Será que as mortes por Covid-19 estão de fato diminuindo?

Vocês devem estar pensando: “Não aguento mais o vírus e a pandemia...”. Mas o novo coronavírus ainda não se cansou de nós e pelo visto nem se cansará tão cedo

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Li nesta semana um artigo da Nature que me chamou muito a atenção sobre os mistérios que envolvem a Covid-19 e a percepção de melhoria na sobrevida.

Nos últimos meses adquirimos experiência com muito sofrimento e suor.  Hoje estamos assistindo a redução da faixa etária dos infectados, maior disponibilidade de leitos vagos e a ciência trazendo novas evidências de tratamentos, tanto eficazes quanto documentando a ineficácia de outros tratamentos. Mas… seriam estes fatores os determinantes para a diminuição das mortes relacionadas à Covid-19? Estamos satisfeitos com as taxas atuais?

Será que no Brasil iremos também ver esta tendência mesmo com a possibilidade de aumento da detecção de casos novos?

Vocês devem estar pensando: “Não aguento mais o vírus e a pandemia…”. Mas o novo coronavírus ainda não se cansou de nós e pelo visto nem se cansará tão cedo.

Países como Índia e Reino Unido têm relatado um menor número de mortes nos pacientes que precisaram de UTI e ventilação mecânica (VM). Comparando o início da pandemia e os dias mais atuais, em Abril eram 35% de mortes em pacientes na UTI e 70% nos que necessitavam VM e agora estes números seriam 30 % e 45% respectivamente.  

O que está acontecendo mundo afora?

– Temos medicamentos “milagrosos”? Não.

– Temos novas tecnologias? Não.

– Temos profissionais da saúde mais experientes e com mais tempo para atender melhor os pacientes? Sim! Com a diminuição da sobrecarga de trabalho, conseguimos ser mais eficientes na assistência, de forma geral.

Outro aspecto é que deixamos de usar medicamentos que NÃO comprovaram eficácia, e que apresentam risco de até prejudicar o tratamento.

A testagem populacional que cada país ou região realiza também tem um papel importante nesta conta. No Brasil, no início da pandemia, testávamos somente pacientes com doença grave e obviamente, nossa taxa de letalidade era muito elevada. Países que testam assintomáticos reconhecem muito mais pessoas infectadas e com isso o denominador é bem maior e a taxa cai.

A faixa etária também exerce seu papel nesta conta. Pacientes mais jovens estão se infectando com maior frequência e apresentam menor risco de morrer em decorrência da Covid-19. A figura abaixo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, o CDC, deixa muito clara a relação da idade e risco de hospitalização e morte.

Medicações como o tocilizumabe, que tinha como esperança interromper a tal “tempestade inflamatória” que mata os pacientes graves, não só não salvaram vidas como na realidade mostraram aumentar o risco de complicações com novas infecções (superinfecções) causadas por bactérias e fungos, por vezes bactérias multirresistentes aos antibióticos (superbugs). Com isso, houve o aumento do risco do paciente morrer, não mais pela Covid-19, mas por tratamentos aplicados no manejo da doença.

Os corticosteroides até o momento são as únicas drogas que de fato tiveram um efeito dramático na sobrevida dos pacientes com quadros graves e moderados. Não há evidência do benefício do corticoide para pacientes com doença leve.

No momento temos inúmeras novas drogas sendo estudadas e desenvolvidas, assim como novas tecnologias, como o uso de anticorpos purificados e plasma de convalescente.

Em relação ao manejo e tratamento da falta de oxigenação dos pacientes que necessitam de suporte ventilatório, também tivemos mudanças. No início da pandemia, indicávamos muito mais a ventilação por aparelhos, mesmo em pacientes que não tinham parâmetros para tal, por medo e insegurança de que o paciente poderia “descer a ladeira” a qualquer momento e “não podíamos perder tempo”. Hoje sabemos que isso não mais é verdade.

Após meses “trocando o pneu com o carro andando” na nossa curva de aprendizagem, vimos que muitas vezes fazer o básico bem feito e de forma sistematizada pode ser melhor que muitas ações intempestivas e invasivas.

Mas, qual a melhor forma de diminuir a taxa de morte relacionada à Covid-19?

Não ter números elevados de casos ao mesmo tempo, principalmente enquanto a vacina — ou melhor dizendo, a vacinação — não chega. Assim, damos a chance para qualquer vítima da infecção pelo novo coronavírus, ser assistido da melhor forma possível! Nunca podemos perder esta oportunidade. Morrer faz parte da vida, mas morrer sem assistência é crime.

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