“Sem aumentar informação e coordenação, você tem um sistema cada vez mais ineficiente”, afirma ex-ministro da Saúde Nelson Teich

Teich, que será o novo colunista de Futuro da Saúde a partir de março, abordou os erros e acertos do governo e as prioridades pós-pandemia

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Se para boa parte da população estes tempos de pandemia parecem uma eternidade, sob o olhar da saúde, este quase um ano desde o início das medidas de isolamento voou. Para o ex-ministro da Saúde Nelson Teich, foi tempo suficiente para que o coronavírus escancarasse os problemas e, consequentemente, os caminhos que os países devem seguir para melhorar seus sistemas de saúde e se preparar para os próximos desafios.

Ele é o entrevistado do mês de fevereiro em Futuro da Saúde e, durante a conversa, abordou ainda os erros e acertos do governo, a necessidade de traçar cenários e as prioridades pós-pandemia. Ao longo da entrevista, Teich apontou a importância de se ter dados estruturados, tanto na saúde pública como na saúde suplementar: “As operadoras de saúde teriam que medir o desfecho clínico, todas, e isso teria que interagir com SUS, porque existe o doente que vai sair da saúde suplementar e vai para o SUS, tem o doente que entra no sistema, tem o doente que muda de operadora. Esse banco de dados tem que ser unificado. A saúde suplementar é naturalmente fragmentada”.

A entrevista de Teich marca também o anúncio de uma novidade: a partir de março, o oncologista e mestre em economia da saúde pela Universidade de York, no Reino Unido integrará o time de colunistas do Futuro da Saúde. Todos os meses, ele compartilhará com os leitores sua visão sobre políticas públicas, eficiência na gestão e importância da informação para o desenvolvimento de estratégias assertivas. Acompanhe os principais trechos da entrevista:

Estamos há um ano com a pandemia. Como você vê o cenário atual?

Depois que a gente olha em retrospecto é fácil achar alguma coisa que poderia ter feito diferente. Acho que, no Brasil, a Covid-19 deixou claro que não tínhamos um sistema eficiente. As dificuldades que vivemos até hoje acontecem em função de um sistema que não estava realmente preparado para viver esse momento. A Covid-19 também realçou vários problemas e características. Por exemplo, no caso dos cientistas, foi possível ver como existe um espírito de colaboração enorme. Por outro lado, vemos na parte política uma briga danada, uma falta de colaboração, e como isso atrapalha. Esse contraste enorme entre grupos que trabalham em cooperação e grupos que ficam guerreando em busca de ganhos pessoais, políticos e partidários, é uma coisa que a Covid-19 mostrou na prática.

Poderíamos estar melhor? Quais foram os acertos e os erros?

Três continentes conseguiram controlar melhor a doença: a Oceania, Ásia e África. Os que mais sofreram foram os países da América do Sul, América do Norte e Europa. Uma característica destes países que tiveram melhores resultados é o melhor controle da doença. Controlaram a transmissão. Precisávamos de uma estrutura muito melhor para conseguir controlar a transmissão. Rastrear, isolar, testar, fazer quarentena e conseguir colher informação rápida para entender o que está acontecendo e, assim, entender a evolução e ter um poder de execução rápido. Costumo avaliar as situações por sete dimensões: estratégia, planejamento, liderança, coordenação, informação, poder de execução e comunicação. É preciso parar e olhar cada um desses itens e ver exatamente como é que você entrega cada um.

Algum desses itens é mais importante?

Em uma entrevista me perguntaram qual desses 7 itens o Brasil falhou. Eu falei: “todos”. O Brasil não foi bem em nenhum deles. A Organização Mundial da Saúde fala muito de cluster, que é quando identificamos um ou poucos casos e fazemos o isolamento daquela região. Só que normalmente você teria que ter essa competência bem no começo, quando o número é pequeno. Quando você tem milhares e milhares de pessoas com a doença, fica difícil fazer isso acontecer. A média do Brasil é muito alta. Hoje são 46 mil novos casos. Chegamos a bater 55 mil em um dia. Como é que se rastreia tudo isso?

Agora que perdemos isso, não há mais o que fazer?

Apesar de não ter feito isso, tem que se preparar para fazer. Nesse momento vai ser muito difícil por causa do volume, mas em algum momento haverá uma redução de casos. O problema da Covid-19 é que a gente ainda não sabe onde ou quando vai parar. Porque é uma das dificuldades de você viver uma situação tão instável, com tanto desconhecimento como a atual. É a prova de que você tem que estar preparado para qualquer coisa. Como um gestor você não tem que tentar adivinhar o futuro, na verdade, você constrói o futuro. E tem que tentar entender todos os cenários possíveis e de alguma forma ter uma estratégia para cada um deles.

Não imaginar somente o cenário perfeito…

Hoje um dos grandes problemas é esse. Por que que um governo promete o que não entrega? Porque essa promessa, mesmo fora do Brasil, é criada em uma situação em que tudo tem que dar certo. Quando você promete um cenário mais otimista, a chance de entregar é muito pequena, porque raramente o cenário mais otimista acontece. Assim como raramente o mais pessimista acontece. Geralmente é preciso trabalhar em um nível intermediário. Outro ponto é que só se consegue entender exatamente a situação quando você está dentro. Por isso, em uma situação em é preciso aprender até ontem e decidir hoje, algumas decisões são revistas. Se essas revisões são tratadas como uma razão para crítica complica muito, porque as pessoas deveriam pensar “olha, isso aqui não deu muito certo, o que que a gente faz agora?”, mas sem transformar isso numa guerra. Não dá para você vencer uma guerra estando no meio de outra, isso é impossível porque você acaba tentando sobreviver em vez de focar na resolução.

“Quando você mapeia os cenários, se um deles é catastrófico é preciso ter um plano para aquilo. Mesmo que a chance seja pequena, se é um cenário muito grave, você não pode não tentar se preparar para aquilo”.

Nada foi acertado, então?

O auxílio emergencial foi fundamental.

E em termos de saúde pública?

Não consigo pensar em nada como um grande acerto. Não tem nenhum grande movimento que tenha sido marcante. E não é para falar mal, é porque não consigo pensar em um. É inacreditável.

Como você vê essa medida provisória que interfere nas decisões da Anvisa?

A Anvisa não pode apenas não ser política. Tem que parecer não ser política, porque todo mundo vai usar qualquer coisa para dizer que é política ou que não é. Eles sabem que não podem sair liberando de uma forma irresponsável, mas por outro lado a condução mais rigorosa pode ser tratada como posição política, como incompetência. A situação da Anvisa está super difícil, mas eles têm feito um papel muito bom.

Hoje temos esse cenário em relação à nova variante de coronavírus, que vimos recentemente em Manaus. Seria possível se planejar para isso?

Era provável explodir uma variante que é grave? Provavelmente não. A chance é desprezível? Certamente não. Qual o tamanho dela? Não sabemos, mas não dá para desprezar isso. Então, é preciso tentar se preparar para isso. A pergunta é: será que, a partir desse limiar de mutação, não é muito mais fácil novas mutações criarem cepas muito mais agressivas? Talvez seja. Não é irracional. E você precisa estar preparado. Se isso não acontecer, ótimo, porque é o tipo de situação que você torce para estar errado. Mas, como gestor, tem que se preparar para possíveis evoluções.

O que poderia ser feito e o que não está sendo feito?

Se você olhar a curva, realmente a de Manaus é impressionante. Houve um descolamento muito rápido e, por isso, acho pouco provável que não tenha a ver com a variante. O efeito do final de ano esteve no Brasil inteiro, mas você vê que Manaus tem uma evolução completamente diferente. Claro que há um problema da infraestrutura que não é adequada na saúde, mas de qualquer forma a evolução de Manaus é um negócio impressionante.

“Tudo começou em Manaus na primeira vez. Então qual é o risco de que o que está acontecendo se repetir? Da mesma sequência acontecer? Esse é um risco enorme. Precisamos ter um programa de mapeamento do genoma viral nacional e esse mapeamento precisa ser coordenado”.

A Inglaterra faz mais mapeamento genômico em um dia, enquanto o Brasil faz em um mês. Existem 68 milhões de habitantes lá, enquanto o Brasil tem 212 milhões.

E como o mapeamento do genoma poderia impactar nessa questão?

Com ele é possível ver como esse vírus está se espalhando pelo Brasil, se é mais por viagem aérea, barco, terrestre, se está mais em cidades vizinhas. Ao enxergar como ele se espalha, é possível criar áreas de extrema atenção, onde ele pode crescer rápido. Então, faço uma preparação enorme para tentar evitar que aconteça nesses lugares o que aconteceu em Manaus. Você passa a analisar como estão os leitos de UTI, recurso humano, oxigênio, estoque de remédios para sedação e assim por diante.

Pensando no mundo pós-pandemia, você acha que a saúde ficou mais inteligente, que os gestores estão mais preocupados?

A saúde saiu mais preparada depois da Covid-19? Com certeza não. Mas com a Covid-19 tivemos oportunidade de ver as fraquezas do sistema. O que vai definir se a gente vai estar preparado para outras pandemias ou situações graves é o quanto vamos conseguir corrigir os problemas que vimos durante a Covid-19. Está para sair uma publicação inicial daquele grupo que foi para Wuhan para tentar entender a origem do novo coronavírus. Isso é uma coisa superimportante, porque permitirá entender como novas pandemias podem surgir e como podemos tentar nos proteger disso. E os sistemas deveriam tentar se preparar melhor não só para tratar as novas pandemias, mas também as doenças ligadas à oncologia, cardiovascular e doença mental, que é um grande problema. Existem estudos que sugerem que nos países desenvolvidos a doença mais prevalente será a depressão.

Quando o coronavírus não for mais o foco, na sua opinião qual deveria ser a prioridade para a saúde do Brasil?

Um programa de informação mais detalhada é fundamental. O Brasil já tem programas acontecendo, mas não com a força necessária na prática. Temos que entender melhor a saúde suplementar [atividade que envolve a operação de planos e seguros privados de assistência médica à saúde]. Hoje mais ou menos 47 milhões de pessoas usam um plano de saúde, enquanto 165 milhões dependem exclusivamente do SUS.

“A saúde inova e vai se transformando para melhor. Cada vez mais teremos uma saúde mais sofisticada, com maior poder de ajuda. O grande problema é como o gestor leva isso para o maior número possível de pessoas. Sem isso, é um aumento enorme da desigualdade e da injustiça social”.

Um dos grandes objetivos das empresas é criar um ecossistema na saúde. Dá para imaginar um grande sistema em que a gente tenha o que acontece no SUS e tenha também o que acontece na saúde suplementar para fazer esse desenho do cenário?

Tem muitas coisas que são corretas de serem faladas, mas que não se transformam em realidade. As operadoras de saúde teriam que medir o desfecho clínico, todas, e isso teria que interagir com SUS, porque existe o doente que vai sair da saúde suplementar e vai para o SUS, tem o doente que entra no sistema, tem o doente que muda de operadora. Esse banco de dados tem que ser unificado. A saúde suplementar é naturalmente fragmentada. Há o hospital que está lá para fazer a cirurgia, o consultório médico, a radioterapia, a clínica de oncologia, de neurologia, de reumatologia. Mas esses lugares nascem sozinhos, isolados. Juntar um negócio desse é quase impossível.

Não é interessante financeiramente?

Cada um tem seu interesse. Você teria que ter capacidade de ter a informação que vem do ambulatório de oncologia com o que acontece no hospital para tudo que você imaginar. Não há uma linha de cuidado. Na oncologia, o diagnóstico é feito por um grupo, quimioterapia por outro, radioterapia por outro, outro é o cirurgião que opera.

“Hoje na saúde suplementar não se consegue identificar qual é a instituição que entrega melhor, qual não entrega. É tudo muito solto e fragmentado. Não há uma linha, especialmente nas doenças crônicas”.

É muito mais fácil ter um sistema público eficiente do que um sistema privado eficiente.

Por quê?

Porque o sistema público tem na essência dele o institucional, que é diferente do sistema privado. O objetivo dos planos de saúde sempre começa muito mais com objetivo financeiro do que de cuidado. A preocupação com o cuidado é muito mais sobre se a conta fecha no final do mês e manter o lucro do que realmente uma preocupação com as pessoas. Para ter esse modelo você deveria ter um sistema centralizado juntando público e privado, pelo menos na informação. Não é interferência na iniciativa privada, mas sim capacidade de entender o que está acontecendo no sistema. Quando um diagnóstico é feito, a solução vem quase que naturalmente. Quando um problema é mapeado, você percebe que precisaria fazer 1.000 cirurgias, mas está fazendo 200. Teria que documentar a necessidade de cada região com a quantidade de hospitais credenciados, o que está acontecendo com eles e qual o resultado de tudo isso. Enquanto não há informação, não se sabe o que está acontecendo. Por isso que a informação é tão importante, ela te dá a capacidade de entender o que está ocorrendo. O problema que vejo hoje é que o sistema de saúde vai ficando cada dia mais complexo e, quando você aumenta a complexidade sem aumentar informação e coordenação, você tem um sistema cada vez mais ineficiente. Então ele provavelmente vai ser muito bom para poucos e ineficiente para a maioria.

E essa tendência de criar grandes conglomerados que coloquem o paciente em um só sistema? É uma saída mais viável?

A verticalização me parece um caminho com mais chance de aumentar a eficiência. O problema é, da mesma forma, ter o desfecho clínico para que a verticalização não seja só uma forma de fazer barato. Uma coisa é aumentar a eficiência, outra coisa é controlar custos. Para aumentar a eficiência você mede desfecho, controlar custo você mede só dinheiro, essa é a grande diferença. O desfecho é uma coisa simples de mapear: se o paciente ficou vivo ou não, se enfartou ou não, se internou ou não. E tem também uma medida que é a satisfação do cliente. São duas coisas distintas, uma é a entrega de saúde, outra é a entrega de percepção de cuidado, então o ideal é combinar ambos.

Temos exemplos interessantes fora do Brasil?

Fora do Brasil você tem alguma coisa nos países da Escandinávia, o Reino Unido está tentando melhorar essa parte de informação, mas eu acho que isso é um problema mundial também. Quanto pior é a sua capacidade de ter informação, mais difícil de você entender o que está acontecendo e planejar e acompanhar.

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