Cuidados de saúde das vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul: com o quê se preocupar?

Cuidados de saúde das vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul: com o quê se preocupar?

Doenças transmissíveis e cuidados com a saúde mental estão entre principais preocupações com as vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul

By Published On: 08/05/2024
Enchentes no Rio Grande do Sul trazem preocupação para os cuidados com a saúde das vítimas

Foto: Flickr/Governo do Rio Grande do Sul

As enchentes no Rio Grande do Sul já impactaram mais de 400 munícipios e deixaram mais de 163 mil pessoas desalojadas, segundo a Defesa Civil do Estado. Além de todo o cenário devastador, há preocupações quanto à saúde das vítimas, que envolvem o contágio por doenças transmissíveis pela água e o cuidado emocional.

A leptospirose é uma das principais doenças para ficar alerta. “Quando temos contato com água contaminada, especialmente quando a pele está ferida ou pela ingestão de água, tudo isso pode facilitar a transmissão. Sem dúvida é uma doença grave em que alguns casos podem ter consequências muito graves. Existem casos mais leves, assintomáticos, mas é uma doença que requer uma atenção médica”, comenta o infectologista Diego Rodrigues Falci, professor de Medicina da PUC-RS e membro da Diretoria da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

A sociedade emitiu uma nota técnica em 5 de maio trazendo mais informações sobre a doença e reforçando as instruções para os cuidados de quem a contrair. Fontes do setor sinalizam que um grupo de infectologistas ligados à SBI também está elaborando um manual prático sobre demais doenças relacionadas às enchentes com objetivo de ajudar os que estão no atendimento na ponta – este material deve ser finalizado e divulgado na próxima semana.

Outra doença preocupante nesse cenário é a Hepatite A, que pode ser pega pelas vítimas por meio de água ou alimentos contaminados, gerando uma infecção que afeta o fígado e pode se tornar muito grave. Além dela, outras doenças diarreicas, como infecções gastrointestinais, tendem a aumentar pela situação sem higiene adequada e infecções de pele, devido aos ferimentos nas enchentes.

Transmissões facilitados por ambientes de aglomeração

“A gente não pode esquecer de outro grande desafio: as doenças que podem ter a sua transmissão facilitada dentro dos abrigos, porque essas pessoas estão desalojadas, abrigadas em ginásios, salões, onde há uma estrutura mínima para acolher essas pessoas. Entretanto, ficam confinadas com grande contingência de pessoas, então tem transmissão facilitada de outras doenças”, cita o infectologista.

Como exemplo, ele menciona doenças respiratórias agudas, como Covid-19, influenza e até mesmo outras doenças causadas por parasitas, como escabiose ou pediculose. “Elas [as vítimas] estão com condições de higiene mais precárias, confinadas em espaços menores, e isso realmente facilita a transmissão de todos esses agentes. Infelizmente, esperamos um aumento [de notificações] nessas próximas semanas e precisamos nos preocupar com isso.” 

Dentro dos abrigos, além da preocupação pelas doenças de contágio pela água, há ainda uma atenção pelo público e suas necessidades de cuidados de saúde. Os idosos, por exemplo, são uma população que sofrem mais com doenças degenerativas e precisam de um cuidado diferenciado.

Falci ressalta essa diferenciação dos problemas de saúde de cada faixa etária: “Os idosos têm uma disrupção do seu cuidado, porque o remédio pode estar faltando, ele perde a continuidade do cuidado da sua hipertensão ou diabetes, por exemplo. O adulto, por outro lado, está mais exposto, é quem pode pegar uma leptospirose porque ficou socorrendo os outros da família”.

Para contornar a situação, algumas atitudes são necessárias. O isolamento por pessoas acometidas com doenças respiratórias é fundamental, assim como organizar aquelas que estão transmitindo outras doenças, fazer triagem e atendimento dessas vítimas. O médico também atenta para os cuidados básicos que podem evitar doenças, tanto dos desalojados quanto daqueles que não foram atingidos, como a higiene das mãos e cuidado com os alimentos, com toda a atenção para não consumir nada que esteja contaminado.

Cuidado mental das vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul

Além do acometimento por doenças vindas pela água, as vítimas podem sofrer de outras circunstâncias além das físicas. “O desastre é o resultado de um evento adverso, que ocorre num lugar e sua magnitude vai ser definida com a intensidade do evento, mas também pela vulnerabilidade da população atingida. É importante considerar isso para entender o quão grave serão os danos à saúde dessa população e entender que essas vítimas também são pessoas”, comenta Fernanda Buonfiglio, diretora técnica de clínica médica na Vibe Saúde, que atua há 15 anos com Medicina de Família e Comunidade. 

Para ela, é preciso evidenciar todas as vítimas de uma tragédia, as diretas e as indiretas, como as pessoas no trabalho de brigadistas ou voluntários. Todos esses grupos serão impactados com o sofrimento da situação, ainda que cada um à sua maneira.  

“Pensando em faixas etárias, temos a criança, a infância que foi atingida, o adulto e o idoso. Após serem salvas, essas pessoas passam a ser observadores. A criança no abrigo observa tudo aquilo, o idoso é a mesma coisa. Esse papel de observação pode ser muito prejudicial e a chance de desenvolver uma doença mental, não só o estresse pós-traumático ou uma reação aguda, é muito grande”, alerta.

Os adultos, segundo ela, apresentam um comportamento diferente. Por serem a faixa etária mais ativa em uma tragédia, tendem a demorar para apresentar indícios de uma piora na saúde mental. Por isso, a escuta ativa desses grupos é importante, assim como monitoramento das vítimas ao longo dos anos. A diretora ressalta que não necessariamente precisa ser um profissional da saúde para escutar a vítima. Compartilhar histórias entre os desalojados e se reunir como grupo também contribui como uma atividade de distração.   

“Fazer esse suporte emocional imediato, trazer esse espaço seguro de acolhimento, são coisas que acabam fortalecendo muito. O acompanhamento no pós terá que ser realmente feito continuamente. São muitos anos para acompanhar e identificar doenças que teriam sido causadas agora”. As consultas em psicoterapias, psiquiatras e médicos da família também são ferramentas importantes para cuidar da saúde mental e ajudar na reintegração social.

Já para as crianças a saída é tratar a situação de forma mais lúdica. Permitir que elas tenham atividades e brinquem é uma forma de ajudar, assim como contar sobre o que houve para ajudá-las a entender mais sobre o ocorrido.  

Saúde mental em eventos extremos

Dentre as condições que usualmente acometem mais as vítimas de uma tragédia está o estresse pós-traumático. Ele pode se apresentar por sintomas físicos após o acontecimento, como taquicardia, quando o coração dispara de repente, falta de ar, angústia, falta de apetite, pesadelos ou medo em situações adversas.

O luto também é um processo pelo qual as vítimas podem passar após a perda de entes queridos. É esperado que ocasione sofrimento ao individuo, mas é sinal de alerta quando ele para de ser funcional e de fazer suas atividades corriqueiras. Apesar de cada um lidar de uma forma com o luto, é preciso ajudar essas pessoas estando próximas a ela, estando presente em momentos mais difíceis e visitando regulamente, aponta Buonfiglio.

O retorno para a vida normal demora, mas acontece eventualmente. “Vai depender muito do grau de vulnerabilidade social dessa comunidade: quanto mais vulnerável, menos resiliente. Depois de um desastre, essas famílias buscam novas comunidades, geralmente serão inseridas numa comunidade que não sofreu como ela. E precisarão de muita ajuda, principalmente de estabelecimentos como as Unidades Básicas de Saúde (UBSs), centros religiosos e escola para a rotina das crianças, por exemplo”, conclui.

Isabella Marin Silva
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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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