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Sidney Klajner, presidente do Einstein: “Médico que tiver medo de ser trocado por IA vai ser trocado pelo médico que a utiliza”

Na Entrevista do Mês de maio, o presidente do Einstein Sidney Klajner fala do novo centro de pesquisa, da adoção de tecnologia na saúde e das estratégias da instituição

               
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As novas tecnologias e as soluções inovadoras estão cada vez mais presentes no universo da saúde. Inteligência artificial, big data, machine learning, wearables e uma série de outras ferramentas serão cruciais para a melhoria do sistema de saúde como um todo. Mas, na visão de Sidney Klajner, presidente da Sociedade Beneficente Israelita Albert Einstein, ainda há preconceito por parte de médicos e enfermeiros em sua adoção.

O cirurgião do aparelho digestivo é o entrevistado do mês de maio em Futuro da Saúde. Durante a conversa, Klajner contou sobre Centro de Pesquisa e Ensino da instituição, que já está em atividade, mas será formalmente inaugurado em junho e explorou o papel da pesquisa no Brasil.

Ele falou também das relações cada vez mais estreitas entre os elos do setor, a telemedicina e a adoção de novas tecnologias na saúde, a falta de lideranças no país durante a pandemia e os planos de expansão do Einstein, que já tem ampliado o acesso à instituição por meio de saúde corporativa e atendimento aos colaboradores em alguns casos. Segundo Klajner, até mesmo a abertura de hospitais em outras praças é possível, “dependendo do tipo de parceria e de mercado que teria”. Confira os principais trechos da conversa:

Para começar nosso papo, gostaria que contasse um pouco do contexto dessa iniciativa do Centro de Ensino e Pesquisa.

Sidney Klajner – Costumo falar que as coisas começaram de trás para frente. De reunião entre médicos, de grupos de estudos, nasceram alguns eventos, que viraram congressos. Em 1989 foi fundada a faculdade de enfermagem, então ela já tem 33 anos. Depois criou-se os cursos técnicos profissionalizantes, como os de formação de técnico de enfermagem, técnico de laboratório de raio x. Veio, então, a pós-graduação lato sensu. Depois as residências, pós-graduações stricto sensu. O que faltava? A faculdade de medicina. Existem vários perfis de médicos: os que valorizam qualidade de vida, os que adoram fazer pesquisa, os que gostam do ensino, tem aqueles que colocam todas as fichas na relação interpessoal e menos na remuneração, e tem o oposto, o médico que faz medicina por conta do retorno financeiro. Meu desafio como vice-presidente, lá em 2010, era criar um modelo de relacionamento entre o Einstein e o seu corpo clínico que privilegiasse todos esses perfis. Assim, o médico não precisaria ir de manhã para a academia e de tarde para o Einstein. Ou de manhã dar aula e depois ir para o hospital. Queríamos ter tudo aqui.

Qual o objetivo dessa faculdade?

Sidney Klajner – Não é apenas ter mais médicos especialistas que fossem selecionados porque estudaram mais e tal. É ter um perfil de formação de lideranças médicas capazes de serem os protagonistas das transformações no sistema de saúde que todos nós já vislumbrávamos desde o início da década. Um sistema mais acessível, com melhores diagnósticos, melhores tratamentos, que houvesse atenção ao desfecho, ao menor desperdício, que contemplasse a política da tripla meta que a gente já adotava aqui. Mas, para isso, precisávamos de agentes de mudança, pessoas com perfis de liderança para trabalhar em equipe, com padrões éticos solidificados. Fizemos benchmarking com outras universidades para conhecer modelos pedagógicos e montamos um totalmente diferente daquilo que as faculdades têm aqui no Brasil.

Diferente em que aspecto?

Sidney Klajner – De levar a importância do projeto pedagógico, eixos que transcorrem durante os 6 anos, por exemplo, de bioética, de ética, gestão, inovação e, principalmente, um modelo de ensino chamado de TBL, que é o team-based learning. São aprendizado em grupos, onde o aluno prepara o ponto para a aula e o professor é muito mais um facilitador e um estimulador da discussão. Esse projeto pedagógico se originou depois de visitas a 22 universidades pelo mundo. Algumas delas estavam em processo de mudança levando em conta esses modelos inovadores de ensino, não mais a aula expositiva. Outras falaram que jamais vão mudar porque sempre formaram os melhores médicos do mundo e vão continuar assim.

São quantos alunos na faculdade de medicina?

Sidney Klajner – São 60 alunos por semestre, mas fazemos um vestibular só com 120 vagas.

Já está nos planos aumentar essas vagas?

Sidney Klajner – Está nos planos, mas não adianta aumentar salas de aula e não aumentar treinamento em serviço.

Hoje, para que esses alunos aprendam no internato, o Einstein conta com um hospital privado e dois públicos, M’Boi Mirim e Vila Santa Catarina. Precisaríamos de mais ambiente hospitalar para treinar, senão cairíamos na vala comum de vários cursos de medicina que estão por aí.

Não está nos planos se afastar da saúde para focar no ensino?

Sidney Klajner – Não, na verdade uma coisa complementa a outra. A cultura vai sendo permeada pelo ensino. Hoje temos três graduações, em breve vai passar para seis e temos no planejamento introduzir outras duas. Então, isso deve virar uma universidade de saúde, talvez até com filiais pelo Brasil.

E onde entra o Centro de Ensino e Pesquisa nesse contexto todo?

Sidney Klajner – Quando a gente aprovou a faculdade de medicina, entendemos que era preciso ter uma instalação que contemplasse o peso que estávamos dando para o ensino. Procuramos arquitetos que pudessem transferir essa ideia da importância que a formação tem para a sociedade e para a comunidade judaica. Quem assinou o projeto foi o Moshe Safdie, um renomado arquiteto israelense naturalizado americano com várias obras pelo mundo. Ele costuma comentar que queria que o aluno se sentisse embaixo da árvore, lendo um livro. Por isso há uma cobertura de vidro, com uma sensação de que a copa da árvore está dando um pouquinho de sombra.

No Brasil temos uma grande dificuldade principalmente com pesquisa, que é sucateada. Como o novo centro pode contribuir especificamente com pesquisa?

Sidney Klajner – Primeiro, porque ajuda a subir o nível geral, pois o que fazemos no Einstein acaba, no bom sentido, contaminando outras organizações a fazerem algo semelhante. Segundo, porque isso é uma atratividade – e já temos exemplos práticos – para pesquisadores que ou estão pensando em deixar o país ou estão fora, mas que enxergam uma boa oportunidade de atuar aqui. Terceiro, porque parte do fomento para isso é do Einstein. Temos um orçamento próximo de R$ 100 milhões para pesquisa e reservamos quase 1,5% da receita do hospital para investimento.

Estamos criando aqui os ambientes de vanguarda para que a pesquisa que tenha qualidade e atratividade tanto de quem patrocina quanto do pesquisador.

Recentemente você comentou que o centro também pode ser uma possibilidade de buscar parcerias com a indústria farmacêutica. Como isso pode acontecer?

Sidney Klajner – A indústria farmacêutica carece aqui no Brasil de ambiente adequado para fazer pesquisas de fase 3, por exemplo. Aprendemos muito sobre isso com a vacina da Covid. O Einstein teve a oportunidade de liderar uma rede de UTIs para fazer o trabalho em tempo recorde sobre cloroquina e azitromicina, publicado inclusive em revistas de alto impacto. E desde 2018 criamos aqui dentro a Academic Research Organization (ARO), um setor da pesquisa que organiza trabalhos multicêntricos e que recebe um fee para isso. Ao invés de uma indústria farmacêutica contratar uma empresa de pesquisa clínica, a ARO, que não busca um pagamento como as empresas comerciais, tem todo um viés acadêmico da pesquisa correta. Já tivemos casos de indústrias de fora do país que contrataram nossa ARO para fazer pesquisa.

A relação entre players do setor, como hospital e indústria, hospital e empresas de equipamentos, está cada vez mais estreita, sendo que antes cada um ficava no seu nicho. Você percebe isso também como uma tendência?

Sidney Klajner – Não só percebo como é algo que temos estimulado. Aquele mundo onde as empresas não se misturavam mudou. Durante a pandemia isso se mostrou extremamente importante, até para calcularmos a projeção de contaminação. Parcerias com governo ou mesmo concorrentes serão cada vez mais comuns. São fundamentais para fazer alguns projetos em grande escala. Sem elas, até pelo ponto de vista de concorrência com aquelas organizações que adotam o caminho de fusões e aquisições, alavancadas por fundos de investimento, a gente não sobrevive ou sobrevive para um público muito pequeno, que não é o que o Einstein quer.

O setor de fato vive um momento de fusões, aquisições, verticalização e criação de ecossistemas. Onde o Einstein se posiciona nesse contexto? Expandir está no radar?

Sidney Klajner – Dentro do nosso planejamento há uma expansão que já vem acontecendo no número de pessoas que têm acesso ao Einstein, muito por conta de saúde corporativa, por exemplo. São unidades do Einstein dentro de diversas empresas, como Natura, Vale, Vivo, Safra, Abbott. E cuidamos também dos nossos próprios colaboradores, que são 18 mil. Apesar de os nossos colaboradores terem o benefício de saúde, uma carteirinha de um convênio, já notamos que para alguns tratamentos, principalmente de alta complexidade, é mais interessante tratar aqui, pois apesar de ser mais caro, o desfecho é melhor, as complicações são menores e o retorno é mais precoce. Além disso, dentro dessa estratégia de expansão temos, obviamente, o objetivo de ampliar atuação no segmento premium, onde sempre atuamos com excelência.

É o caso do hospital em Goiânia que abriu recentemente?

Sidney Klajner – Foi algo que não foi de certa forma planejado. Fizemos uma consultoria para um grupo empreendedor. Depois eles nos ofereceram para comprar o hospital, mas não quisemos. Porém, como sabíamos fazer gestão, como no M’Boi Mirim, concordamos em gerir aquele hospital. E vimos que essa gestão atraiu operadoras para lá. O grupo que construiu o empreendimento se viu um pouquinho longe da saúde e começamos a negociação para adquirir de vez.

Esta foi a primeira expansão do Einstein para fora do Estado de São Paulo.

E é algo que hoje está mudando a saúde não só de Goiânia, mas do Centro-Oeste. Primeiro, porque vira um hub, por exemplo, para quem vem da região Norte, uma vez que ele não precisa mais vir até São Paulo. Segundo, porque estabelecemos uma meta lá de capacitar cirurgiões e realizar 100 cirurgias no primeiro ano, que atingimos em abril, muito além da velocidade que imaginamos.

Isso anima para abrir outros hospitais?

Sidney Klajner – Até anima dependendo do tipo de parceria e de mercado que teria.

Existe uma carência para o segmento premium em outros estados?

Sidney Klajner – Sim. Lá em Goiânia mesmo, com o agronegócio crescendo, tem muita gente com acesso. Isso ficou demonstrado durante a pandemia. O Einstein de Goiânia atendeu muita gente grave, com protocolos iguais, com uma interligação diária com a UTI daqui. Lembro também que no ano passado peguei o avião para dar parabéns ao vivo para os médicos no Dia do Médico e tinham terminado o primeiro transplante de medula óssea lá. Nunca houve no Centro-Oeste um transplante de medula óssea.

Na pandemia, você foi um dos poucos líderes que se posicionou publicamente de fato. Por que optou por esse caminho?

Sidney Klajner – Na pandemia vimos uma total falta de liderança do país. Existia muitos focos de pseudo lideranças, muitas fake news, informações pautadas por ideologia religiosa e política. E o Einstein desde sempre colocou a ciência como aquilo que vai permear toda a nossa comunicação, com olhar para o engajamento e educação da população. Tanto que começamos no dia zero da pandemia um comitê de crise que criou o blog Vida Saudável, onde colocávamos diversas informações.

Com a credibilidade que o Einstein tem e com aquilo que estava acontecendo, me vi em uma situação que tinha que falar alguma coisa, que o Einstein tinha que se posicionar.

Chegou até a criticar o CFM.

Sidney Klajner – Sim, porque o CFM proibia a telemedicina. E era a única instituição médica que não condenava o uso de medicamentos que não tinham comprovação. Minha revolta era que para a cloroquina tinha que respeitar a autonomia do médico, mas para a telemedicina não. Por que uma coisa tinha que respeitar a autonomia e a outra não? Chegou um dia que falei que do modo que o CFM se comporta, parece que eles estão privilegiando quem morre.

E o que você achou agora da regulamentação da telemedicina pelo CFM?

Sidney Klajner – Vem em boa hora, porque a nossa lei era de 2002. Estamos brigando por isso desde que o nosso centro de telemedicina começou em 2012. Algumas coisas poderiam ser diferentes, como a primeira consulta, o pronto-atendimento digital, as urgências leves, de como deve ser a capacitação de quem atende a telemedicina. Isso deve se polir ao longo do tempo, mas é um passo.

Acho que já ficou claro que a telemedicina amplia o acesso, mas isso é suficiente? O que mais precisa ser feito para ampliar o acesso da população à saúde?

Sidney Klajner – Telemedicina é uma peça de um todo que vai muito além. Por exemplo, se eu tenho uma telemedicina e através dela não guardo os dados de maneira adequada para fazer prevenção para essa população, estou desperdiçando um ganho enorme. Se não tiver um prontuário adequado de registro ou um estudo epidemiológico que pode ser feito a partir de big data, muita coisa se perde. A telemedicina isolada vai chegar para todos? Será que vai ter smartphone ou um totem no posto de saúde em um município de região mais remota? A telemedicina vai precisar de infraestrutura, de um acompanhamento. Por isso acho que ela é uma parte, mas não o todo, principalmente porque a coordenação do uso dela também vai ser fundamental.

Em sua última coluna no Futuro da Saúde você mencionou que o setor da saúde demorou para adotar algumas tecnologias e avançar na transformação digital. Por que houve essa demora?

Sidney Klajner – Existe muito preconceito quando falamos de novas tecnologias, no sentido de algoritmo, inteligência artificial, digitalização. Nas outras indústrias isso já é aproveitado demais, mas se você olhar para o setor da saúde, onde mais se aproveitou foi na gestão, nos gargalos operacionais. Foi assim no mundo todo. Por exemplo, quando começou a pandemia e vimos um gargalo na internação, demos início ao check-in online. Então, por que a enfermagem e o médico não estão fazendo uso?

Por preconceito, por medo da adoção de uma tecnologia que pode demonstrar, talvez, que o papel humano não é tão necessário. Esse sentimento ocorre principalmente por quem faz assistência, porque na gestão isso já foi quebrado.

Outro dia realmente celebrei um fato, quando diretoras da nossa área de tecnologia e de prática médica me mostraram que os dados estavam sendo suporte à decisão. Aí está a digitalização na saúde. É o sistema indicar que um tipo de paciente deve receber determinado tipo de tratamento, porque 90% desses tipos de diagnóstico têm resultados positivos assim.

Já estamos nesse momento no Brasil?

Sidney Klajner – Aqui ainda não, mas em outros lugares sim. A Mayo Clinic tirou de Harvard o John Halamka, que é o Steve Jobs da saúde, e fez uma parceria com o Google para tudo estar na nuvem. Ele veio em um evento nosso aqui no Brasil e mostrou 146 iniciativas de suporte à decisão para o médico. Ele coloca os dados do paciente no prontuário e um sistema, com base em algoritmo, aponta que esse tipo de paciente terá um benefício maior neste tipo de conduta. Ou, por exemplo, aquilo que vem sendo perseguido por plataformas robóticas, que é você juntar a informação em vídeo de cirurgias feitas no mundo inteiro para criar um padrão que o sistema possa te sugerir caminhos. Imagine o sistema indicar para um cirurgião durante uma cirurgia que 90% dos cirurgiões não vão por aqui, vão por lá. Isso vai demorar um pouco e eu ainda vejo um preconceito, uma insegurança grande para adoção tanto do ponto de vista do médico como da enfermagem. Toda vez que sou chamado para falar disso, comento que o médico que tiver medo de ser trocado por inteligência artificial vai ser trocado pelo médico que usa.

Estamos em um ano eleitoral. Na sua visão, qual deveria ser a prioridade zero em saúde da próxima gestão?

Sidney Klajner – Acho que a primeira coisa é fazer exatamente o diagnóstico dessas prioridades necessárias para melhorar a saúde. Existem cidades que possuem Santa Casa, mas não têm atenção primária. Outras não têm unidades básicas, mas possuem hospital que faz cirurgias. Uma saída seria fazer esse diagnóstico de forma descentralizada, não por estado, mas por região, por exemplo. Assim, dentro do orçamento, você dividiria aquilo que é necessário para cada uma. Eu começaria daí, porque não temos diagnóstico de nada.

E em termos de uso de dados da população?

Sidney Klajner – Isso deveria ser obrigatório. Muito já está sendo feito. Se você olhar o Datasus, tem muita informação pertinente lá.

Mas esses dados se conversam, por exemplo, com o Einstein?

Sidney Klajner – Não. Temos um projeto pelo Proadi em que estamos estudando mortalidade natal e perinatal em Minas Gerais e na Bahia com big data. Mas só teremos informação quando o país todo estiver gerando dados para isso. Precisa ter adoção de prontuário eletrônico, que precisa ser uniforme ou que seja possível transformar de um para outro sistema. Isso foi um problema que ocorreu nos Estados Unidos. Depois que o governo do Barack Obama obrigou todo mundo a digitalizar, cada um digitalizou como pôde.

No Brasil, os hospitais privados têm uma excelência de atendimento, mas qual seria a forma de ampliar esse acesso para a população? Parceria público-privada?

Sidney Klajner – A parceria público-privada também é uma parte, mas não o todo. É preciso haver uma boa coordenação do cuidado entre atenção primária, secundária e terciária. Caso contrário, você vai ter paciente com gripe indo em um hospital que atende AVC.

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