Saúde 2020 – de coadjuvante a protagonista

Com a pandemia, fica evidente que o fortalecimento do Sistema Único de Saúde é urgente

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Nesse meu primeiro artigo para o portal da Natalia Cuminale, que muito me honrou com o convite para estrear a coluna de colaboradores, poderia dedicar parágrafos e parágrafos ao impacto que o Novo Coronavírus (SARS-CoV-2) e a doença que ele provoca, a Covid-19, acarretaram ao planeta e ao Brasil. Uma doença que já ceifou a vida de mais de 570 mil pessoas no mundo, além das mais de 130 mil que morreram no período da pandemia, mas não há registro das causas que as acometeram*.

Porém, decidi que o mais importante seria discorrer sobre o que mais tem me afligido em tempos de pandemia. Aliás, essa “aflição” aflorou em 2008, quando decidi atuar pela causa da saúde no Brasil. E essa minha experiência tem mostrado que os dados e as informações acuradas são absolutamente necessários para a tomada de decisões, principalmente em um setor tão relevante, mas que já há muito tem sido tratado como nicho, como área restrita aos cientistas, aos especialistas e à indústria milionária que não para de crescer ao seu redor.

A inquietute da certeza de que a causa da saúde está muito acima desse universo delimitado que a colocaram é o que me fez refletir, ainda mais, sobre o ano de 2020. O ano em que a saúde extrapolou os limites que a ela tentaram impor e mostrou realmente o seu poder. O poder de paralisar tudo e todos e “gritar” em alto e bom som que se não a tratarmos com o respeito e a relevância devidos, e se não trabalharmos com o olhar de prioridade que ela tem para as nações, seremos engolidos por sua avassaladora força invisível e mutante.

Muito mais do que tentar entender as causas da pandemia, quero voltar o meu olhar para as consequências que dela virão. Entre as que entendo serão as mais visíveis estão a necessidade do fortalecimento do nosso Sistema Único de Saúde, o SUS, que o Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL) – organização que fundei e presido – tanto apoia, valoriza e alerta sobre as suas fragilidades, principalmente no que se refere à gestão e aos investimentos necessário para a inovação na atenção primária e na qualificação e treinamento de sua equipe. Uma equipe heroica, incansável, acostumada a levar “pedradas” e que, na pandemia, mostrou o seu real valor.

E, na outra ponta, o paciente. Esse indivíduo que para muitos não tem identidade própria, além de um número em um registro ou uma carteirinha, mas que para nós do Instituto LAL, sempre deveria ter estado no centro da discussão.

E de que discussão estou falando? Estou falando da necessidade de entender quão multifacetado ele é e o quanto é preciso empoderá-lo. Sim, pois hoje, a pandemia mostrou que todos nós somos pacientes, alguns identificados, outros não. Se não dedicarmos a devida atenção aos pacientes de alto risco, aos indivíduos que possuem comorbidades, ou àqueles que chegam ao Sistema de Saúde (seja o público ou o privado) com um diagnóstico tardio, muitas vezes sem condições de reverter o quadro avançado, seja ele de um câncer ou de uma doença crônica, estaremos sempre no topo da lista dos países com os mais altos índices de mortalidade em pandemias como a que vivenciamos em 2020 e que, certamente, serão repetidas em 2030, 2040 e assim por diante, a cada conhecido ciclo de 10 anos.

Não vou aqui, entrar em questões ideológicas e discussões políticas que levaram o Brasil a estar em posição de liderança entre os países com maiores registros de infectados e mortos, proporcionalmente ao tamanho de sua população. Vou aqui estressar a minha opinião de que já passou a hora da Nação brasileira acordar e trabalhar unida para alcançarmos a sustentabilidade dos sistemas de saúde, público e privado, e a entender que o paciente não é aquele que está na fila da internação ou que passa por tratamento. Paciente somos todos nós, mais cedo ou mais tarde. Só temos de decidir se seremos, também, sobreviventes. E, ainda mais especificamente, se seremos sobreviventes saudáveis ou carregaremos sequelas.

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