Stress e resiliência em crianças frente à pandemia

A pandemia atingirá com mais força as crianças mais vulneráveis. O que fazer por elas?

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Estamos vivemos uma situação de estresse coletivo: todos estamos sendo afetados pela pandemia e pelas adversidades que ela traz. Ainda não conhecemos o seu impacto final, mas sabemos que deixará marcas sobre toda a população, inclusive sobre as cerca de 2 bilhões de crianças em virtualmente todos os países do globo que enfrentam o coronavírus.

Dentre todas as crianças impactadas pela infecção, pelo isolamento, pela interrupção das aulas e de tratamentos, tragicamente a pandemia atingirá com maior força as crianças mais vulneráveis. São aquelas que já apresentam transtornos mentais ou outras condições crônicas de saúde, ou cujos pais sofrem dessas condições; crianças em vulnerabilidade econômica e social, que dependem da escola para se alimentar ou receber tratamentos ou cujas famílias estão sem renda; crianças que estão em abrigos, em situação de rua ou refugiadas. Outras crianças, até então sem vulnerabilidades, estão sendo atingidas diretamente: filhos de profissionais da saúde, filhos e netos de pessoas que faleceram, aquelas cujos pais perderam o emprego. Desemprego e instabilidade econômica têm um efeito direto e enorme sobre a saúde da população, inclusive a saúde mental: estresse, ansiedade, depressão, abuso de drogas, violência intrafamiliar e suicídio são consequências frequentes. A saúde mental das crianças piora na mesma medida que a do seus pais. Isso tudo já está ocorrendo e continuará ao longo dos próximos anos, já que sucessivas consequências sociais, econômicas e de saúde ainda se apresentarão.

O estresse frente às situações que a pandemia traz é um fator de risco para o surgimento de transtornos mentais, também em crianças. Estudos muito robustos documentam que experiências adversas na infância aumentam o risco de transtornos mentais e outras condições de saúde não só imediatamente após a exposição, mas também décadas depois do evento, na idade adulta. Importante é que a maior parte dos transtornos mentais dos adultos inicia na infância. Portanto, se há um aumento do número de crianças com transtornos, é provável que também haja um aumento futuro de adultos com transtornos. Os transtornos mentais estão entre as principais causas de carga de doença na população e interferem diretamente sobre o capital humano de uma nação. No caso das crianças, sobre o futuro das nações.

Frente à pandemia, a maior parte das crianças apresentará sintomas emocionais de estresse, mas não desenvolverá transtornos. Para elas, o estresse pode ser uma oportunidade de desenvolvimento. Alguns sugerem que o aumento das taxas de ansiedade e depressão em adolescentes está relacionado a pais que protegem excessivamente seus filhos das adversidades da vida. Talvez isso seja verdade em alguns contextos sociais, em alguns países mais favorecidos. A limitação real que a pandemia impõe mostra que ninguém pode e tem o controle de tudo sempre, que o poder dos pais é limitado, que precisam estar preparadas para enfrentar o futuro.

Todas as crianças podem passar por esse momento suportando as ameaças à sua estabilidade, se adaptando a elas e até desenvolvendo novas capacidades que as deixem mais fortes. Esse processo é chamado de resiliência. Lidar com as adversidades e sair do enfrentamento com sucesso envolve uma série de fatores, e será mais fácil para as crianças que regulam melhor suas emoções e são mais flexíveis, que tem mais amigos, que sofrem estresse leve e pontual, cujos pais estão ao seu lado. Aquelas que sofrem mais continuamente situações mais graves, muitas vezes múltiplas situações concomitantes, ou que apresentam maiores fragilidades emocionais, com pais também frágeis em situações sociais de vulnerabilidade, terão maior dificuldade de sair ilesas desse momento.

Para o Estado, considerar os impactos da pandemia sobre as crianças é fundamental no sentido de planejar os cuidados globais de toda a população, agora e no futuro. Os cuidados oferecidos devem ser especialmente mais intensivos para as crianças mais vulneráveis. Para a sociedade, é momento de união, de fortalecer as comunidades. Para as famílias e escolas, a reflexão é um caminho para atenuar as marcas da pandemia, identificar precocemente sinais de transtornos mentais, trabalhar para fortalecer emocionalmente as crianças e torná-las mais socialmente conscientes, assim transformando o estresse em combustível para o desenvolvimento.

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