Operadoras buscam serviços especializados para reduzir custos e aumentar atratividade

Operadoras buscam serviços especializados para reduzir custos e aumentar atratividade

A rede credenciada de hospitais e consultórios sempre foi um […]

By Published On: 12/10/2022
Serviços especializados podem colaborar com a prevenção e cuidados com a saúde de gestantes, idosos e outras populações que demandam de mais atenção em saúde.

A rede credenciada de hospitais e consultórios sempre foi um dos principais atrativos para que beneficiários aderissem a um plano de saúde. Com uma concorrência cada vez maior, surge a necessidade de as operadoras oferecerem soluções que as diferenciam uma das outras. A busca por serviços especializados e humanizados tem aumentando e pode ser um ponto positivo para quem os oferece.

Da mesma forma, com o custo da saúde cada vez mais alto, surge a demanda por construir ecossistemas para um melhor controle dos gastos e gestão das necessidades reais dos pacientes, evitando desperdícios financeiros. Serviços especializados que vão além de consultas e exames começam a entrar no radar das grandes operadoras para suprir ambas necessidades, com foco em gestantes, idosos, condições clínicas especificas como transtorno do espectro autista, entre outros.

Essa mudança vai ao encontro das tendências no setor da saúde apontadas por relatório da Deloitte. De acordo com a consultoria, o bem-estar e a prestação de cuidados centrado nos pacientes, assim como os serviços especializados, serão o futuro da saúde, junto à utilização da tecnologia e de dados para a tomada de decisões. Juntos, farão parte de ecossistemas de saúde em 2040.

“O futuro da saúde terá impacto nas partes interessadas, em novos participantes, empregadores e consumidores. Muitas empresas dominantes são compreensivelmente hesitantes em impulsionar a mudança em um mercado que eles atualmente dominam. Dada a sua forte presença no ecossistema existente e sua capacidade de navegar o sistema regulatório, essas organizações podem estar bem posicionadas para liderar à frente”, afirmam os autores.

Aliado a isso, com o envelhecimento populacional, o aumento de doenças crônicas e oncológicas, a alta do dólar e do petróleo, e a crise econômica como um todo, os gastos com saúde tendem a aumentar. Da mesma forma, o aumento dos custos também passa pelo avanço das tecnologias e tratamentos, cada vez mais específicos e com um desenvolvimento que demanda recursos. Por isso, trabalhos de prevenção, acompanhamento e estímulos aos cuidados com saúde se tornam cada vez mais frequentes.

Dados da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) indicam que 267 operadoras estão atuando no vermelho, com despesas maiores que as receitas. Com a aprovação da lei que garante cobertura fora do rol de procedimentos da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), esse quadro pode piorar ainda mais. O contexto cobra ações que evitem os maiores custos com cirurgias, internações e tratamentos.

Ecossistemas

Uma das operadoras que tem buscado incluir serviços especializados na sua rede credenciada é a Amil. Com o objetivo de promover a saúde, ou seja, trabalhar de forma ativa para que os beneficiários cuidem cada vez mais do seu bem-estar, os planos de saúde da empresa oferecem prestadores que realizam atividades nesse sentido.

“Queremos cuidar de cada paciente e apoiá-los em toda a sua jornada, o que exige a contratação de serviços e também a construção junto aos parceiros de novos modelos para prestar atendimentos especializados aos nossos pacientes. Vale destacar que para o funcionamento desses novos modelos é preciso contar com a integração entre os atendimentos ambulatoriais, os laboratórios e os hospitais”, afirma Charles Al Odeh, CMO da Amil.

A contratação desses serviços surge da demanda de todos os interessados do sistema: médicos, pacientes, prestadores e a própria operadora. Além de colaborar diretamente com a saúde dos beneficiários, contribui com a diminuição dos gastos, já que atuando em situações que podem prevenir doenças ou antecipar diagnósticos, pode-se diminuir os custos com a alta complexidade, como internação e cirurgias.

O executivo defende que “no entanto, esse não é, e nem pode ser, o único objetivo. Se, por exemplo, investirmos em diagnóstico precoce do câncer de mama, reduziremos a mortalidade e, dessa forma, o custo. Assim como esse, existem inúmeros exemplos em que melhorar os processos no cuidado com a saúde, também contribui para a redução dos custos”.

Uma das empresas que oferecem serviços especializados para usuários da Amil é a Humana Magna, uma rede de hospitais de transição. A atuação tem o mesmo objetivo de oferecer um atendimento e suporte mais assertivo ao paciente de reabilitação e internação de longa permanência, assim como oferece cuidados adequados e humanizados a pacientes em finitude.

Essa movimentação das operadoras vai no caminho de construírem ecossistemas de saúde, onde podem propiciar e conduzir a jornada do paciente de forma assertiva, com menores custos, melhores desfechos clínicos e favorecendo a experiência do usuário. Na Amil, essa proposta segue o conceito de “Quintuple Aim”, elaborado pelo Institute for Health Improvement (IHI). São eles: melhorar desfecho clínico, eficiência na utilização dos recursos, melhorar a experiência do paciente, satisfação no trabalho e, mais recentemente, a equidade em saúde.

“Nosso papel é o de auxiliar o paciente a navegar no sistema de saúde, que apesar de complexo, não pode ser complicado. Por isso, desenhamos e desenvolvemos com frequência as linhas de cuidado em nossas unidades próprias para que sirvam de referência para os serviços que iremos contratar”, conclui o CMO.

Healthtechs na mira para aprimorar serviços especializados

Indo na mesma direção, a operadora Bradesco Saúde fechou uma parceria com a Theia, healthtech especializada em gestantes, tentantes e puérperas, para realizar atendimento de seus mais de 4 milhões de beneficiários. Tendo a mulher no centro do cuidado, a empresa proporciona um acompanhamento que vai além de consultas e exames.

“Com ampla cobertura para as diversas categorias de planos, a parceria permite atendimento nas modalidades que abrangem todo o período pré e pós-gravidez, disponibilizadas pela Theia, assegurando assim o bem-estar das mães e filhos”, explica o diretor-gerente da Bradesco Saúde, Flávio Bitter.

Fundada por mulheres, a healthtech conta com equipe multidisciplinar, de dentistas a doulas, especializada no público-alvo. Todo planejamento e atendimento pode ser feito com a startup, que realiza até partos em hospitais parceiros. A ideia é aproximar, humanizar e individualizar o cuidado, tornando o local um espaço acolhedor às mulheres.

A Bradesco Saúde explica que a demanda partiu da análise da carteira, que é composta em grande parte por mulheres em idade fértil. Somente na faixa etária dos 20 aos 44 anos são mais de 700 mil beneficiárias. “Estamos permanentemente atentos às necessidades assistenciais de nossos beneficiários. Investimos muito em tecnologia e dados para entender e atender a essas necessidades e ampliar o acesso do segurado à assistência médica de qualidade”, explica o diretor-gerente.

Dentro da operadora, a healthtech faz parte do Programa Meu Doutor Obstetrícia, que promete uma relação mais estreita, com cuidados e atenção próxima, com um acesso mais agilizado aos serviços. Esse não é o único programa da Bradesco Saúde, que conta com mais de 15 linhas de cuidado.

Bitter prefere não falar sobre o impacto da Theia na redução de custos da operadora e diz que o foco está em proporcionar a melhor experiência ao usuário. No entanto, conversamos com empresas que atuam do outro lado, prestando serviços aos planos de saúde, que explicam o porquê de serem mais vantajosos, tanto do ponto de vista econômico como da saúde.

Cuidado com pessoas idosas

A Laços Saúde é uma das principais empresas que vem ganhando destaque no mercado. Isso porque ela trabalha diretamente com faixas etárias que mais utilizam os planos de saúde: os idosos. Com a tendência da pirâmide etária populacional do Brasil se inverter, isso é, termos um maior número de pessoas com mais de 60 anos do que jovem, urge a necessidade de ampliar os cuidados.

“A gente oferece um cuidado diferenciado aos pacientes, onde fazemos uma análise de risco, sejam eles ambientais, cognitivos, funcionais, de relacionamento, saúde mental e física. Oferecemos cuidados através de visitas domiciliares para vários tipos de pacientes, de idosos robustos a idosos frágeis” explica Martha Oliveira, CEO da Laços Saúde e ex-diretora da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

A Laços se baseia na busca pela manutenção da funcionalidade, o autocuidado e a autonomia das pessoas idosas, tendo os profissionais de enfermagem como principais atuantes no cuidado. Além do principal serviço, realizam atendimento via telemedicina e aplicativo, contando com uma equipe multidisciplinar, de nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas, entre outros.

Atualmente, 6 operadoras disponibilizam os serviços da empresa aos beneficiários, entre elas a NotreDame Intermédica, que possui mais de 4 milhões de usuários pelo país. Ainda que seja considerado um benefício, a Laços trabalha para que seja incluída de forma integral nas redes dos planos de saúde, principalmente com os resultados que entregam tanto à saúde, quanto à redução de custos.

“No primeiro ano de investimento, calculamos um resultado que para cada 1 real investido, retornam 2 reais. Isso acontece porque com o vínculo, cuidado e certeza de um bom atendimento, o número de internações e idas às emergências reduzem drasticamente, o que reflete nos custos assistenciais e na sinistralidade não-necessária”, aponta Oliveira.

Estima-se que em 2030, o número de idosos vai superar pela primeira vez o tamanho da população de crianças entre 0 e 14 anos. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil terá a quinta população mais idosa do mundo. Com isso, a necessidade de buscar alternativas para a economia em saúde é urgente.

Oliveria acredita que o cenário favorece o crescimento da Laços. Ela analisa que “cada vez mais o mercado percebe a necessidade do nosso papel, vendo a importância da continuidade do cuidado, o deslocamento do paciente para o ambiente domiciliar e a análise de riscos. Junta isso tudo ao envelhecimento acelerado da população, onde inclusive a população que mais cresce é acima dos 80 anos”.

Humanidade no cuidado

Se o gasto hospitalar, principalmente com internação e alta complexidade, estão entre os principais custos dos planos de saúde, é preciso descentralizar os cuidados para fora dessas unidades. De acordo com o caráter clínico de cada um, um serviço de saúde mais enxuto pode contribuir com a economia e sustentabilidade.

A Humana Magna, hospital de transição com duas unidades em São Paulo, entrou no mercado para suprir essa demanda. Eles atendem pacientes que passam por reabilitação, de longa permanência ou de finitude, com diagnósticos bem estabelecidos e que demandam um tipo de cuidado específico. Atualmente, conta com 150 leitos e 95 pacientes sob cuidados.

Através de sua equipe multidisciplinar, o hospital realiza acompanhamentos de pacientes que não demandem mais de exames e cirurgias contínuas, como recuperação de traumatismo craniano e pós-operatórios de cirurgias ortopédicas, assim como quadros irreversíveis, como neoplasias de estágio avançado que já não possuem tratamentos e demência avançada. Mais de 1000 pacientes já passaram pelas unidades.

“Os hospitais gerais, com todas suas especialidades e centros cirúrgicos, são muito bem estruturados para atender uma alta complexidade. A missão deles é para isso. A Humana Magna pega um outro tipo de paciente. Não temos centro cirúrgico e estrutura ambulatorial, então nossos custos operacionais são menores, e obviamente, entregamos um produto de menor custo assistencial”, afirma o CEO da empresa, Rodrigo Lopes.

Ainda que pouco explorado no Brasil, esse formato de hospital vem ganhando mais destaque entre pacientes e suas famílias, por optarem por um local estruturado e que dê o suporte necessário com menos exposição. As operadoras também passam a se interessar, já que tem um sistema de custos diferente do chamado “fee for service”, onde hospitais realizam os atendimentos necessários e repassam o custo posteriormente.

Lopes explica que “tudo é previamente liberado ou a gente já tem um modelo de remuneração fixo, então a previsibilidade que geramos para as operadoras é muito importante. Quando o paciente entra, já possui um plano terapêutico, uma estimativa do tempo de permanência e um custo fechado, diferente de um hospital de conta aberta que se ele realizar uma tomografia ou ressonância é cobrado à parte”. Além da parceria já citada com a Amil, hoje a Humana Magna atende diversos planos de saúde.

O CEO ainda aponta que apesar de ser um serviço extra aos beneficiários, ele é mais adequado a um tipo específico de paciente, e que não concorre com hospitais de alta complexidade, já que não têm diversos serviços convencionais, como pronto-atendimento. Por ser uma estrutura diferenciada, pacientes, familiares e cuidadores precisam passar por um período de adaptação, para que entendam a dinâmica do atendimento.

“O Brasil ainda está em uma trajetória que precisa ser repensada e revista, como modelos de remuneração e a questão do que é entregue na assistência. E isso impacta em todas as suas realizações”, conclui.

Rafael Machado

Jornalista com foco em saúde. Formado pela FIAMFAAM, tem certificação em Storyteling e Práticas em Mídias Sociais. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou no Portal Drauzio Varella. Email: rafael@futurodasaude.com.br

About the Author: Rafael Machado

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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  • Sidney Klajner

    Cirurgião do Aparelho Digestivo e Presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. Possui graduação, residência e mestrado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, além de ser fellow of American College of Surgeons. É coordenador da pós-graduação em Coloproctologia e professor do MBA Executivo em Gestão de Saúde no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Einstein. É membro do Conselho Superior de Gestão em Saúde, da Secretaria de Saúde do Estado de S. aulo e coautor do livro “A Revolução Digital na Saúde” (Editora dos Editores, 2019).

  • Rafael Machado

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  • Fabricio Campolina

    Fabricio Campolina é referência no setor quando o assunto é tecnologia, inovação e transformação digital e, atualmente, é presidente da Johnson & Johnson MedTech Brasil. Graduado em ciência da computação pela UFMG, possui ainda especialização em gestão de negócios pelo Ibmec e MBA em administração de negócios pela Duke University, onde se graduou entre os top 10% de sua classe. Foi também presidente do conselho da ABIMED, onde liderou o processo de reposicionamento estratégico da associação, e é membro-fundador do Instituto Coalização Saúde.

Rafael Machado

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