Romeu Domingues, presidente do conselho da Dasa: “Precisamos pensar na sustentabilidade da saúde e evitar desperdícios”

Em entrevista ao Futuro da Saúde, Romeu Domingues, presidente do conselho da Dasa, vai além da pandemia e do setor de diagnósticos. Ele revela que a Dasa, líder em medicina diagnóstica no país, está de olho nas próximas tendências setoriais

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Enquanto os olhares da saúde estão voltados para a pandemia de coronavírus, outras pautas também relevantes para o setor foram temporariamente deixadas de lado. A discussão sobre a sustentabilidade da saúde e o combate aos desperdícios deve voltar com força em 2021.

Em entrevista ao Futuro da Saúde, Romeu Domingues, presidente do conselho da Dasa, vai além da pandemia e do setor de diagnósticos. Ele revela que a Dasa, líder em medicina diagnóstica no país, está de olho nas próximas tendências setoriais: criação de ecossistemas de integração de dados, mudança nos modelos de negócios, fomento às healthtechs e sustentabilidade do setor como um todo.

Durante a conversa o executivo também analisou o atual momento da pandemia e as perspectivas para o ano. Confira:

No ano passado ninguém imaginava a pandemia e qual seria o impacto dela para a nossa vida. O que esperar para 2021?

Vai ser um ano difícil também, porque ainda não sabemos qual a extensão dessa segunda onda e nem a gravidade. Também não sabemos se o que está acontecendo com Manaus, um fato que está chocando a gente, vai acontecer com outras cidades. A vacina começou, mas até escalonar vai demorar. As pessoas estão cansadas de fazer o isolamento e querem trabalhar, socializar. Quanto mais se estuda, mais nos surpreendemos. Não sabemos ainda muito sobre a nova mutação, que é mais contagiosa. Então, é uma incógnita.

A Dasa registrou queda na procura por exames durante a pandemia. Isso já se reestabeleceu?

Na pandemia, houve uma queda de 75% em abril e isso é preocupante. A Dasa fazia diagnostico todo mês: mais de 300 casos diagnosticados de câncer de mama, mais de 300 casos de diagnóstico de câncer de próstata. Não eram suspeitas, eram casos confirmados.

“Imagine quantas pessoas deixamos de diagnosticar com câncer no mês de abril, de maio, junho? E esse período de três, quatro, seis meses pode ser um tempo essencial para a cura”.

A busca por exames começou a melhorar em setembro. Houve um crescimento no atendimento domiciliar também,  inclusive para exames de imagem, além dos exames de sangue. Eram alternativas que a gente não oferecia e que a demanda cresceu muito. Também estamos ampliando a nossa experiência digital, com marcação digital e check-in. Ainda estamos longe do ideal, mas estamos investindo nisso.

E como você avalia o volume de testes no Brasil? No começo da pandemia era o que mais se dizia, que a gente precisa testar, mas isso caiu por terra…

Acho que estamos testando muito. Só a Dasa, no privado, está fazendo 18 mil por dia. Isso é bastante. E a gente vê que surgiram outras tecnologias, inclusive com a coleta da saliva. No ano passado, de março a junho, era um caos. Não tinha insumo, reagente, máquina…isso avançou muito. No público eu não sei te dizer como está, mas no privado avançou muito.

Vocês chegaram a firmar um acordo com o Ministério da Saúde para ampliar o sistema público de testagem. Esse projeto avançou?

Muito, nós construímos um centro emergencial em Alphaville e colocamos profissionais qualificados para poder fazer o PCR. Recentemente aumentamos a capacidade de 8 mil para 12 mil exames diários só no centro emergencial. Acreditávamos que isso seria feito durante uns seis meses, mas pelo visto vai durar mais um ano. É uma ação filantrópica. É uma boa ação da Dasa para a população porque a gente sabe que milhares de pessoas não conseguem acesso. Investimos 15 milhões de reais nisso.

A Dasa será responsável pelo delineamento do estudo clínico de fase II e III, em desenho conjunto com a COVAXX, para uma nova vacina. Qual o status disso?

Ao todo, são 7 mil voluntários, com possibilidade de ampliar esse número. Estamos na fase de refinamento do protocolo, já com base nos resultados de Taiwan, que foi da fase 1 e se mostraram bem promissores. A previsão é começar o recrutamento no Brasil para o começo de março para a fase II e III estendida. A previsão dos resultados preliminares é para o segundo semestre.

Fora o cenário de Covid-19, como vai ser 2021 para o setor da saúde? A pandemia afetou toda a cadeia de serviços?

Nos hospitais, as cirurgias eletivas voltaram. Por um lado, isso é bom porque as pessoas voltaram a fazer exame preventivo e diagnóstico. Em termos de medicina diagnóstica, voltou a um nível até superior ao de antes da pandemia, talvez porque tinha ficado represado. Isso nos surpreendeu. Dezembro é sempre sazonal também, mas foi recorde aqui na Dasa. Em relação à saúde privada, apesar das dificuldades quanto ao emprego no país, houve um pequeno crescimento nos beneficiários. Por outro lado, o reajuste certamente vai impactar as pessoas. O mercado da saúde está bem agitado e um pouco aflito, em um cenário de consolidações, de abertura de capital.

Antes da pandemia, falava-se muito na importância de discutir a sustentabilidade do setor da saúde. Esse tema perdeu a popularidade?

Com certeza. Como caiu muito a receita e o movimento dos hospitais, clínicas e consultórios, essa discussão ficou em segundo plano, mas agora tem que voltar.

“O modelo fee for service não sobrevive, pois os incentivos são ruins para todos os lados. Precisamos pensar na sustentabilidade da saúde e evitar desperdícios”.

Evitar fazer consulta que não precisa, de ir à emergência ou fazer exame sem necessidade. Falamos de value based há quinze anos. Sempre que for possível tornar o relacionamento entre pagador e prestador mais transparente será melhor para o paciente, médico e operadora. É um ganha-ganha. Mas aí entra uma coisa importante que é a pertinência. É possível empacotar e pagar, por exemplo, procedimentos como uma cirurgia bariátrica que custa X. Fica muito mais fácil de pagar e auditar, mas é preciso verificar a pertinência. Essa pessoa realmente precisava passar por esse procedimento? Se não é pertinente, o value based é zero.

As empresas estão realmente preocupadas em mudar esse modelo ou estão confortáveis da forma como está?

De uma forma crescente, vejo as grandes empresas de saúde no Brasil preocupadas em atuar em toda a cadeia. O objetivo é olhar o paciente como um todo. Não mais pontualmente, quando ele vai na emergência ou vai fazer uma ressonância, mas acompanhar em uma atenção primária. Assim, quando ele for na emergência, será possível saber o que está acontecendo. Para isso funcionar, é fundamental a integração e a interoperabilidade entre os sistemas. Ao ter toda a jornada digital do paciente, fica mais fácil fazer esse acompanhamento. Não tem por que uma pessoa que não é diabética fazer três exames de glicose no ano. Por outro lado, aquela pessoa que é diabética grave precisa ir três vezes ao ano fazer o exame – e ela não vai, vai uma vez só. Por isso, é preciso olhar para os dois lados e cruzar o dado estruturado. Não adianta ter um dado e não ajudar o paciente e o médico. O que ajuda é mandar um aviso diretamente para o celular do paciente que não está sendo bem acompanhado. Isso faz todo sentido para uma saúde mais sustentável.

Criar um ecossistema também está no radar da Dasa?

Sem dúvida. Já temos a nossa atenção primária, a telemedicina. Um dado importante é que, se analisar qualquer carteira, os 5% dos pacientes mais doentes consomem quase 50% do orçamento da saúde, de qualquer empresa. Então, se eu cuidar melhor desses 5% com consultas presenciais, proativamente pela telemedicina, colocar a enfermeira para falar com ele todos os dias ou o próprio médico, o desfecho vai ser melhor. Geralmente são pacientes que tem mais de uma comorbidade como diabetes, hipertensão, insuficiência cardíaca, obesidade. Quando qualquer dessas comorbidades complica, há uma possibilidade altíssima do paciente parar em uma emergência ou UTI.

Há algum exemplo de onde isso funciona?

Uso muito o exemplo da saúde em Israel porque, em primeiro lugar, são 4 operadoras de saúde e todo mundo tem acesso a um plano. Segundo, há integração dos dados. Desde a atenção primária é muito forte. Se você vai no especialista, se você faz um exame, se você vai na emergência, se você interna, você tem todo seu histórico ali. Tem muita tecnologia envolvida da plataforma digital, inteligência artificial e machine learning para ajudar os médicos a errar menos. Não é para substituir o médico, mas para ajudá-lo a adotar a conduta correta, seguir os protocolos.

De toda essa tecnologia, qual é a maior dificuldade? Engajar o médico?

Nenhum profissional gosta de ser questionado e muitos pensam “eu estudei 6 anos e não vou seguir”. Mas tem que ter um protocolo. Vejo startups, inclusive de Israel, que incorporam os dados dos pacientes, usando o deep learning, em cima de 400 milhões de consultas. Por mais que o médico estude, ele não consegue reter tudo. Então ter uma ferramenta que junta os dados do hemograma com os da tomografia, mais os dados clínicos, mais o que toma de remédio, mais o que a enfermeira colheu de dado…são dados não estruturados onde eles aplicam o deep learning. Vejo isso como um aliado ao médico, que fica mais qualificado, mais produtivo. Temos utilizado isso na Dasa, com os nossos radiologistas, em que a própria inteligência artificial revisa os diagnósticos. E é muito bom. Depois de 20 laudos de uma tomografia, você está cansado, pode deixar passar, tanto um falso positivo quanto um falso negativo. No falso positivo, você acaba submetendo o paciente a uma biópsia, a uma cirurgia e não era nada. Pior ainda é o falso negativo, quando você deixa passar uma lesão que poderia ter tratamento.

Você acha que a pandemia de certa forma ajudou a acelerar esse processo, essa busca das empresas por esse ecossistema?

Com certeza e, inclusive, a aceitação da telemedicina. De modo geral, temos visto que mais de 70% dos casos que iam para emergência são resolvidos por uma consulta virtual. O médico tem que ter atenção, ouvir a história, o paciente pode mostrar um exame, tirar uma foto de uma lesão de pele, investigar condições como gripe, suspeita de Covid-19, febre.

“Em 2 milhões de consultas esse ano, mais de 75% foram resolvidas virtualmente. Menos de 10% você manda para a emergência e o restante você pede uma nova consulta virtual ou presencial”.

Então isso garante um ganho de tempo, de escala e de eficiência. A interconsulta entre médicos também é uma modalidade fantástica. Um médico no interior do estado do Rio de Janeiro se conecta com um neurologista de um grande centro e ele faz um diagnóstico de uma esclerose múltipla. Então não é só o ganho para o paciente, como também uma possibilidade de ensinar um colega.

Hoje todos os grupos falam em ter o seu próprio ecossistema. Isso pode tornar o engajamento mais difícil, porque uma pessoa faz um exame em um lugar, depois vai para outro hospital, de outro grupo, e cada um deles quer fazer o seu próprio ecossistema. Você não acha que há um excesso de ecossistemas?

Concordo, mas acho que vão ficar poucos e que serão integrados. Por que a medicina verticalizada consegue uma sinistralidade menor? Porque está tudo integrado. Em um sistema fechado você consegue ser mais eficiente. É claro que, se existe liberdade demais, vai em um, depois no outro, no outro e aí não está em ecossistema nenhum. Eu vejo que, das operadoras grandes não verticalizadas, como Amil, Bradesco, Sulamerica e Unimed, cada vez mais vão ter que estar alinhadas com algum ecossistema delas e o nosso para ser mais eficiente para o paciente.

Muitas startups surgiram agora na pandemia e há uma expectativa de que haja um crescimento também esse ano. Você acha que algumas soluções podem vir delas?

No ano passado, houve um investimento grande em fintechs, mas as healthtechs também estão crescendo.

“Vemos no Brasil um crescimento desse empreendedorismo em saúde, seja em telemedicina, gestão, em prontuário médico, em software para acompanhamento de diabetes, engajamento, saúde mental, nutrição. Temos várias oportunidades”.

Algumas iniciativas são muito criativas e têm muito espaço ainda, da genética aos wearables

Você faz muita mentoria e acompanha jovens que estão empreendendo. Que lição é possível tirar disso?

Isso é bom demais, porque aprendemos demais com essa garotada de 30, 20 e poucos anos. Empreender é difícil. Você pode ter um projeto bacana, leva para o hospital e o pessoal vai ver como um custo. Então é possível tentar abrir portas, mostrar o quanto determinado projeto pode trazer benefício. Lembro quando eu fui empreender. Saí da faculdade, voltei de Boston, foi muito duro. Ter uma pessoa mais velha, ajudando, incentivando, abrindo porta, networking, é muito benéfico.

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