cega. 

Assim, os protótipos desenvolvidos chamaram a atenção de Sellin, mostrando que a ideia deveria ser  colocada em prática. Em 2017, a especialista participou da versão brasileira do programa de TV “Shark Tank”, um reality show de empreendedorismo, no qual ganhou 200 mil reais para investir no Lysa, e visibilidade para buscar outras formas de financiamento. 

A oportunidade estava no fato de que a criação de tecnologias assistivas para deficientes visuais demonstra ainda ter muito para ser aprimorada. De acordo com Hudson Rodrigues, os usuários dessas tecnologias costumam questionar a falta de avaliação com o público-alvo na hora de desenvolver novas tecnologias.

“Nós fizemos uma grande pesquisa, participamos de muitos seminários e sempre pedimos pelo feedback desse público”, afirma Hudson. O cofundador explica que, entre os problemas está o fato de que “quando se escuta de um sistema que precisa virar a esquerda, o usuário não sabe se tem que virar 90º ou 45º, não sabe se o obstáculo na frente é grande ou pequeno… então essa era a maior reclamação deles quanto aos produtos que são lançados. Nós ouvimos os usuários e percebemos que havia espaço para a gente”.

Lysa versus as demais tecnologias

Assim, a Vixsystem afirma que seu robô Lysa funciona de forma diferente. Em comparação aos demais existentes no mercado, “vemos produtos que até orientam, para esquerda ou direita… outros mais recentes avisam se há obstáculo, mas ainda não há de fato um guia.  A Lysa é um robô que guia, assim como um cão-guia. Além de informar se há algum obstáculo, como buraco ou obstáculos aéreos, a Lysa possui motores e navegação autônoma, o que permite guiar”, reforça Hudson. 

Logo, ao segurar na alça do robô, o usuário será puxado até o destino escolhido. “Isso é algo que as tecnologias não fazem, parecido com isso, há uma tecnologia no Japão que não é portátil e é muito cara. Queríamos fazer algo condizente com a realidade do Brasil”, afirma o cofundador da startup.

Hoje, os cães-guias são autorizados pela lei a circular nos ambientes. Por outro lado, esses animais costumam ser treinados no exterior, o que pode custar cerca de 10 mil dólares (atualmente, seria o equivalente a 50 mil reais) e dois anos de espera. Estima-se que no Brasil existam apenas cerca de 200 cães-guias.

Quem poderá acessar o robô-guia?

O robô cão-guia Lysa custa 15 mil reais cada unidade. A startup estabeleceu parcerias com órgãos governamentais para obter fomento ao projeto. Dessa forma, algumas unidades do robô serão doadas pelo Governo Federal, pelo Governo Estadual de São Paulo e pelo Governo Estadual do Espírito Santo. 

A tecnologia é patrocinada pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (FAPES). Além disso, “temos leis de incentivo do governo, então estamos dialogando com empresas e instituições para que elas possam fazer doações e também oferecer linhas de crédito para pessoas com necessidades para que comprem tecnologias assistivas”, afirma Hudson. Nessa questão, alguns governos têm linhas de crédito diferenciadas para que o usuário adquira esse tipo de recurso. 

Para o futuro, a startup planeja se aproximar ainda mais da etapa de aquisição com o cliente final. Entretanto, a tecnologia ainda está sendo testada em ambientes fechados.

Outro ponto a ser considerado nesse momento é o formato da tecnologia. “De fato existem limitações, por conta das rodinhas e a falta de nivelação das nossas calçadas no Brasil. Hoje, infelizmente, não conseguiremos atender todas as localidades, mas em bairros bem planejados os usuários conseguem usar sem problema nenhum. Mesmo assim, iremos investigar como aprimorar a tecnologia para áreas menos planejadas. Atualmente estamos garantindo que o uso indoor fique perfeito e depois focaremos toda nossa energia para a navegação outdoor”, conclui o cofundador da Vixsystem.

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