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Saúde na bolsa: em 2022, expectativa é de integração e estabilidade

Empresas de saúde que abriram capital na bolsa buscam expansão por fusões e aquisições. Expectativa em 2022 é de integração e estabilidade.

               
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5 empresas de saúde entraram recentemente na bolsa de valores e estão movimentando o mercado, com foco em fusões e aquisições.

Empresas de saúde ganharam destaque nos últimos anos dentro do mercado de ações e investimentos. Com a abertura recente de capital de cinco grandes companhias de saúde na bolsa (Rede D’Or, Dasa, Kora Saúde, Oncoclínicas e Mater Dei), o setor ganhou visibilidade e pode se tornar cada vez mais atrativo em longo prazo, impulsionado por movimentos de mercado como fusões, aquisições e parcerias, junto ao envelhecimento populacional, o aumento do uso de tecnologia e a mudança de percepção das pessoas em relação à saúde.

Depois de grandes investimentos e movimentos de expansão, a expectativa dos analistas para 2022 é que o mercado de saúde passe por um período de consolidação. Isso não quer dizer que novos negócios não ocorram, mas o foco maior será em investir na construção de uma estrutura que integre e sustente as promessas das empresas.

Estimativas da Santis, empresa que atua no ramo de fusões e aquisições, apontam que, somente em 2021, as companhias de saúde listadas na bolsa de valores movimentaram cerca de 15 bilhões de reais em aquisições. Entre as principais movimentações deste ano está a fusão da Hapvida com a Intermédica, duas das maiores operadoras do país, em uma transação de 115 bilhões de reais, de acordo com o valor das duas empresas na B3.

Mesmo com um boom no crescimento do setor em 2021, os efeitos da pandemia trouxeram grandes desafios. Com a suspensão de cirurgias e procedimentos eletivos no primeiro ano da Covid-19 no país, houve uma redução na demanda, além dos custos com a internação e atendimentos de Covid serem mais caros. Junto a essa situação, houve uma piora econômica do país, com pessoas e empresas buscando por planos de saúde mais baratos.

Panorama da saúde na bolsa

Apesar de toda movimentação e expectativa do setor se tornar cada vez mais rentável, o mercado indica que há uma estabilidade. “As ações de saúde vieram de uma alta muito forte, e tivemos alguns choques externos e eventos mais recentes do setor que acabaram prejudicando as ações dessas empresas. Agora vemos elas um pouco mais de lado, sem perspectiva de desvalorização ou valorização tão clara no curto prazo”, avalia Rafael Barros, analista financeiro e head de saúde e educação na XP Investimentos.

Além das questões relacionadas aos gastos com a pandemia, Barros indica que as recentes fusões e aquisições das empresas levam algum tempo para serem incorporadas e estabilizadas, retornando à rentabilidade que tinham antes das movimentações, além de serem financiadas em sua maioria por dívidas.

“Quando a gente vê o juros nesse nível que ele está, e com uma tendência em permanecer alto por algum tempo, isso pressiona bastante os resultados das empresas em curto prazo. Isso não afeta a capacidade delas em gerar retorno em longo prazo, são outros fatores que têm que ser levado em conta. Essas empresas vão ter o desafio de atravessar esse período mais difícil com uma dívida tão alta”, afirma o analista.

Além das operadoras

“Ao longo dos anos as ações de operadoras – e vou destacar a Intermédica e a Hapvida – foram as grandes estrelas do setor. Mas nos últimos anos tivemos a abertura de capital de outras empresas de saúde, principalmente do lado de hospitais. Tivemos a Rede D’or, a Matter Dei, Dasa que voltou para a bolsa, a Kora Saúde. Então, a verdade é que as operadoras foram as grandes estrelas ao longo dos últimos anos, principalmente no pré-pandemia, mas depois disso muita empresa com bons resultados veio para a Bolsa”, aponta Rafael.

A Rede D’Or, que abriu o capital no final de 2020, figura entre as gigantes brasileiras de todos os setores. Além de ter realizado 10 aquisições pelo Brasil em 2021, o grupo possui junto a outros investidores 12% das ações da operadora SulAmérica. A rede conta cerca de 11 mil leitos, 68 hospitais e 50 clínicas oncológicas.

Outra grande aposta é a Mater Dei, uma das principais redes de hospitais de Minas Gerais, que começa a expandir para outros estados. Apesar de mais modesta, avaliada em 6 bilhões de reais, a empresa já realizou 3 aquisições em 2022. No entanto, o foco para o segundo semestre deve permanecer na integração junto aos 5 hospitais adquiridos no ano passado.

Verticalizados

Há uma grande aposta nos planos e hospitais verticalizados, que possuem rede assistencial própria. Por ter um controle maior dos custos eles conseguem ter uma maior margem, gerando mais receita e caixa para as empresas. No entanto, o head de saúde e educação da XP Investimentos avalia com cautela a movimentação para o segundo semestre de 2022.

“Hapvida e Intermédica eram duas das operadoras mais eficientes em controle de custo e gerenciamento de protocolos médicos para conseguir oferecer um produto que ao mesmo tempo é barato e tem uma margem interessante. Compravam muitas outras operadoras e prestadores de serviços, como laboratórios, hospitais, etc, para fortalecer a estrutura que eles tinham para atender os pacientes dos planos. Esse movimento todo de aceleração das aquisições e da consolidação acabou quando as duas empresas decidiram se fundir”, explica. 

Agora, as companhias devem manter os esforços na integração. Juntas, contam com cerca de 7 milhões de beneficiários de planos de saúde, 14% do mercado brasileiro, de acordo com dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Expectativas para o 2º semestre

“As eleições sempre afetam o mercado de ações, em qualquer setor. Por enquanto, não consigo enxergar nada que nenhum dos principais candidatos estejam dizendo que afetem o mercado de saúde. Deve ter algum efeito e criar uma volatilidade no mercado, mas é difícil dizer qual o efeito objetivo que as eleições vão ter na saúde. Ainda temos que esperar e escutar o que os candidatos têm para dizer”, explica Rafael.

No entanto, o reajuste para os planos de saúde individuais pode impactar as ações das empresas. Estima-se que seja por volta de 15% por conta do aumento dos gastos dos planos em 2021, devido à retomada das cirurgias e procedimentos eletivos. Analistas do BTG Pactual, um dos principais banco de investimentos do país, apontam em relatório que a Hapvida pode ser beneficiada pelo aumento e é a aposta deles, por ter uma grande parcela dos clientes com planos individuais.

Já a entrada de novas empresas de saúde na bolsa talvez demore mais para ocorrer. “Depende muito mais do mercado como um todo se animar e estar mais aberto em investir em renda variável e mercado de ações, do que o setor de saúde ir bem. É claro que ele tem que estar bem, mas com a volatilidade que a gente tem enxergado, é difícil acreditar que vamos ter um boom de IPOs de empresa de saúde no curto prazo. Se tiver alguma coisa é mais pontual, por algumas empresas que têm um apelo maior e que podem despertar um interesse diferente pelo lado dos investidores”, projeta Barros.

Fusões e aquisições

Se no passado o crescimento das empresas estava relacionado à construção de novas unidades e ampliação do serviço de forma gradual, nos últimos anos as fusões e aquisições foram a grande aposta do mercado de saúde. Apesar de sempre ocorrer no setor, houve um avanço a partir de 2017. Somente na área de hospitais, foram 32 aquisições e fusões por todo o Brasil em 2021, de acordo com levantamento do BTG Pactual.

“Normalmente, quando você une companhias, resulta em ganhos de participação de mercado, aumento de barganha com clientes e fornecedores, e diluição de custos fixos”, afirma Luís Fernando Joaquim, sócio-líder da indústria de Life Sciences & Health Care na Deloitte Brasil.

As movimentações dessas empresas foram impulsionadas pela abertura de capital pelas empresas e devem continuar ocorrendo. No país, existem cerca de 6.300 hospitais, sendo pouco mais de 1.800 deles privados. O maior grupo, a Rede D’Or, possui 68 unidades, com 11 mil leitos. Na visão de Joaquim, ainda há muito espaço para compras, além de fundos de investimentos que podem vir a negociar seus ativos.

“Esses dias ouvi uma frase que achei muito interessante. Hoje, no mercado de saúde, ou você vai para o combate ou vai ser esmagado, porque os grandes grupos ainda têm muita força”, alerta.

Fusão dos verticalizados

“A verticalização foi uma ferramenta que trouxe um controle maior, só que não é barato fazer. Hapvida e Intermédica nos últimos anos gastaram mais de 15 bilhões de reais comprando hospitais. Então precisa ter muito capital para fazer esse tipo de movimento. Agora, quando você compra essas estruturas e coloca para dentro do mesmo grupo, tem realmente resultados em controle mais efetivos sobre abusos, fraudes e desperdícios”, explica Joaquim.

Segundo ele, dessa forma há uma tendência de haver também um cuidado mais integral com os pacientes, já que todo o atendimento é feito pela mesma empresa, além de garantir um preço final mais baixo que os planos de saúde não-verticalizados. No entanto, é preciso fiscalizar se não há restrição do acesso e atendimento aos pacientes com foco na redução da sinistralidade.

Para aqueles não-verticalizados, uma das alternativas que vêm sendo buscadas é a criação de joint ventures. Empresas de diferentes segmentos se unem para formar uma nova companhia, como foi o caso do Grupo Fleury, BP – A Beneficência Portuguesa e o Grupo Bradesco Seguros, que anunciaram a intenção de criar juntas uma empresa de serviços de oncologia.

“O desafio das fusões e aquisições, mais que ser guiado pelos negócios, é garantir boa saúde e levar à população aquilo que ela deseja, que é ter um acesso melhor a um médico e a um hospital”, conclui Joaquim.

Concorrência

Na visão de Wilson Rezende Silva, mestre em administração de empresas e pesquisador associado do FGVsaúde, as fusões, aquisições e formação de conglomerados permitem que haja um maior alcance dos hospitais e operadores de saúde pelo país. ”Em cidades onde havia uma única empresa dominante, esse processo de investimento e expansão levou a competição para onde não tinha. Em tese, o processo de concentração é natural, típico de uma economia de mercado”, explica.

O pesquisador analisa que por mais que se defenda que a saúde é um setor à parte, que não deve ser comparado com outros da economia, o processo de fusões e aquisições segue a mesma tendência do que ocorreu no ensino superior privado. Uma pesquisa de 2016 do Observatório do Ensino do Direito da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostrou que 27,8% das matrículas em faculdades, públicas e particulares, se concentravam em apenas 8 grupos. À época, 6 deles tinham capital aberto.

“É preciso se observar que o país, os órgãos econômicos, os ministérios e as agências precisam manter o processo de competição o mais amplo e transparente possível. Essa é a forma que a gente imagina que em qualquer circunstância o consumidor não está sendo prejudicado. Mas estamos ainda longe disso. Ainda tem muitas possibilidades”, defende.

Benefício ao paciente

Ter capital aberto ou um fundo de investimentos não é garantia que haja benefício direto ao paciente. Entretanto, aumenta a possibilidade de uma empresa de saúde ter mais renda para ampliar a estrutura física, o corpo clínico e investir em novas tecnologias.

“Os dirigentes dessas empresas dizem: ‘se a gente não melhorar a qualidade e manter o cliente satisfeito, nós perdemos’. Então temos que ter melhor qualidade do que tínhamos antes. Hoje se veio um fundo [de investimentos], comprou o controle acionário e injetou dinheiro, ela precisa ter mais qualidade que no passado”, explica Rezende.

Aliado a isso, a preocupação com a margem de lucro também favorece uma expansão dos serviços, buscando uma redução da sinistralidade, junto aos processos de fusões e aquisições, que podem escalonar o atendimento. “O custo da saúde aumenta 3 vezes mais que a média da inflação. Isso vem se dando a décadas, não é de hoje. É uma questão fundamental. Daí, as empresas procuram estratégias que deem condição de controlar melhor o custo”, conclui o pesquisador.

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