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Saúde suplementar: o que explica o crescimento durante a pandemia e as projeções para 2022

Por mais que a pandemia previsse um cenário caótico e pessimista para os planos de saúde, aconteceu o contrário. De acordo com a ANS, as operadoras registraram 1,5 milhão de novos beneficiários entre janeiro e dezembro de 2021 - o maior crescimento para o período de um ano desde 2013.

               
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Os anos de 2020 e de 2021 foram desafiadores para o setor de saúde suplementar. A junção de dois fatores – alta taxa de ocupação de leitos e o adiamento de procedimentos eletivos – foram responsáveis por levar a despesa assistencial para os maiores níveis históricos do segmento. Por mais que a pandemia previsse um cenário caótico e pessimista para os planos de saúde, que já vem amargando quedas nos últimos anos, aconteceu o contrário. De acordo com levantamento realizado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) as operadoras registraram 1,5 milhão de novos beneficiários entre janeiro e dezembro de 2021. Este foi o maior crescimento para o período de um ano desde 2013.

Para 2022, o cenário ainda é incerto: a instabilidade politica e econômica impacta diretamente o crescimento da saúde suplementar. De acordo com o ex-ministro da Previdência Social e superintendente executivo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), José Cechin, as eleições adicionam mais imprevisibilidade. “As incertezas políticas e econômicas inibem o investimento, não trazem capital estrangeiro, a taxa de desemprego ainda está muito alta e a renda do brasileiro está menor. Então, se não tivermos um quadro brilhante na economia, não teremos um quadro brilhante no número de beneficiários. A gente terá que contar com o sacrifício das pessoas, que irão sacrificar outros tipos de bens para manter os planos de saúde”, opina. 

Ele cita uma pesquisa de opinião divulgada pelo IESS em abril de 2021, no pico da pandemia, que trouxe a constatação de que as pessoas com plano de saúde sentiam-se mais confortáveis em meio ao surto de Covid-19 e por saber que teriam melhor acesso à saúde caso precisassem. 

O superintendente executivo da Abramge, Marcos Novais, corrobora com a visão do executivo do IESS, mas acredita que o setor continuará em expansão. “A nossa visão é que ele continuará crescendo, mas um crescimento muito aquém do que deveria ser”, estima. Ele acredita que o mercado não vai voltar a crescer um milhão de vidas por ano, como era antes de 2013 e 2014, mas algo em torno de 300 mil vidas. É um cenário de baixo crescimento, reflexo do cenário econômico e da forte inflação que aflige o país. “A gente ainda tem muito investimento para fazer, principalmente para ganhar eficiência, estou falando em aumentar o volume de equipamentos disponíveis, aprimorar tecnologias. Então é um setor que ainda vai mudar muito e tem muito a investir”, pontua. 

A visão otimista também é compartilhada pela diretora executiva da FenaSaúde, Vera Valente, que defende mudanças regulatórias para melhorar esse cenário: “Estamos otimistas quanto à continuidade do crescimento do número de beneficiários, movimento que voltou a acontecer em junho de 2020. É preciso considerar que o mercado ainda tem muito espaço para crescimento. E para que isso aconteça é imperativo que a legislação do setor acompanhe as demandas da sociedade. Para oferecer mais acesso para a população que deseja adquirir um plano de saúde, a regulação precisa permitir mais variedade de produtos e segmentação de coberturas, por exemplo”.

O olhar em retrospectiva

Entre setembro de 2020 e 2021, o número de beneficiários de planos médico-hospitalares cresceu 3,3% e os exclusivamente odontológicos 9,9%. O ano de 2021 também foi marcado pelo forte crescimento da despesa assistencial, impulsionada pelas altas taxas de ocupação de leitos no início do ano e pela retomada de procedimentos eletivos adiados durante a pandemia. De acordo com a edição trimestral do Cenário Saúde, publicada pela Abramge, o crescimento do mercado em 2021 foi impulsionado também pela queda no número de cancelamentos de planos de saúde em comparação com 2020. “Entre janeiro e setembro de 2021, o número de cancelamentos foi 5,4% menor do que o observado no mesmo período de 2020.”

Segundo Marcos Novais, da Abramge, as medidas protetivas do governo, como a redução temporária de salários para manter os empregos de funcionários em que as empresas estiveram fechadas, o pagamento de auxílio emergencial e crédito para pequenas e médias empresas, impulsionaram o setor durante a crise. “O que influencia no mercado de planos de saúde é o mercado de trabalho: renda e emprego. Então, o que aconteceu durante a pandemia foi uma grata surpresa: teve uma pequena queda em um bimestre, mas em seguida o emprego voltou a crescer, resultando no crescimento do mercado de planos de saúde”, explica. 

Para ele, o fato de as pessoas ficarem em casa recebendo seus salários durante meses da pandemia e as empresas não poderem demitir os funcionários enquanto o governo pagava o auxílio, fez com que as pessoas mantivessem seus planos de saúde. O ex-ministro da Previdência Social do governo FHC e superintendente executivo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), José Cechin, corrobora com essa opinião. Para ele, com a retomada das empresas consolidadas no mês de junho, houve mais contratações em empresas que ofereciam planos de saúde para os funcionários, o que impulsionou o mercado. “Durante o pico da pandemia algumas pessoas contrataram planos individuais ou por adesão. Agora, mais recentemente, as vendas não cresceram, pelo contrário, as novas aquisições estão com preços menores, então a volta do número de beneficiários, do crescimento se dá pelo aumento do emprego formal, de pessoas com planos empresariais”, analisa. 

Na opinião da diretora executiva da FenaSaúde, Vera Valente, em 2021 o setor de saúde suplementar consolidou ainda mais sua relevância no país, garantindo acesso a exames, internações e insumos. Entre março de 2020 e outubro de 2021, estima-se que as operadoras associadas à FenaSaúde tenham viabilizado a realização de mais de 5,6 milhões de exames de diagnóstico de Covid-19 e 483 mil internações por Covid-19 em enfermarias e UTIs. “Só essas duas frentes acarretaram um custo de cerca de R$ 25,5 bilhões. Fica claro, então, que a pandemia teve um impacto na veia do setor de planos e seguros de saúde. Devido a ser um evento repentino, esse valor não foi previsto e nem precificado. Ainda assim, apesar de todas as dificuldades e impactos, os planos de saúde entregaram toda a assistência demandada e seguiram solventes e fortes, fechando o ano com 48,6 milhões de beneficiários de planos de assistência médica e 28,8 milhões de beneficiários de planos odontológicos”, explica.

Relação com o emprego

Para entender o cenário atual, é importante voltar um pouco no tempo. Até o ano de 2014, houve uma ampla criação de empregos e, consequentemente, aumento das vendas de planos de saúde. O mercado saltou de 44 milhões para 50 milhões de beneficiários, em uma constante de crescimento. Passado 2014, veio o desastre: “No mercado de trabalho, a gente perdeu entre três milhões e quatro milhões de empregos em quatro anos. E no mercado de planos de saúde, perdemos três milhões de beneficiários. Então a gente sai com 50 milhões de vidas cobertas em 2014 para 47”, explica Novaes.

Para Valente, a pandemia destacou ainda mais o protagonismo da saúde suplementar no Brasil, garantindo segurança e acesso à saúde de qualidade em um momento tão crítico. Desde 2016, os planos de saúde vinham perdendo beneficiários, devido à crise econômica brasileira. E foi justamente nesse período crítico da Covid-19 que esse quadro começou a se reverter e, desde junho de 2020, os planos de saúde registram aumento. Foram registradas 14,4 milhões de novas adesões a planos médico-hospitalares entre outubro de 2020 e setembro de 2021. Este volume é 7,2% maior do que o registrado no mesmo período entre 2019 e 2020. Fica claro, portanto, que a pandemia teve um peso importante na decisão de aderir a planos de saúde”, explica. 

“Grande parte do crescimento de mercado se deu no segmento PME, em que muitas vezes as estruturas de negócios são enxutas ou até familiares. Nesse caso, a preocupação em oferecer e ter a segurança de um plano de saúde ganha uma conotação pessoal de cuidado com as pessoas próximas. Já nas grandes empresas o plano de saúde é um diferencial importante de atração e retenção de talentos”, analisa Valente. 

Ela ressalta ainda que as operadoras também lançaram mão de estratégias diversas para atrair e reter clientes, em busca de maior equilíbrio das carteiras, de modo a fazer frente à escalada de custos provocada pela aceleração da retomada de procedimentos e inflação dos insumos e procedimentos médicos. Cechin complementa a análise. Segundo o ex-ministro, a retomada das contratações por empresas que oferecem planos de saúde, aliada à preocupação das pessoas com a saúde, frente a pandemia, foi o que motivou esse crescimento.  

Custos operacionais

De acordo com o superintendente executivo da Abramge, os maiores entraves para a continuação do crescimento dos planos de saúde, além do cenário econômico, são os custos operacionais. Embora as operadoras de saúde tenham computado uma redução de 6,5% nos custos assistenciais em 2020, as despesas em infraestrutura para adaptação a alta demanda de pacientes com covid-19 aumentaram. “Existem operadoras que aumentaram em mais de 30% o número de leitos e fizeram um forte investimento em rede para poder atender a demanda por conta de uma doença que debilita muitas pessoas e que várias delas necessitam de uma estrutura de alta complexidade como leitos de UTI. Houve um deslocamento de despesas, com um gasto em infraestrutura muito maior: 24,2%, chegando a 4,1 bilhões de reais e quando a gente compara 2019 a 2020, temos 1,7 bilhão, ou seja, multiplicamos o investimento por 3”, analisa. 

A sinistralidade foi outro aspecto que chamou a atenção durante a pandemia. Em um primeiro momento, no período janeiro/junho de 2020 esse índice caiu de 81% para 70,1%, para, em sequência (no período jan/jun de 2021) voltar a aumentar para 81,5%. O executivo da Abramge explica que houve uma espécie dedeslocamento do tempo” em relação aos procedimentos realizados. “Com o cancelamento das cirurgias eletivas e um foco quase exclusivo para o tratamento da Covid, em um primeiro momento houve uma queda nessa sinistralidade, em sequência ela ir voltando aos patamares regulares. Isso trouxe consigo uma mudança no tipo de despesa das operadoras. As despesas assistenciais, vinculadas ao atendimento médico, chegou a ser menor, em torno de 6,5%. Em compensação, as despesas com incremento de leitos e com o tempo de internação aumentaram exponencialmente.”

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