Sustentabilidade ambiental: um compromisso vital para saúde

Sustentabilidade ambiental: um compromisso vital para saúde

Em novo artigo, Fabricio Campolina analisa o papel de protagonismo que a área de saúde precisa assumir na questão da sustentabilidade ambiental

By Published On: 15/05/2024
Sustentabilidade ambiental - Fabricio Campolina

Imagens aéreas de Porto Alegre e Região Metropolitana na tarde de terça-feira, 14 de maio de 2024. Foto: Mauricio Tonetto/Secom (Estado do Rio Grande do Sul)

A tragédia em curso no Rio Grande do Sul evidencia a importância de avançar com os esforços para sustentabilidade ambiental e desenvolver ações para reduzir o impacto de eventos climáticos extremos.

E qual o papel da área da saúde?

Na perspectiva ambiental, já é evidente que além da triste situação dos tantos impactados por tragédias como a que ocorre no sul do país, as mudanças climáticas estão exacerbando problemas de saúde, como doenças respiratórias, desnutrição e doenças infecciosas. Estudos apontam que o aquecimento global tem grande influência no atual surto de dengue em nosso país. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também estima que 24% da carga global de doenças e 23% das mortes são atribuíveis a fatores ambientais, como poluição do ar e da água.¹

Esta discussão não deve se limitar à dimensão ambiental. Importante reconhecer que nosso setor não tem tido o protagonismo esperado na promoção da agenda de ESG (Ambiental, Social e Governança) em nosso país.

Esse cenário é ainda mais alarmante quando observamos a magnitude do impacto que desequilíbrios dessas três frentes geram na saúde populacional.

No âmbito social, a desigualdade no acesso à saúde é um desafio persistente. A exemplo, já é amplamente conhecida a relação entre o CEP da residência e a condição geral da saúde de sua comunidade. De acordo com a OMS, cerca de metade da população mundial ainda não se beneficia da cobertura integral dos serviços de saúde essenciais. A falta de equidade impacta desproporcionalmente as populações vulneráveis, perpetuando ciclos de pobreza e doença.²

Da perspectiva de governança, apesar de o setor ser unido em torno do propósito de cuidar dos pacientes, há uma urgente necessidade de alinhamento dos incentivos econômicos para garantir que a conduta esteja alinhada com o propósito.

Como as instituições de saúde podem ajudar a mudar esse cenário?

Os desafios econômicos que o setor enfrenta nos últimos anos e a descrença causada por práticas de “greenwashing” – ações de marketing para criar uma imagem de responsabilidade ambiental, mas que na realidade são superficiais – podem ajudar a explicar a falta de entusiasmo de muitos em relação ao tema.

Ainda assim, precisamos reconhecer a importância de desenvolvermos um sistema de saúde que atue também considerando pautas de ESG, não apenas nas instituições, mas em todos os componentes desse ecossistema. Nós, como lideranças a frente do setor neste momento crítico, não podemos deixar que pressões de curto prazo ou generalizações nos impeçam de assumir o protagonismo necessário.

Precisamos avançar para que o setor de saúde se junte aos demais setores econômicos relevantes na promoção de um ecossistema que conecta empresas, organizações e pessoas para evoluir de forma expressiva na jornada de descarbonização em nosso país.

Um primeiro passo já foi dado em abril deste ano. Grandes empresas do setor se reuniram durante o 2024 ESG Healthcare Summit para debater temas relacionados ao universo ESG no mundo da saúde e compartilhar casos de sucesso que reforçam que é possível sim avançarmos com esta agenda no setor. Entre as ações concretas, empresas do setor da saúde já têm trabalhado para redução de emissões de gases do efeito estufa em suas operações logisticas, incluindo entregas com veículos 100% elétricos e caixas retornáveis.

Já na área social, projetos como a Operação Sorriso, unem-se a empresas do setor para construir protocolos técnicos atualizados e propor uma nova diretriz de cuidado, neste caso para os pacientes com a fenda labiopalatina no país. Com o suporte dessas empresas do setor, o programa já atendeu mais de 12,8 mil famílias no país, realizando cerca de 6 mil operações.

No âmbito da Governança, vale destacar programas como o Compliance4Health, uma parceria da FGV com a iniciativa privada, que desenvolveu um hub de conteúdo gratuito sobre compliance e ética na prática médica, com sugestões de matérias, avaliações e bibliografia destinadas a instituições de ensino. Esse material já foi adotado por três universidades, entre elas a Faculdade de Medicina da USP.

Para além dessas iniciativas que começam a ganhar espaço no setor, precisamos elevar a agenda estratégica de ESG para transformá-la em um eixo prioritário para todo setor da saúde. De forma complementar, temos que compreender como as organizações podem integrar de forma eficaz os princípios de sustentabilidade em suas estratégias de negócios.

Políticas públicas efetivas e ações estruturantes promovidas por entidades setoriais e organizações líderes da saúde podem ser uma forma mudar esta realidade no setor. Os hubs de economia verde, como o hub AYA Earth Partners, podem ser catalizadores desta transformação e ter um papel similar ao que os hubs de inovação tiveram na última década no impulsionamento da transformação digital.

Por hora, a solidariedade de nosso povo será chave para amenizar o sofrimento de nossos irmãos do Rio Grande do Sul. Que cada um possa ajudar dentro de suas possibilidades e que cada organização possa exercer seu papel social neste momento tão desafiador.

Referências:

  1. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/climate-change-and-health
  2. https://www.who.int/world-health-day/world-health-day-2019/fact-sheets/details/universal-health-coverage-(uhc)
Fabricio Campolina

Fabricio Campolina é referência no setor quando o assunto é tecnologia, inovação e transformação digital e, atualmente, é presidente da Johnson & Johnson MedTech Brasil. Graduado em ciência da computação pela UFMG, possui ainda especialização em gestão de negócios pelo Ibmec e MBA em administração de negócios pela Duke University, onde se graduou entre os top 10% de sua classe. Foi também presidente do conselho da ABIMED, onde liderou o processo de reposicionamento estratégico da associação, e é membro-fundador do Instituto Coalização Saúde.

About the Author: Fabricio Campolina

Fabricio Campolina é referência no setor quando o assunto é tecnologia, inovação e transformação digital e, atualmente, é presidente da Johnson & Johnson MedTech Brasil. Graduado em ciência da computação pela UFMG, possui ainda especialização em gestão de negócios pelo Ibmec e MBA em administração de negócios pela Duke University, onde se graduou entre os top 10% de sua classe. Foi também presidente do conselho da ABIMED, onde liderou o processo de reposicionamento estratégico da associação, e é membro-fundador do Instituto Coalização Saúde.

2 Comments

  1. IRINEU GRINBERG 16/05/2024 at 11:46 - Reply

    matérias para serem lidas, preferentemente, antes do decurso de calamidades. em caso de leitura posterior, pensar em soluções, praticá-las, juntamente com as mais efervescentes preces,

  2. IRINEU GRINBERG 16/05/2024 at 11:50 - Reply

    mais uma vez, as soluções virão no pós traágico.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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Fabricio Campolina é referência no setor quando o assunto é tecnologia, inovação e transformação digital e, atualmente, é presidente da Johnson & Johnson MedTech Brasil. Graduado em ciência da computação pela UFMG, possui ainda especialização em gestão de negócios pelo Ibmec e MBA em administração de negócios pela Duke University, onde se graduou entre os top 10% de sua classe. Foi também presidente do conselho da ABIMED, onde liderou o processo de reposicionamento estratégico da associação, e é membro-fundador do Instituto Coalização Saúde.