‘Retomada gentil’: saúde mental é preocupação de empresas para programar o retorno de funcionários após longo isolamento

Embora o home office tenha benefícios, pesquisas apontaram que as circunstâncias em que o trabalho remoto foi adotado causaram um aumento no estresse relacionado ao trabalho.

               
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Depois de quase dois anos de isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus, muitas empresas se preparam para voltar ou já estão efetivamente retomando suas atividades presenciais.

No entanto, diferente do que aconteceu quando a quarentena foi imposta, a volta está sendo planejada com cuidado e feita, em sua maioria, de forma gradual, muitas vezes até analisando de forma individual a situação dos funcionários que tiveram uma alteração significativa na rotina durante o período.

Esse olhar mais humano e empático tem razão de ser, já que a saúde mental dos trabalhadores durante a pandemia foi um dos motivos de preocupação das empresas. Diversas pesquisas realizadas no período crítico da pandemia (entendendo que ainda estamos nela, porém, graças à vacinação, estamos conseguindo retomar as atividades) mostram que, embora o home office tenha benefícios, as circunstâncias em que ele foi adotado causaram um aumento no estresse relacionado ao trabalho.

Ouvir os funcionários é o primeiro passo

É pensando nesse cenário delicado que muitas empresas estão planejando a volta ao escritório de forma cuidadosa e gradual. “Cada pessoa está vivendo uma realidade neste momento, e para algumas está sendo um pouco mais difícil”, avalia Jennifer Wendling, diretora de RH e Líder na Bristol Myers Squibb, em São Paulo.

A empresa optou por iniciar o retorno de forma voluntária para o escritório, na zona sul de São Paulo, uma a duas vezes por semana, para que as pessoas possam ver como se sentem. “Estamos fazendo tudo com empatia, devagar, de forma suave e muito aberta”, relata a profissional.

Esse plano é uma continuação do processo de acolhimento que vinha sendo feito pela empresa durante todo o período de home office –chamado por eles de “working from home” – em que a empresa criou espaços de fala e escuta segura, ofereceu palestras sobre saúde mental e auxiliou na criação de rotinas mais saudáveis de trabalho. Na hora do almoço, por exemplo, existe um período de uma hora e meia em que não é permitido marcar reuniões.

“Tudo isso foi feito a partir de conversas que tivemos com nossos funcionários e após ouvir o que eles nos traziam”, afirma Wendling. O resultado compensou: em pesquisas realizadas durante o período até recentemente, eles relataram sentirem-se cuidados pela companhia.

Abrir o diálogo com os funcionários também foi uma ação tomada pelo Grupo Votorantim, que criou um programa específico para que eles pudessem falar sobre suas angústias durante a pandemia em rodas de conversa temáticas com o acompanhamento de uma psicóloga e um psicanalista.

Os temas abordados variaram de como lidar com a ansiedade durante a quarentena até a divisão de tarefas domésticas e o apoio às crianças com o ensino online. De acordo com Miusly Ferreira Tosin, gerente de DHO do Centro de Excelência da Votorantim, o acompanhamento é feito para garantir a saúde mental do time e deve seguir neste momento de retorno aos escritórios.

Telemedicina tornou-se aliada

Um recurso muito utilizado para auxiliar os trabalhadores durante a pandemia, foi a oferta de telemedicina para os funcionários.

Foi o que fez a SUEZ Brasil, empresa francesa que atua no país no setor de infraestrutura, água e recursos. A companhia teve o auxílio de uma consultoria especializada em saúde mental para realizar pesquisas e mapear os possíveis casos de risco à saúde mental.

Por meio de pesquisas realizadas de forma online, era possível encontrar indivíduos que estivessem entrando em quadros de burnout e depressão. Nesses casos, a consultoria entrava em contato para acolher, conversar e incentivar a busca por atendimento especializado –muitas vezes, em ambiente virtual.

Para Viviane Lima, gerente de RH da SUEZ Brasil, a ação teve como efeito promover também o autoconhecimento. “As pessoas tiveram a percepção de que havia de fato um problema”, avalia. Palestras sobre saúde mental com especialistas da área e a existência de canais de apoio para a saúde mental também foram reforçados durante o período de home office, que deve terminar definitivamente a partir do ano que vem.

“A ideia é voltar de forma híbrida, apenas três vezes por semana”, relata. A decisão foi tomada pensando no coletivo, mas também ouvindo e entendendo casos específicos de profissionais que mudaram de cidade ou que estão em uma rotina com os filhos que não pode ser alterada neste momento. “Alguns não irão voltar agora, e tudo bem. É um aprendizado para todos nós”, avalia.

O incentivo para usar a telemedicina também foi uma das ações adotadas durante a pandemia pela consultoria Accenture, que aumentou via plano de saúde o direito às sessões de terapia online. Beatriz Sairafi, diretora de RH, explica que a consultoria agiu rápido ao oferecer conversas com especialistas e orientar os líderes a dialogar com seus times para sentir o clima durante toda a quarentena.

E, assim como outras empresas, o retorno, planejado para 2022, será feito de forma gradual e individualizada. “O momento agora é de mudança de mindset, ou seja, entender que voltaremos de forma híbrida, que é importante estarmos fisicamente presentes, mas desde que exista um propósito para isso”, avalia.

Por que saúde mental é uma preocupação das empresas?

Uma pesquisa realizada pela Microsoft em diversos países, incluindo o Brasil, e divulgada em setembro de 2020, apontou que 44% das pessoas disseram estar se sentindo mais exaustas.

O relatório afirma que esse sentimento pode ser atribuído a vários fatores, incluindo o impacto de dias de trabalho mais longos – uma das principais queixas dos funcionários, que tiveram suas rotinas modificadas e vivenciaram dias de confusão com a divisão entre casa e trabalho ficando misturada. Não só isso: o trabalhador também vivenciou o medo da doença e do desemprego e a cobrança (por ele próprio ou pela empresa) por produtividade.

O problema, claro, não vem de hoje, mas foi agravado com a pandemia. Dados da Isma-BR (International Stress Management Association) afirmam que 72% dos brasileiros sofrem de algum nível de estresse; desses, 32% apresentam sintomas de burnout.

Considerada uma doença do trabalho, a síndrome é uma forma de estresse crônico e reconhecido como um problema grave de saúde pela OMS (Organização Mundial da Saúde). O quadro pode levar a desdobramentos mais complexos como o desenvolvimento de depressão e ansiedade, além de problemas físicos como gastrite, dores de cabeça e insônia.

A situação de quem tem burnout chega ao ponto de prejudicar a produtividade do indivíduo, que trabalha até atingir a exaustão e não ter mais forças para reagir.

A ansiedade causada pelo retorno

E, por mais que a volta ao trabalho possa ser benéfica ao ajudar a organizar novamente a rotina profissional, ela também vem carregada de preocupações: desde o medo de se contaminar e levar o vírus para os familiares até o cansaço –e, por que não, a irritação– de ter que planejar novamente o deslocamento até o escritório e a rotina doméstica. Tudo isso dentro de um contexto em que já existe uma exaustão emocional.

Reorganizar a agenda diária nesse momento não é a única questão. O próprio isolamento criou uma espécie de medo do retorno das interações sociais para algumas pessoas. “Tivemos pacientes que relataram sentir cansaço, estresse e desconforto ao contato social, sintomas que se relacionam com crises de ansiedade e até de fobia social”, afirma Marli Cunha, psicóloga do hospital HCSG (Hospital Casa de Saúde Guarujá), no litoral de São Paulo.

A especialista acredita que a estafa emocional provocada pelo trabalho durante o home office de fato existiu, mas não é o único responsável pelo problema. “Percebemos que existiu uma ansiedade por romper com a rotina de atividades diárias, como a prática de atividades físicas, criando uma sensação de estagnação, como se a vida estivesse paralisada”, avalia.

Para o psiquiatra Henrique Bottura, diretor clínico do Instituto de Psiquiatria Paulista e colaborador do Ambulatório de Impulsividade do Hospital das Clínicas de São Paulo, é natural e esperado que as pessoas sintam um certo nível de ansiedade durante a retomada das atividades presenciais. “É uma readaptação a um modelo de vida que foi interrompido e sair do conforto do home office que foi estabelecido nesse período pode, sim, provocar ansiedade e medo”, explica.

No entanto, o especialista alerta que, quando esse sentimento se torna paralisante e o indivíduo não consegue realizar as atividades, desenvolvendo sofrimento psíquico intenso e até criando barreiras para postergar a volta, é hora de olhar o caso com mais atenção e procurar ajuda médica.

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