“Saúde mental ainda é tabu”, afirma Maria Fernanda Quartiero, presidente do Instituto Cactus, nova organização voltada para o tema

Organização tem o objetivo de ampliar a informação e cuidados com a saúde mental baseado em dados. Instituto já possui estudos e projetos pilotos em andamento

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Já faz algum tempo que a discussão sobre saúde mental deixou de ser restrita aos consultórios dos psicólogos e psiquiatras. As limitações, os desafios e as repercussões relacionadas ao tema passaram a ser mais debatidas na imprensa, no contexto familiar e até no mundo corporativo. Tudo isso, aliás, foi amplificado ao longo do ano passado. A pandemia provocou perdas, forçou o isolamento, fechou escolas, causou desemprego e tornou a saúde mental um tópico essencial e urgente, impossível de ser ignorado. Nesse cenário, surge o Instituto Cactus, uma organização filantrópica cujo objetivo é ampliar o acesso à informação e os cuidados com a saúde mental. O novo instituto, presidido e fundado por Maria Fernanda Resende Quartiero, pretende ir além do assistencialismo: ações de real impacto, decisões baseadas em dados e dar voz ao público-alvo – adolescentes e mulheres – estão entre os principais pilares de atuação.

Maria Fernanda é a entrevistada do mês em Futuro da Saúde. Durante a conversa ela explicou a história do instituto, os principais desafios, a razão pela escolha do tema, os próximos passos e avalia o cenário da filantropia no Brasil, outra área, assim como saúde mental, cercada de tabu: “A filantropia tem um papel de trazer novos atores, sair também do lugar comum do investimento”. Confira os principais trechos:

Como surgiu a ideia de formar um instituto voltado para a saúde mental?

Sempre tive muito forte no meu meio familiar essa cultura de devolver algo para a sociedade e em 2019 tive uma virada de chave, quando ressignifiquei o conceito de filantropia e investimento social com impacto. Sempre chegava em casa e pensava “tantos setores recebendo investimento social, mas no final do dia a gente está sempre falando sobre pessoas, né?”. Queremos elevar os índices de aprendizado escolar, diminuir a violência, aumentar a taxa emprego, escalar o acesso à saúde, melhorar a diversidade e são tantos números e projeções que a gente acaba por esquecer que o protagonista dessa história é o indivíduo. Ele é o único que pode nos dar respostas e trazer as evidências necessárias para poder melhorar. Comecei a acreditar que as pessoas precisam estar munidas com ferramentas socioemocionais que as tornem capazes de tomar melhores decisões na vida. Nesse contexto, não tinha como não pensar em saúde mental e dai fazer um instituto voltado para esse tema.

“Desde 2001 quase 80% do investimento social vai para educação e desses 20% que sobram, saúde é o décimo tema que recebe investimento social. Se tirar os hospitais filantrópicos, diminui ainda mais essa fatia.”

Você disse logo no início essa questão de filantropia, mas com impacto social. Como explicar essa diferença para quem não entende desse assunto?

Quando você consegue de fato exercer uma transformação na sociedade, você começa a gerar dados e indicadores que realmente na ponta vai dar diferença. A filantropia por si só hoje no Brasil tem uma visão muito de assistencialismo, então essa forma de trabalhar, esse olhar de impacto mesmo na ponta ainda é muito novidade por aqui. Temos uma cultura de apagar incêndios e não de se preocupar em fazer uma transformação em toda a cadeia, daquilo que você espera como uma mudança, seja na educação, seja na saúde.

Em 2019, quando surgiu a ideia do instituto, já se falava sobre saúde mental, mas não tanto quanto agora, depois da pandemia…Por que essa área?

Preciso dizer também que sou mãe, mulher, tenho três filhos. Saúde mental sempre permeou a minha vida e permeia a vida de todo mundo, mas a gente nunca tem um momento para pensar em saúde mental ao longo do dia, da nossa rotina. Eu convivendo com os adolescentes, com questões escolares, com pessoas próximas a mim tendo questões em saúde mental, não podia deixar de levar isso tudo em consideração na minha tomada de decisão. E claro que o contexto da pandemia só reforçou a importância e urgência de tudo isso.

Você deu alguns dados sobre investimento social e disse que saúde em geral fica para trás, então imagino que saúde mental, menos ainda.

Saúde mental menos ainda. Infelizmente, é um tabu. E isso impacta em várias frentes. Por exemplo, quando recebemos notícias de que o governo quer fechar alguns postos de atendimento de CAPS, que têm atuação direta em saúde mental. Ou seja, estamos correndo risco de ter uma diminuição desses investimentos no setor.

E como é criar um instituto do zero?

A primeira coisa foi buscar dados para embasar essa tomada de decisão. Encomendei um estudo do Instituto Veredas que resultou em um trabalho grande que vamos lançar em breve, o Caminhos em Saúde Mental. Porque a literatura que estudamos era desatualizada ou restrita à academia. Tínhamos que saber da história da saúde mental, o que a sociologia, epidemiologia e antropologia falam, o que a escola fala sobre isso e como um pai e uma mãe veem saúde mental. Permear todas as visões. Não só uma coisa pronta vinda da Organização Mundial da Saúde, mas falar com todo um ecossistema para trazer dados sobre isso. Isso foi o mote principal desse estudo junto com o Veredas e que abriu portas não só para minha tomada de decisão, mas está trazendo munição para todas as pessoas e organizações que queiram trabalhar ou já trabalham com saúde mental.

O que você pode adiantar desse estudo?

São dados brasileiros, entendendo que somos um país muito peculiar de diversas culturas dentro de um único país. Não adianta só trazer projetos e iniciativas que deram certo fora daqui sendo que a gente está lidando com o Brasil, com as nossas questões inerentes de um sistema brasileiro, tanto de cuidado como de implementação de ideias.

“Temos uma dificuldade muito grande em trazer evidências para poder sugerir políticas públicas. Vamos trazer esse olhar para dentro do instituto.”

O instituto vai focar mais em adolescentes e mulheres. Por que a escolha específica desse público?

50% das condições em saúde mental no indivíduo começam até os 14 anos de idade. Hoje, no Brasil, há muita gente trabalhando a primeira infância e o jovem adulto, mas essa parcela da população que são os jovens, principalmente na faixa etária entre 10 e 14 anos, é muito negligenciada, então queremos dar voz para esse público. E há também as mulheres, que são um vetor superimportante da sociedade e têm duas vezes mais depressão do que homens, por exemplo. Uma em cada cinco mulheres apresentam transtorno mental comum ao passo de que uma em cada duas mulheres são aquelas que têm alta sobrecarga doméstica. São chefes de família, professoras dos nossos jovens, profissionais à frente na atenção básica de saúde, da saúde da família. Não tem como não levar esses públicos em consideração.

Faltam estudos específicos para os adolescentes, vocês conseguiram constatar isso no instituto?

Falta sim. Esses dados também ainda ficam muito restritos. Temos que começar a dar luz ao que o Estatuto da Criança e do Adolescente, por exemplo, deseja para o adolescente e entender que ele tem uma atuação muito importante. A gente tem visto durante a pandemia que os adolescentes têm sofrido com o isolamento, que há evasão escolar também. Temos que tomar cuidado, pois esses adolescentes não vão voltar para escola, então precisamos pensar mais sobre eles e qual o futuro da população.

Qual o impacto da pandemia no instituto?

A pandemia trouxe luz para o tema, então é como se tivéssemos ganhado um trabalho de advocacy orgânico: todo mundo começou a falar mais sobre o assunto e, ao mesmo tempo, tivemos um poder de resposta muito rápido, de entender como está funcionando esse sistema de saúde no Brasil e identificar carências. Pudemos trazer esse aprendizado para dentro do Instituto Cactus e ele reforçou ainda mais a escolha do nosso público-alvo, que são mulheres e adolescentes, públicos especialmente afetados nesse momento de pandemia. O afastamento social como um problema de saúde mental se torna ainda mais complexo. O aumento da violência doméstica é algo que impacta diretamente as mulheres e os adolescentes, pois agressor e agredido passaram a conviver dentro do mesmo ambiente. Todos esses dados vieram mais à tona em função da pandemia.

Como as ações do Cactus vão garantir um efeito prático na saúde mental?

Bom, a primeira coisa é medir de forma clara e objetiva tudo o que a gente faz. Vamos fazer projetos pilotos pequenos, que nos permitam aprender com erros e acertos e escalar, de forma sustentável, modelos que tenham mais chances de sucesso. Outro ponto importante é incorporar diferentes visões e experiências no processo de criação dos projetos, ouvir as comunidades, os jovens, os atores com a atuação na causa, nos colocando em uma posição de aprendizado e empatia. E mobilizar, apontar caminhos de ação, trazer a corresponsabilidade, identificar temas e agir sobre eles lado a lado com as comunidades, com o governo e com a população. Sempre trabalhando com evidências nas nossas tomadas de decisão, passando por um processo de entender o porquê e como queremos fazer os nossos projetos.

“Já temos um projeto piloto com uma prefeitura, que poderá servir de insumo para pesquisas científicas e gerar produtos diferentes para a gestão pública.”

Você pode dar mais detalhes desse projeto piloto?

Esse projeto piloto está sendo feito em parceria com a Impulse e busca definir os principais indicadores de serviços de saúde mental públicos em Aracaju. A partir dos indicadores, será possível aprimorar o sistema de atenção psicossocial do SUS. São dois meses de levantamento de dados e diagnóstico e, depois, se acharmos cabível e sustentável, passaremos para a segunda fase do projeto que seria a implementação das mudanças, que poderiam ser replicadas para o resto do país.

Uma coisa que você falou que me chamou atenção foi a questão de ouvir as pessoas, não só criar as ações, mas também ter essa participação. Esse contato mais próximo com o público-alvo do Cactus vai existir?

Sim. Estamos em um momento de pandemia, sem conseguir interagir presencialmente com todos esses públicos, mas a ideia é criar um comitê jovem dentro do instituto com diversas vozes que representem esse universo e que possam, junto com a gente, criar e trazer olhares diferentes de como podemos formatar projetos. Vamos dar voz, protagonismo para eles.

Quais os próximos passos de médio e longo prazos para o instituto?

Formar um ambiente onde outros atores pensem na importância da saúde mental. Fazer com que a educação, os empresários, o setor privado desenvolvam esse olhar para a saúde mental. Criar esse ecossistema e tirar um pouco a questão do estigma sobre saúde mental. Levar essa informação de forma cada vez clara e informativa para toda a população – leigos e não leigos – sobre a saúde mental.

Qual a sua visão sobre a profissionalização da filantropia?

No Brasil ainda existe uma desconfiança muito grande sobre a idoneidade das organizações sem fins lucrativos. As pessoas não têm muita informação de como isso acontece e faz parte desse processo informarmos melhor o que essas organizações fazem. É importante sempre conseguir medir o impacto e comunicar de forma clara. Um dos nossos pilares é justamente a comunicação, porque precisamos saber transmitir o que fazemos, o que é a causa, porque todos nós deveríamos olhar para ela com tantos cuidados. A profissionalização vai ajudar em todos os sentidos.

Quando você fala sobre esse preconceito, essa desinformação em relação à filantropia no Brasil, você acha que falta informação da população em geral e do lado de quem poderia doar mais, como as empresas?

Sim, é uma responsabilidade de todos. Tanto de quem faz doações, de correr atrás desses indicadores mais claros, do que está acontecendo com o seu dinheiro doado, quanto da outra ponta, de quem recebe, de melhorar a cultura de prestar contas, de mostrar o que está sendo feito. Hoje o dinheiro da filantropia, por exemplo, está sempre girando ao redor dos mesmos, não existe um esforço em querer fomentar novas iniciativas, existe um medo muito grande. O dinheiro é injetado naquilo que você já conhece e aí um dá para o outro, o outro dá para esse um e esse investimento está sempre rodando naquela esfera.

“A filantropia tem um papel de trazer novos atores, sair também do lugar comum do investimento.”

Na pandemia vimos muitas empresas se unindo e fazendo doações, criando iniciativas, e isso começou a ser mais reconhecido pela sociedade também. O que você acha dessas iniciativas? Isso pode fazer mais parte da nossa cultura?

Setores que antes não se conversavam, se uniram em prol de um bem comum e que isso sirva de exemplo. Poder dividir o conhecimento, cada um no seu setor, por um bem comum para a sociedade, foi o maior aprendizado de todos. Isso tende a ficar, sim. E a gente está recebendo uma geração de novos investidores, um novo olhar geracional que cuida um pouco mais do coletivo e do todo.

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