Silenciosa mas visível, a obesidade é a epidemia que poucos querem enxergar

Desde 1975, a doença quase triplicou em todo o mundo e, segundo a OMS, 38 milhões de crianças menores de 5 anos estavam com sobrepeso ou obesas em 2019.

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Na quarta semana de abril, motivadas pela realização do Leaders Summit on Climate (Cúpula de Líderes sobre o clima) promovido pelo presidente norte-americano Joe Biden, as notícias sobre a pandemia da Covid-19 cederam espaço para discussões sobre as ações de redução de emissão de gases de efeito estufa das 17 economias que, juntas, respondem por 80% dessas emissões. Movimento natural, uma vez que ninguém em sã consciência deixaria de destacar assunto de tamanha importância para a sustentabilidade do planeta.

Acompanhando esse movimento de não falar sobre a pandemia da Covid-19, escolhi para meu artigo deste mês dar luz, novamente, a uma outra epidemia que corre em paralelo. Em setembro de 2020, dediquei meu artigo aqui no portal Futuro da Saúde à obesidade e, hoje, retomo o assunto, pois parece que os alertas sobre seu crescimento e impacto seríssimo nas populações de todo o mundo, não têm surtido efeito e o que temos visto são pequenos avanços e nenhuma solução no médio prazo. Seja no Brasil ou em outros países do mundo.

A Agenda 2030 da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o Desenvolvimento Sustentável reconhece as Doenças Crônicas Não transmissíveis (DCNTs) como um grande desafio para o desenvolvimento sustentável e, como parte da Agenda, chefes de Estado e de governos se comprometeram a desenvolver respostas ambiciosas para reduzir em um terço a mortalidade prematura causadas por essas doenças atuando em prevenção e tratamento.

Como acompanho de perto o cenário da saúde no mundo e no Brasil, tenho buscado saber efetivamente o que está sendo feito para o enfrentamento e combate à obesidade, que é uma das mais sérias DCNTs.

Desde 1975, a doença quase triplicou em todo o mundo e, segundo a OMS, 38 milhões de crianças menores de 5 anos estavam com sobrepeso ou obesas em 2019. Ainda segundo o órgão máximo da saúde global, “muitos países de renda baixa e média enfrentam agora um ‘fardo duplo’. Embora esses países continuem a lidar com os problemas de doenças infecciosas e desnutrição, eles também estão experimentando um rápido aumento de fatores de risco de doenças não transmissíveis, como obesidade e sobrepeso, especialmente em ambientes urbanos e não é incomum encontrar subnutrição e obesidade coexistindo no mesmo país, na mesma comunidade e no mesmo domicílio”.

Essa é uma constatação gravíssima e considerando o perfil socioeconômico do Brasil, somos uma dessas Nações. E a pergunta constante que tenho feito a diversos gestores é: O que está sendo feito para combater essa epidemia? A falta de ação que já deveria ter sido iniciada e, em minha opinião segue paralisada, se não for revertida até 2025, teremos, segundo o Ministério da Saúde, um país com cerca de 11,3 milhões de crianças com excesso de peso, 400 mil pré-diabéticos, 150 mil diabéticos tipo 2 e 1 milhão de hipertensos. Ou seja, um cenário gravíssimo.

Por liderar uma organização que atua nas causas do câncer, das doenças cardiovasculares, além da saúde do homem, temos a obesidade em nossa agenda não somente como um fator de risco transversal a essas doenças mas entendemos que ela, por si só, é uma doença crônica que necessita ser combatida com a máxima seriedade e urgência. Por isso, já faz um bom tempo incorporamos o tema da obesidade em nossos fóruns, lives, webinários, ações nas nossas páginas de mídias sociais, pautas na imprensa e em meus artigos. Acompanhamos as tendências internacionais e, constantemente, discutimos com os membros do nosso Comitê Científico qual o enfoque devemos dar às questões relativas ao tema nas nossas pautas junto aos gestores públicos e privados. Temos sido uma voz ativa para trazer luz a esse tema tão importante e que nos impede ficar de olhos vendados.

Além das gravíssimas consequências que mencionei em meu primeiro artigo sobre o tema neste Portal, que é sua correlação direta com o desenvolvimento de inúmeros tipos de câncer, como os de mama, ovário, endométrio, próstata, rim, fígado, pâncreas, esôfago, estômago e vesícula, citando somente alguns e de doenças cardiovasculares como diabetes tipo 2, hipertensão e aterosclerose, a obesidade gera um grande impacto na gestão de recursos financeiros do Sistema Único de Saúde (SUS).

De acordo com pesquisa divulgada em final de março pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) – outro fator que me motivou a retomar o tema neste artigo – “dos R$ 3,4 bilhões gastos pelo SUS em 2018 com o tratamento oncológico, R$ 1,4 milhão (ou 41,1%) foram em terapêuticas contra cânceres associados ao excesso de peso, principalmente tumores malignos de mama, intestino grosso (colorretal) e endométrio”.

Esses dados já deixaram de ser alertas e tornaram-se um chamado mais do que imediato para uma ação conjunta de gestores e não somente dos que atuam na área da saúde, mas de todos os líderes de empresas e indústrias instalados no Brasil. Já passou da hora de atuar. Se não há sensibilidade em se preocuparem com as vidas dos indivíduos, dos seres humanos que trabalham em suas equipes, poderiam estar preocupados com o impacto econômico que a obesidade gera em suas organizações.

Conforme estudo do McKinsey Global Institute, a doença custou ao Brasil, em 2014, ou seja, sete anos atrás, cerca de 2,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. E a Public Health England (PHE), agência executiva autônoma do Departamento de Saúde do Reino Unido, criada para proteger e melhorar a saúde da nação e enfrentar as desigualdades, alertou também para os custos associados à obesidade nas empresas. Segundo a agência britânica, estima-se que uma empresa que emprega mil pessoas poderia perder mais de 126 mil libras por ano devido a problemas de saúde relacionados à obesidade. Entre eles, destacou problemas de coluna, apneia do sono e distúrbios emocionais.

Diversos gestores de capital humano de distintas corporações com quem tenho conversado concordam que a obesidade gera implicações de alto custo que vão além dos recursos destinados aos planos de saúde. Segundo esses profissionais, o prejuízo causado na produtividade é bastante alto.

Não são poucos os relatos de aumento de peso e sedentarismo, gerados pelo longo período do isolamento social que temos enfrentado desde início de 2020. Você consegue imaginar como estará esse cenário no Brasil e na sua empresa no pós-pandemia da Covid-19?

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