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O cérebro de biquíni: ciência passa a olhar para a saúde das mulheres

Em seu mais recente artigo, Renato Anghinah aborda um novo momento da medicina, que passa a olhar com mais atenção para a saúde da mulher

               
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Saúde das mulheres - Renato Anghinah

Todos sabemos que o que determina o sexo biológico dos seres humanos são os cromossomos X e Y. Os homens são XY e as mulheres XX. O que nem todos sabem é que cada X tem 1098 genes e o Y 78. Isto mesmo, 78! Seria muito simplista, após fazermos uma conta rápida, dizermos que estes cerca de 1000 genes a mais presentes no sexo feminino irão determinar uma expressão gênica na sua totalidade. Ou seja, que 1000 genes significariam organismos totalmente diferentes em todas as questões biológicas e médicas – que iriam muito além das áreas cobertas pelos biquínis e que recebem, com louvor, a atenção dos ginecologistas, dentre outras especialidades, em relação à prevenção e tratamento dos problemas mamários e reprodutivos, útero e ovários e as suas relações com os hormônios femininos tanto na abundância, a partir da puberdade, até sua ausência pós-climatério.

Por este motivo que nas mulheres uma das cópias do X é inativada, para não haver uma superprodução de proteínas e efeitos deletérios motivados por este excesso. Mas a ciência sabe hoje que cerca de 15% dos genes da cópia supostamente inativada do segundo X feminino não são inativados e, em uma parte da população, outros 10% sofrem inativações variáveis. Portanto, as mulheres podem ter de 15% a 25% de carga genética ativa a mais que os homens.

Certo, e por que estou falando sobre um tema tão complexo? Porque muitas doenças neuropsiquiátricas acometem mais as mulheres que os homens, ou se expressam de maneira diferente.

Não é novidade que as variações hormonais modulam o humor de muitas mulheres durante o ciclo menstrual, bem como no climatério (menopausa). As mulheres sofrem mais de enxaqueca do que os homens, têm dois picos inaugurais para esquizofrenia, enquanto os homens apenas um, sem dizer que a doença de Alzheimer acomete duas vezes mais mulheres do que homens. Nem tudo são más notícias: as mulheres, entre outras coisas, são mais protegidas para infartos e isquemias cerebrais, antes da menopausa, do que os homens, por exemplo.

Onde quero chegar? Os sexos têm diferenças orgânicas que vão além daquelas que envolvem as diferenças morfológicas e reprodutivas.

A medicina começa a enxergar que as mulheres têm direito a um olhar próprio para os seus organismos, com a atenção da área da saúde para doses específicas de medicamentos, hábitos alimentares e preventivos direcionados ao corpo feminino como um todo!

O foco é alertar a comunidade médica e a sociedade como um todo que, na esteira das conquistas femininas que ocorreram principalmente durante o último século, inaugura-se uma nova etapa. O direito à saúde e a pesquisas focadas no organismo da mulher!

Este tema está surgindo com força nos últimos anos e não podemos perder o trem desta história. Um bom exemplo disto é o livro escrito pela neurologista Lisa Mosconi, “The XX Brain”, que ainda não ganhou uma tradução para o português mas, para quem puder ter acesso, é leitura obrigatória sobre o tema.

Enfim, façamos parte deste movimento! É momento de celebrar e ratificar mais esta conquista da porção XX da humanidade.

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