Saúde corporativa: empresas contratam hospitais diretamente para reduzir custos com planos de saúde

Saúde corporativa: empresas contratam hospitais diretamente para reduzir custos com planos de saúde

Os planos de saúde como benefício para funcionários são o […]

By Published On: 14/09/2022
Grandes empresas procuram serviços de saúde corporativa em hospitais referência para controlar a sinistralidade dos planos de saúde.

Os planos de saúde como benefício para funcionários são o segundo maior gasto das empresas brasileiras com os trabalhadores, atrás apenas dos salários, de acordo com a Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH). Esse custo com saúde corporativa tende a aumentar ano a ano pelos reajustes, que levam em conta a utilização do benefício pelos usuários: quanto maior o uso, maior será o reajuste para as empresas contratantes.

Para diminuir a sinistralidade, empresas de todo o Brasil têm buscado um movimento diferente, contratando diretamente hospitais que oferecem essa possibilidade de serviço. Dessa forma, a unidade de saúde cria um ambulatório de atenção primária ou oferece um serviço de telessaúde às companhias, para ser a porta de entrada dos funcionários no sistema.

Ao atuar na coordenação do cuidado, no atendimento básico e na orientação aos trabalhadores, esses serviços conseguem reduzir os custos das empresas com as operadoras e, consequentemente, diminuir o reajuste anual do benefício.

Eles funcionam não só como atendimento primário, mas também atuam na prevenção e promoção da saúde aos colaboradores, com efeitos diretos na redução do absenteísmo e adesão a tratamentos para doenças crônicas. É uma lógica que faz sentido: dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estimam que a cada 1 dólar investido em prevenção, 4 dólares seriam economizados com gastos em serviços de saúde.

A esses fatores somam-se ainda os impactos da pandemia de Covid-19 na saúde da população, com possíveis sequelas após a infecção, assim como a alta do dólar, a inflação e outras questões econômicas, que levam gestores a avaliar os custos e o bem-estar das suas equipes para entender como o próximo reajuste dos planos de saúde mexerá nas contas. É neste cenário que a adesão dos serviços de saúde corporativa se encaixa.

“O modelo de serviço de saúde corporativa é uma alternativa para as empresas conquistarem maior previsibilidade de custos e acompanhamento de seus colaboradores. Parte da solução observada pelo mercado é a migração de planos de saúde com rede de atendimento ‘sem fim’ para a cobertura concentrada em serviços oferecidos por hospitais referência”, explica Danilo Dias, diretor consultivo da ABRH-SP.

Saúde corporativa e planos de saúde caminham juntos

O plano de saúde é um dos benefícios mais desejados pelos trabalhadores brasileiros. De acordo com pesquisa da fintech Onze, focada em previdência privada, ter um convênio médico é o item mais desejado por aqueles que ainda não têm, sendo citado por 36% dos entrevistados que possuem registro em carteira de trabalho. Também é o benefício mais recorrente nas empresas, sendo apontado por 57% dos entrevistados, acima até mesmo do vale-alimentação ou refeição.

Contudo, oferecer um plano de saúde não é das tarefas mais fáceis, já que o contrato é feito via corretoras ou diretamente com as operadoras, e são diferentes dos planos individuais, onde o reajuste é estabelecido pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Por isso, leva em conta a frequência que os funcionários utilizam os planos de saúde e os gastos relacionados.

Tratamentos de média e alta complexidade, como os que envolvem o uso de tecnologias, internação, cirurgias e exames mais complexos, são os mais custosos dentre os serviços de saúde. Ou seja: é preciso estimular os cuidados com a saúde dos funcionários. Com isso, além do plano de saúde, empresas têm oferecido outros benefícios que estão ligados à manutenção do bem-estar, como academias e plataformas de saúde mental.

Os serviços de saúde corporativa oferecidos pelos hospitais buscam aproximar a relação entre profissionais da saúde e funcionários, chegando até mesmo a instalar um ambulatório dentro das empresas. Dessa forma, médicos e enfermeiros podem coordenar o cuidado, realizar procedimentos, atendimentos, prescrever medicamentos e incentivar os cuidados.

Assim, é possível reduzir a utilização do plano, atendendo prontamente às demandas de saúde dos colaboradores e evitando quadros mais graves que precisem de atendimentos de alto custo. Contudo, é importante entender que esse serviço não substitui os benefícios, trabalhando de forma conjunta.

De acordo com Danilo Dias, a contratação da saúde corporativa “pode ser vantajosa quando se tem clareza sobre o escopo de serviços e os limites de atendimento emergencial e eletivo. Caso contrário, haverá frustração a respeito do que se espera em termos de atendimento e o que está contratado”. Segundo ele, a escolha pelo serviço se torna uma opção quando a taxa de crescimento dos custos de saúde são maiores que a taxa de crescimento da rentabilidade.

Hospitais de referência

Uma das principais unidades de saúde do Brasil que oferecem esse serviço é o Hospital Alemão Oswaldo Cruz. O projeto inicial nasceu em 2010 dentro do próprio hospital, atendendo funcionários e seus dependentes. Os resultados logo apareceram. Por três anos não houve reajuste no plano de saúde por conta da diminuição da sinistralidade, o que resultou em uma economia estimada de 5 milhões de reais.

“Esse programa foi espelhado e fizemos parceria com instituições nacionais e internacionais, como a Universidade de Stanford. Fizemos uma imersão e conhecemos todo o programa deles e trouxemos o know-how para o hospital e montamos o nosso programa”, explica Leonardo Piovesan, gerente médico do Saúde Integral, como é chamado esse serviço oferecido às empresas.

Tendo como princípios a promoção de saúde e prevenção de doenças, o serviço começou a ser comercializado em 2020. Hoje, já atende 35 mil funcionários presentes em 8 empresas, como Siemens Energy e Volkswagen, que somados aos dependentes chegam a cerca de 120 mil vidas. Elas contam com ambulatórios com médico da família e profissionais de enfermagem que atuam junto aos colaboradores.

O modelo do atendimento aproveita a consulta periódica para fazer uma anamnese além do ambiente profissional, buscando entender o histórico de saúde, os hábitos de vida e possíveis queixas. Assim, a equipe já cria uma proximidade, em busca da coordenação do e estabelecimento de um vínculo. Mesmo com os avanços em telessaúde, o atendimento presencial representa 90% das consultas realizadas pelo programa.

“De todos os casos que a gente atendeu nesse último semestre, apenas 7% foram encaminhados ao pronto-socorro. Esses ambulatórios têm medicação, colhe alguns tipos de exames e realizam procedimentos, como sutura e drenagem de abscessos. Se ele vai ao pronto-socorro com uma dor de cabeça, ele pode ficar horas aguardando porque não é classificado como urgência”, explica o gerente médico.

Serviço único

Os serviços oferecidos às empresas variam de acordo com a necessidade dos empregados e podem contar com o apoio de nutricionistas e médicos especialistas, assim como o atendimento via telemedicina, que acaba por beneficiar principalmente os funcionários que trabalham de forma remota. Com um alto índice de engajamento, a dificuldade maior fica em conseguir acessar os dependentes e a adesão ao tratamento de pessoas com doenças crônicas. 

“A partir de informações que as empresas fornecem e dos nossos atendimentos, geramos uma série de planos e linhas de cuidado para acompanhar a população dessa empresa, para mantê-los mais saudáveis pelo maior tempo possível, prevenção e redução de riscos identificáveis, e controle de pessoas com doenças crônicas”, explica Piovesan, que reforça que todo o serviço é baseado em pesquisas e evidências científicas, assim como se atenta a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).

O serviço ambulatorial empresarial do Oswaldo Cruz não substitui os planos de saúde, pelo contrário. Alguns contratos do hospital com as empresas são firmados juntos às operadoras, mostrando que é possível estabelecer uma relação de cooperação em prol da saúde e da sustentabilidade. Da mesma forma, é importante para o compartilhamento de dados, visando a um atendimento mais integral e reduzindo custos.

Com o sucesso do projeto em 8 clientes, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz tem a meta de atender 100 mil vidas diretas até 2026, um cenário possível onde empresas e planos de saúde buscam redução de custos. “Para dar certo, esse modelo precisa ser de qualidade, não é só ter um acesso. É preciso ter um programa de qualidade, com uma atenção primária estruturada, profissionais qualificados e apoio de tecnologias baseada em dados”, conclui o gerente médico.

Telessaúde e parceria com operadoras

Visando a reduzir ainda mais os custos, algumas empresas optam por contratar o serviço de saúde corporativa mas não construir o ambulatório, com todo o acompanhamento com o médico da família sendo realizado por telessaúde. É nesse campo que o Hospital Sírio-Libanês tem trabalhado.

Com 190 mil vidas atendidas em 9 clientes, como Itaú e Votorantim, o hospital realiza cerca de 60% dos atendimentos empresariais por telemedicina. Possui ainda um programa de acompanhamento remoto de pacientes com doenças crônicas que está dentre as áreas de atuação e da perspectiva de crescimento do produto.

Há 5 anos no mercado, o Sírio-Libanês identificou que mesmo com um Net Promoter Score (NPS) de 91, em uma escala de satisfação do cliente que vai de 0 a 100, para ampliar e melhorar os cuidados com a saúde dos funcionários das empresa é preciso integrar os diferentes serviços que atendem os pacientes.

“Em alguns contratos percebemos que se a gente não trabalha em rede, não conseguimos maximizar a entrega de valor. Se o paciente vai a um médico de família com uma questão hormonal, por exemplo, é muito mais efetivo se eu indicar um endocrinologista da mesma rede, que eles se conversam e vão acompanhando o cuidado em toda a jornada”, explica Daniel Greca, diretor da Unidade de Negócios Gestão da Saúde da População.

Por isso, além da telessaúde, o hospital tem focado em construir parcerias com operadoras de saúde, para integrar o serviço de saúde corporativa à rede de atendimento do Sírio-Libanês. Essa proximidade já tem rendido alguns frutos, como alguns planos de saúde que contrataram o hospital para realizar toda a atenção básica.

Em junho deste ano, a operadora Med Health, a Caixa de Assistência dos Advogados (CAA-DF) e a Ordem dos Advogados do Brasil do Distrito Federal (OAB-DF) firmaram uma parceria junto ao hospital para oferecer serviços de atenção primária aos beneficiários, cerca de 150 mil, por telemedicina. Greca adianta que um segundo contrato com as operadoras já foi fechado e deve ser anunciado nas próximas semanas. Outras negociações estão em andamento.

“Não dá para ficar um serviço isolado. Saúde acontece em vários pontos da jornada, se a gente focar em apenas um ponto e desconectar de todo o resto, a chance de não estar entregando o máximo é muito grande. Não temos problemas com o colaborador, ele entende que é um outro benefício, mas cabe à operadora e ao Sírio-Libanês conversarem e integrarem para entender melhor a pessoa como paciente”, defende o diretor.

On demand

A Rede Mater Dei de Saúde é outra instituição a oferecer o produto para empresas. A aposta do grupo está no diferencial de oferecer serviços que vão além do ambulatório para os funcionários, de acordo com a necessidade de cada cliente, e construindo em conjunto um modelo viável e eficaz.

“Temos um cliente hoje que está no meio da Floresta Amazônica, a cidade mais próxima está a 8 horas de balsa. Eles contrataram o Mater Dei para prover interconsultas de especialistas e subespecialidades médicas que têm uma dificuldade em acessar. O profissional na ponta com o paciente acessa o nosso médico”, explica Matheus Junqueira, gerente de inovação e novos negócios.

Com 12 mil vidas, mas mirando a expansão dos negócios, o Mater Dei ainda oferece serviços de pronto-socorro 24 horas via telemedicina e segunda opinião médica, assim como o ambulatório característico da saúde corporativa. Com a pandemia impactando a saúde mental da população, receberam a demanda de empresas para oferecerem consultas em psiquiatria.

Assim como o Sírio-Libanês, expandiu o produto para realizar parcerias com operadoras de saúde, mirando um cuidado mais integral com os pacientes. Atualmente, dois planos são comercializados na região metropolitana de Belo Horizonte: um em parceria com a SulAmérica e outro com a Cassi – Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil.

Segundo Junqueira, o maior desafio desse serviço é mudar a mentalidade dos usuários em relação aos médicos especialistas e à lista de rede credenciada ao plano de saúde: “Desconstruir isso, mostrar que o modelo com médico da família entrega melhorar resultados, vai coordenar a jornada e que vai indicar o especialista quando necessário, mas que depois volta para ele, é o principal desafio”.

Essa mudança deve ocorrer gradualmente e está diretamente ligada ao sucesso do programa. Como explica Junqueira, a ideia é retomar o conceito de “rede”, deixando de lado a visão de que o hospital é o centro da saúde, promovendo ações de bem-estar e cuidados em diversos campos.

Ele aponta também que de acordo com as solicitações dos clientes é possível criar novos produtos e expandir ainda mais a saúde corporativa, mostrando que é importante para reduzir a sinistralidade, a utilização do pronto-socorro, o absenteísmo e para a prevenção de doenças: “Difundir que o Mater Dei tem esse serviço, quais os benefícios que alcançamos e os cases de sucesso, e aumentar o número de vidas a nível nacional são os próximos passos da empresa”.

Rafael Machado

Jornalista com foco em saúde. Formado pela FIAMFAAM, tem certificação em Storyteling e Práticas em Mídias Sociais. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou no Portal Drauzio Varella. Email: rafael@futurodasaude.com.br

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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