“A cada dólar gasto em autocuidado, economizamos 7 dólares para o sistema público”, diz Sydney Rebello, presidente de Consumer Health da Bayer

“A cada dólar gasto em autocuidado, economizamos 7 dólares para o sistema público”, diz Sydney Rebello, presidente de Consumer Health da Bayer

Em entrevista ao Futuro da Saúde, Sydney Rebello, presidente da divisão de Consumer Health da Bayer no Brasil, falou sobre a expansão da área e como o autocuidado pode contribuir para a economia do sistema de saúde

By Published On: 26/06/2024
“Temos uma missão e um propósito que vai além do simples tamanho de mercado e penetração”, diz Sydney Rebello

Foto: Marcelo Ribeiro

O segmento de autocuidado, composto por produtos de saúde que podem ser comercializados sem a necessidade de prescrição, desempenha um papel importante na saúde da população. E o impacto é grande: existem estudos que demonstram que para cada 1 dólar gasto em autocuidado e medicamentos de venda livre, economiza-se 7 dólares para o sistema público de saúde. Essa informação foi compartilhada por Sydney Rebello, presidente da divisão de Consumer Health da Bayer no Brasil desde 2016, em entrevista ao Futuro da Saúde. 

Ao longo da conversa, ele reforçou que o Brasil é o maior mercado da América Latina e que o país é visto como uma oportunidade estratégica de crescimento e alavancagem para a companhia globalmente. Os planos de médio e longo prazo incluem expandir as operações por aqui. Além disso, buscam estimular a transformação do autocuidado diário dos brasileiros, onde a indústria e a comunicação desempenham papéis importantes.

Durante a entrevista ele ainda comentou sobre os desafios de expansão da área, o papel da tecnologia, a importância do acesso, as perspectivas de intensificação na área de nutrição e vitaminas e de acompanhamento do sono e uma tendência de que o autocuidado caminhe também para um olhar de prevenção.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Quais são os principais elementos do autocuidado? Como os brasileiros atualmente percebem o autocuidado e houve alguma mudança recente no comportamento em relação a essa prática?

Sydney Rebello – Quando falamos de autocuidado, estamos falando de algo que tem muito valor para a sociedade como um todo, seja do ponto de vista econômico, seja do ponto de vista do bem-estar propriamente dito. Essa sociedade, declaradamente aqui no Brasil, conta com cerca de 84% das pessoas, segundo uma pesquisa encomendada pela Bayer e realizada pelo IBOPE, em 2020, que buscam ter uma rotina de autocuidado e se preocupam com isso. No entanto, apenas um terço delas consegue, de fato, colocar em prática uma rotina de autocuidado. Sabemos o que precisa ser feito, mas entendemos que é muito difícil cumprir isso. Quando falamos de autocuidado, estamos basicamente falando de hábitos. Esses hábitos visam, por exemplo, contribuir para o sistema imunológico, como dormir no mínimo seis horas por noite, seguir uma alimentação saudável e balanceada, que é bastante desafiador, e praticar atividade física de forma regular. Esse é o tripé do autocuidado.

Sociedade e consumidores, então, entendem a relevância?

Sydney Rebello – Por um lado, a sociedade e os consumidores entendem a relevância e a importância disso, mas reconhecem que é muito difícil colocar isso em prática. Nossa missão é justamente apoiar a sociedade e o consumidor, não só ao ter clareza da importância do autocuidado, mas também ao incentivar a prática desses hábitos e auxiliar quando a pessoa não consegue implementá-los plenamente. Por exemplo, quando falamos de imunidade, que é um componente superimportante para o bem-estar e o autocuidado, ou de equilíbrio nutricional, sabemos que é muito difícil obter a suplementação de vitaminas e minerais na dieta, por mais disciplinada e regrada que ela seja. Então, é nesse ponto que atuamos como coparticipantes, como auxiliares nesta jornada pelo bem-estar.

E atualmente, como está o mercado de autocuidado no Brasil? Ainda há espaço para expansão?

Sydney Rebello – Embora existam diferenças entre as categorias, de forma geral ainda há muitas oportunidades para essas categorias penetrarem mais nos domicílios e consumidores, fazendo-as crescer ainda mais. No entanto, honestamente, isso é secundário para mim. Temos uma missão tão importante e nobre, especialmente após a pandemia, que trouxe mais atenção a essa questão, que o tamanho de mercado acaba sendo consequência. Mas, sem dúvida, do ponto de vista econômico e financeiro, o autocuidado tem um impacto gigantesco no sistema público de saúde.

Assumir esse papel mais ativo no cuidado com a saúde não só proporciona economia aos sistemas de saúde ao redor do mundo, mas também ajuda a evitar sobrecargas no sistema?

Sydney Rebello – Existem estudos que demonstram que para cada 1 dólar gasto em autocuidado e medicamentos de venda livre, economizamos 7 dólares para o sistema público de saúde. Isso ocorre porque, por exemplo, quando uma pessoa trata uma dor de cabeça com um analgésico, ela pode evitar a necessidade de recorrer ao sistema público de saúde (SUS), reduzindo assim a complexidade e os custos associados. Portanto, o setor de autocuidado desempenha um papel significativo na sociedade, ajudando a aliviar a pressão e os custos no sistema público de saúde, entre outros benefícios. Por exemplo, temos doenças comuns que, embora não sejam graves, são muito prevalentes na população, como lombalgia, dor nas costas, candidíase vaginal, resfriado e diarreia. Essas condições afetam a sociedade e representam um custo significativo. Apenas no Brasil, estima-se que essas ocorrências gerem um gasto anual de mais de um bilhão de dólares. Com quase 60 bilhões de casos dessas doenças, os custos são altíssimos para a sociedade e para o governo. Esses recursos poderiam ser direcionados para áreas nas quais a sociedade brasileira enfrenta grandes carências.

E como incentivar o autocuidado na população e o uso responsável de medicamentos, especialmente aqueles que não requerem prescrição médica? Como vocês têm observado e atuado nesse sentido? 

Sydney Rebello – Isso também implica uma grande responsabilidade na indústria, especialmente no que diz respeito à educação. Felizmente, aqui no Brasil, temos uma estrutura regulatória robusta, e a Anvisa desempenha um papel crucial nesse sentido. Consideramos a Anvisa equiparada aos critérios da FDA e das melhores autoridades regulatórias da Europa. No entanto, além da regulamentação, reconhecemos a importância da educação. Sabemos que o consumidor enfrenta várias complexidades ao decidir sobre a compra de diferentes categorias de produtos. Comprar um analgésico não é comparável à compra de um molho de tomate, por exemplo. No entanto, acreditamos que os consumidores têm capacidade de ponderar, avaliar e julgar. A digitalização também desempenha um papel nesse processo. Com a alta penetração de celulares e internet na população, embora haja desafios para os menos favorecidos, em geral, há acesso à informação. Acreditamos que a indústria tem a responsabilidade e o compromisso de promover educação imparcial e livre de interesses comerciais.

A comunicação tem um papel importante neste cenário?

Sydney Rebello – A parte essencial é educar o consumidor. Uma vantagem das categorias em que atuamos na Consumer Health é a capacidade de comunicação, seja através de mídias como TV aberta ou digital. Seguimos um processo rigoroso e criterioso nesse sentido. Nosso portfólio inclui uma variedade de categorias, desde produtos nutricionais como vitaminas, que são tratados pelas autoridades regulatórias como alimentos, mas que ainda assim são rigorosamente controlados em todas as comunicações. O mesmo se aplica à linha dermatológica, que inclui hidratantes, e à saúde íntima e analgésicos.

Sobre a pesquisa que vocês encomendaram, 84% dos brasileiros buscam ter uma rotina de autocuidado, mas apenas um terço consegue. Como vocês têm interpretado esses números e como estão trabalhando atualmente em cima deles?

Sydney Rebello – Existe a Acessa, a entidade que representa os medicamentos de venda livre, responsável por promover a importância do autocuidado. Temos também o Dia Nacional do Autocuidado, uma data simbólica e memorável, celebrada em 24 de julho. Por que dia 24 de julho? Porque devemos nos preocupar com o autocuidado 24 horas por dia, 7 dias por semana. Há uma mobilização intensa da classe e da categoria para destacar a importância e aumentar o conhecimento sobre o autocuidado. Além disso, temos uma verdadeira obsessão dentro da Consumer Health com essa agenda de autocuidado. É claro que precisamos vender e garantir rentabilidade, como qualquer outra corporação. No entanto, mesmo reconhecendo que isso pode parecer um pouco poético demais, trabalhamos aqui com um propósito muito grande de transformar essa jornada de autocuidado.

Falando de negócios e mercado, a Bayer atua nas áreas agro e farmacêutica, mas qual é o tamanho do negócio de autocuidado para a companhia? Existe a intenção de expandir esse segmento nos próximos anos? Quais são as perspectivas futuras?

Sydney Rebello – São negócios de naturezas e dinâmicas muito distintas. Quando falamos do setor agro, no Brasil é realmente um mercado muito grande. Comparativamente, o segmento de autocuidado é pequeno. No entanto, temos ambições significativas nesse sentido. Em termos de dados de negócio, o Brasil é o maior mercado da América Latina, sendo três vezes maior do que o segundo maior mercado, que é o México. Apesar de termos uma posição mais forte no ranking no México, vemos o Brasil como uma oportunidade estratégica de crescimento e alavancagem para a companhia globalmente. Temos planos de médio e longo prazo para expandir nossas operações aqui. Já no próximo ano, teremos iniciativas importantes nesse sentido, embora eu não possa fornecer muitos detalhes agora. Em resumo, o Brasil representa uma oportunidade estratégica significativa para a Bayer, especialmente na divisão de autocuidado, onde já somos o segundo maior mercado para a empresa.

Em termos de avanços tecnológicos, eles também possibilitaram o desenvolvimento de novos produtos digitais, como diagnósticos por aplicativos e até mesmo o uso de dispositivos como relógios inteligentes para monitorar a saúde na palma da mão. Como vocês percebem essa evolução? Isso tem contribuído e ajudado de alguma forma a promover o autocuidado?

Sydney Rebello – Sim, sem dúvida. Porém, quando falamos de pirâmide social, de impacto e penetração, é importante destacar que o acesso a esses benefícios, como aplicativos e dispositivos, ainda é limitado ao topo da pirâmide social, em comparação com a população geral, especialmente em um país com o perfil do Brasil. Olhando para o futuro, essas tecnologias certamente são ferramentas que podem auxiliar na jornada de autocuidado. Existe o desafio de democratizar essas possibilidades, mas é inegável que a tecnologia tem um papel crucial nesse avanço. Tecnologias como digitalização, inteligência artificial e outras ferramentas são recursos que certamente vão ajudar o consumidor nessa jornada. É uma pena que ainda tenham uma penetração limitada, mas possuem um potencial gigante. Tenho certeza de que neste exato momento, enquanto conversamos, há muitos jovens desenhando protótipos, desenvolvendo soluções e criando startups para explorar esse universo de oportunidades.

Daqui a 10, 15 anos, como você vê a área do autocuidado? O que você acha que pode ter amadurecido em relação ao comportamento e à expansão de negócios?

Sydney Rebello – Tem uma agenda mais voltada para o tratamento de sintomas: se uma pessoa está com dor de cabeça, cólica menstrual ou gripe/resfriado e deseja resolver isso no curto prazo, momentaneamente, isso vai continuar acontecendo. Agora, se conseguirmos, como setor, alavancar essa agenda de autocuidado, vamos falar não só desses sintomas, mas também passaremos a abordar mais a prevenção, incluindo nutrição a monitoramento do sono. Acredito que outra agenda que se conecta tanto com a parte de tratamento quanto de prevenção e que ganhará relevância nos próximos anos é a saúde na menopausa. Há muitas oportunidades nessa área. Historicamente, o mercado estava mais focado no tratamento, ou seja, na pessoa que precisa resolver um problema específico no momento. É claro que isso vai continuar acontecendo. Quando falamos de autocuidado, o objetivo é encontrar soluções que não só resolvam o problema imediato, proporcionando bem-estar à pessoa e aliviando o sistema de saúde, mas também cumpram essa missão. Por outro lado, a agenda de prevenção, que visa promover o bem-estar geral, fará com que as pessoas se preocupem mais com a saúde e o autocuidado. Isso inclui aspectos como dormir bem, ter uma alimentação saudável e balanceada, praticar atividade física regularmente e gerenciar o estresse. Portanto, vejo uma série de aspectos importantes tanto no tratamento quanto na prevenção.

Você mencionou a importância da alimentação saudável, mas frequentemente isso está relacionado ao poder socioeconômico. Qual o papel da suplementação nutricional e quais os desafios nesta área?

Sydney Rebello – Com base em estudos extensos, posso te dizer que há um estudo nutricional que revela que o problema do déficit nutricional ocorre em todas as camadas da sociedade. É muito desafiador alcançar uma dieta equilibrada em micronutrientes. Enquanto para macronutrientes como carboidratos, proteínas e lipídios é possível com um pouco de esforço, atingir a ingestão diária recomendada de micronutrientes como selênio, licopeno, luteína, cobre, zinco, entre outros, é mais complicado. Na minha perspectiva, o papel da suplementação nutricional será cada vez mais relevante. Existe um conceito chamado fome oculta, que se refere à eventual carência de micronutrientes. Não sabemos ao certo quais serão os desdobramentos dessa deficiência de micronutrientes para a saúde a médio e longo prazo. Portanto, a suplementação vitamínica e mineral se torna relevante para cobrir essa lacuna. Por mais colorido que seja o seu prato e equilibrada a sua dieta, é muito difícil consumir a quantidade de nutrientes necessária para atender às nossas necessidades nutricionais. Enquanto destaco a importância de uma alimentação saudável e equilibrada, acredito firmemente que as soluções científicas são uma alternativa crucial para complementar essa dieta.

Para fechar, onde estão os principais desafios na sua visão? 

Sydney Rebello – Além do aspecto educacional e de comunicação, é essencial proporcionar acesso a essas soluções. Muitas pessoas enfrentam dificuldades para colocar comida no prato hoje em dia. Como podemos incentivar o consumo de suplementos vitamínicos e minerais adicionais quando a prioridade é simplesmente garantir alimentação adequada? Esse é o desafio que enfrentamos. Precisamos concentrar nossos esforços na conscientização dos consumidores sobre essas necessidades. Como mencionei anteriormente, a penetração dessas categorias na população como um todo ainda é muito baixa. Há uma enorme oportunidade de educar e conscientizar as pessoas sobre a importância e relevância dessas práticas na jornada de autocuidado de cada indivíduo.

Angélica Weise

Jornalista formada pela UNISC e com Mestrado em Tecnologias Educacionais em Rede pela UFSM. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou nos portais Lunetas, Drauzio Varella e Aupa.

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Jornalista formada pela UNISC e com Mestrado em Tecnologias Educacionais em Rede pela UFSM. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou nos portais Lunetas, Drauzio Varella e Aupa.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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