Saúde mental dos trabalhadores é desafio para empresas e ganha reforço de lei

Saúde mental dos trabalhadores é desafio para empresas e ganha reforço de lei

Nova lei que institui Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental é ferramenta para estimular atenção com o tema

By Published On: 28/03/2024
Saúde mental dos trabalhadores é desafio para empresas brasileiras e pauta importante para os profissionais

Foto: Pixabay

A saúde mental dos trabalhadores brasileiros é tema que frequentemente ganha os holofotes e tem feito as empresas repensarem suas estratégias. O tema, inclusive, ganhou novo capítulo após a sanção em 27 de março pelo presidente Lula da lei 14.831, que institui o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental. O projeto visa a contribuir para os esforços do país na promoção da saúde mental ao valorizar e reconhecer as empresas que executam ações na área.

Para a deputada Maria Arraes (Solidariedade-PE), autora do projeto de lei que foi sancionado, a lei representa um novo e potente instrumento para romper o silêncio e quebrar o estigma em torno do sofrimento psíquico no local de trabalho: “Todas as trabalhadoras e trabalhadores têm direito a exercer suas funções em um ambiente saudável e inclusivo. Ao investir em saúde mental, as empresas também ganham, pois registram menos afastamentos por esgotamento profissional e têm maior produtividade. A aprovação da lei é mais um passo para na construção de um futuro em que a saúde mental seja uma prioridade em todas as esferas da nossa sociedade”.

Dados do Ministério da Previdência Social (MPS) divulgados em janeiro, mostraram que mais de 2,5 milhões de brasileiros foram afastados do trabalho por razões de saúde. A hérnia de disco liderou a lista com 51,4 mil casos, seguida pela dor na lombar, com 46,9 mil. Embora os distúrbios osteomusculares estejam entre as principais causas, o crescimento de problemas de saúde mental também chamam a atenção como motivo de afastamento.

Em 2023 o afastamento do trabalho por saúde mental cresceu 38% comparado ao anterior – foram 288.865 benefícios por incapacidade relacionados a transtornos mentais. Mas em um janela de 15 anos, quando comparado a 2008, que registrou 83 mil afastamentos por problemas de saúde mental, o número de trabalhadores afetados por ansiedade, depressão e outros transtornos metais mais que triplicou.

Ítalo Martins, membro do Conselho Estratégico da ABRH Brasil, lembra que em termos de dinâmica epidemiológica, o comportamento das doenças foi alterado ao longo do tempo. Segundo ele, existe uma transformação na saúde corporativa como um todo. O próprio trabalho mudou e o perfil do trabalhador também. Além disso, ficou mais evidente como as doenças ocupacionais vão além de acidentes de trabalho e danos físicos. Porém, faz uma ressalva: “Não ter detectado as questões de saúde mental em anos anteriores não quer dizer que não o problema não existia. Mas quando você presta mais atenção, vai diagnosticar mais”.

De acordo com Rosylane Rocha, diretora científica da Associação Nacional de Medicina do Trabalho – ANAMT, há cerca de cinco anos a Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou que a depressão seria em 2020 a doença mais incapacitante. Já em 2022, dados da OMS indicaram que cerca de 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos ao ano por conta de depressão e ansiedade, com quase um trilhão de dólares de prejuízo na economia mundial. “Mas já observávamos antes dessa informação da OMS um aumento significativo nos afastamentos laborais em decorrência de transtornos mentais, com destaque para depressão”, revela.

Além disso, segundo ela, o estilo de vida das pessoas tem contribuído para o afastamento: “Trabalhadores cuja carga de trabalho é excessiva e que somam o histórico ocupacional ao sedentarismo e hábitos não saudáveis de alimentação apresentam maior probabilidade de adoecimento com afastamento do trabalho”.

Ações ativas de saúde ocupacional

Estas transformações têm trazido muitas reflexões em torno da saúde no trabalho e feito com que empresas busquem cuidar mais ativamente da saúde do colaborador. José Miranda, especialista em saúde ocupacional do Serviço Social da Indústria (SESI-SP), afirma que a instituição tem buscado soluções que possuam escalabilidade e capilaridade no estado: “A principal preocupação é desenvolver estratégias eficientes que promovam a saúde física e mental nas empresas, através de serviços baseados em dados que nos permitam entender com precisão as necessidades individuais dos trabalhadores”, diz.

Nessa construção, Miranda ressalta que a implementação de novas tecnologias, como a telessaúde, se mostra essencial no acesso do trabalhador a atendimentos de qualidade, independentemente de sua localização geográfica. Ele lembra também que a ‘vida fora da empresa’ é um fator fundamental na promoção do bem-estar físico e mental do trabalhador. “Possuímos mais de 50 Centros de Atividades (CATs) pelo estado, onde temos estruturas de academia, dança, ginástica, pilates, piscina, playground e áreas livres, com o objetivo de atender o trabalhador e sua família”, comenta. “Pretendemos ampliar esses serviços a partir da maior sensibilização dos gestores e tomadores de decisão da indústria, com a disponibilização de indicadores que possibilitem aumentar a percepção de valor do investimento em saúde e bem-estar”.

Ações como essas se justificam porque, como indica Martins, os diagnósticos de transtornos mentais ainda vão continuar a subir nos próximos anos. Daí a importância de ter critérios bem estabelecidos: “Uma coisa é ser estressado e outra estar doente.”

Em dezembro de 2023, o Ministério da Saúde atualizou a lista de doenças relacionadas ao trabalho que justificam o afastamento do trabalhador de suas atividades. Depressão, burnout e exaustão entraram na nova lista, que passou de 182 para 347 condições. De acordo com a publicação da OMS estima-se que ao menos 10% da população mundial é afetada de algum tipo de transtorno mental. Em 2010, o custo global desses transtornos foi estimado em US$ 2,5 trilhões e, até 2030, pode chegar a US$ 6 trilhões.

Para os afastamentos por transtornos mentais, diversos motivos contribuem para isso: cobrança excessiva por produtividade, falta de boas condições, situações de extrema pressão, desvalorização pessoal e problemas individuais. Além disso, o próprio contexto da pandemia (como isolamento na crise sanitária, desemprego, sobrecarga no trabalho e assédio moral) colaborou para que os transtornos mentais aumentassem.

Saúde mental dos trabalhadores no radar

Especificamente no ambiente profissional, o relatório People at Work 2023: A Global Workforce View, do ADP Research Institute, 67% dos trabalhadores no Brasil dizem que seu trabalho é influenciado pelo estresse e 31% pela saúde mental.

Este é só mais um dado que ilustra o porquê de empresas estarem buscando garantir a saúde e o bem-estar dos funcionários, bem como a produtividade e o sucesso organizacional. A implementação de planos de saúde e benefícios para empregados ainda é uma estratégia essencial, mas é preciso entender o papel da empresa nesta tarefa. Ítalo Martins, da ABRH Brasil, lembra: “Para dar mais saúde não basta só oferecer benefícios. É necessário entender como tudo se conversa dentro da empresa. Por isso, para uma saúde corporativa, é importante uma política bem clara e que não necessariamente precisa ser cara.”

Outro estudo, da Gympass, revelou que os investimentos no bem-estar de colaboradores brasileiros melhoram resultados das organizações. De acordo com a pesquisa, 97% das empresas no Brasil que mediram o Retorno sobre Investimento (ROI) encontraram um retorno positivo nos programas de bem-estar.

Um exemplo de benefício corporativo é o Zenklub, criado em 2016 pelo médico Rui Brandão e o seu sócio José Simões. A plataforma de orientação psicológica online é especialista em soluções para saúde emocional e bem-estar corporativo de brasileiros e se tornou referência mundial em terapia online. O Zenklub possui uma expertise de mais de 7 anos em saúde emocional corporativa e anuncia a expansão do negócio. O sistema já atende mais de 500 empresas, como Volkswagen, Azul e RaiaDrogasil, realizando mais de 1 milhão de consultas por ano. Atualmente, a Zenklub atende três operadoras de saúde, totalizando 300 mil vidas. A expectativa da companhia é que este número multiplique por 10 vezes nos próximos cinco anos.

Brandão, que é o CEO da empresa, acredita que hoje as empresas estão priorizando cada vez mais o tema da saúde mental e os dados mostram isso. No estudo Global Learner Survey, pesquisa desenvolvida pela Pearson – maior empresa de educação do mundo -, 71% dos entrevistados no Brasil acreditam que as organizações deveriam oferecer serviços gratuitos de saúde mental aos empregados. Segundo ele, o nível de maturidade mudou porque virou uma dor muito grande de empresas: “O tema de saúde mental hoje é uma pauta no mercado de trabalho. Mas ainda é preciso quebrar certos preconceitos e isso demora.”

Uma pesquisa realizada pelo Zenklub, com aproximadamente 3,1 mil funcionários, apontou que, em média, a cada 4/5 sessões de terapia realizada, a continuidade do colaborador na empresa aumenta em um mês e profissionais que fazem terapia tendem a permanecer pelo menos 30% a mais de tempo nas empresas.

E há espaço para avançar mais. “Há um caminho a percorrer. O fato de os planos de saúde oferecerem tratamentos alternativos ajudou. É importante também unir forças catalisadoras em ações com o governo, INSS, parcerias com operadoras”, diz.

Angélica Weise

Jornalista formada pela UNISC e com Mestrado em Tecnologias Educacionais em Rede pela UFSM. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou nos portais Lunetas, Drauzio Varella e Aupa.

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Jornalista formada pela UNISC e com Mestrado em Tecnologias Educacionais em Rede pela UFSM. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou nos portais Lunetas, Drauzio Varella e Aupa.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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