Resistência antimicrobiana ou AMR: é nosso dever falar sobre ela e, mais ainda, de atuar para combatê-la

Resistência antimicrobiana ou AMR: é nosso dever falar sobre ela e, mais ainda, de atuar para combatê-la

Em seu recente artigo, Marlene Oliveira aborda a importância de intensificar o debate sobre resistência antimicrobiana (AMR) no Brasil e no mundo

By Published On: 28/06/2023
Resistência antimicrobiana (AMR) - artigo Marlene Oliveira

Não é de hoje que a resistência antimicrobiana (AMR), tema deste artigo, está na minha agenda. Decidi abordá-lo agora, pois certamente irá gerar mais eco, uma vez que os eventos relacionados a ela estão cada vez mais frequentes, visíveis na mídia e a tendência é crescer, se nada for feito para combatê-la.

Aqui no Instituto Lado a Lado pela Vida, temos estudado e discutido seu impacto e formas de enfrentamento já há alguns anos. Mais precisamente desde 2019, antes da pandemia da covid-19, quando fomos a única organização brasileira presente em um encontro internacional sobre o tema, em Amsterdam, na Holanda.

De lá para cá, temos estudado o assunto e mantemos uma agenda constante de troca de informações e reuniões com organizações internacionais que, como nós, entendem a gravidade e o impacto da resistência antimicrobiana em pacientes oncológicos, cardiovasculares e crônicos. E não somente nesses casos, mas em todo indivíduo que está em tratamento de distintas doenças.

AMR: pandemia silenciosa

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a AMR (sigla em inglês para resistência antimicrobiana) é um risco iminente em todo o mundo e demanda imediata ação dos governos, da sociedade e de todo o ecossistema da saúde, pública ou privada. Ela está entre as 10 principais ameaças globais à saúde pública e já é chamada por muitos de “a pandemia silenciosa”.

Ainda segundo a OMS, “ela ocorre quando bactérias, fungos, vírus e parasitas sofrem alterações/mutações quando expostos a antimicrobianos (antibióticos, antifúngicos, antivirais, antimaláricos ou anti-helmínticos, por exemplo) e tornam-se ultra resistentes a esses medicamentos, mantendo as infecções no corpo, aumentando o risco de propagação a outras pessoas. Sem antimicrobianos eficazes para prevenir e tratar infecções, procedimentos médicos como transplantes de órgãos, quimioterapia, controle de diabetes e cirurgias de grande porte tornam-se um risco muito alto”.

Enquanto entidade que trabalha para que a saúde no Brasil se reorganize e registre melhores índices de acesso e equidade, além de melhorar a gestão e a sustentabilidade econômica dos sistemas de saúde, seja do SUS (Sistema Único de Saúde) ou da saúde suplementar, falar da resistência antimicrobiana é mais do que uma necessidade. É um dever, pois ela representa um alto custo da atenção médica, pois impacta em mais internações e longas permanências em hospitais e, ainda, requer cuidados mais intensivos.

Um dado importante – e alarmante – é o de que a resistência aos antimicrobianos já colocou em risco o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), a agenda mundial de 17 objetivos e 169 metas que devem ser atingidos até 2030 e que foi adotada pela Cúpula das Nações Unidas em setembro de 2015. E, também, o fato de que ela abrange muitos setores da saúde, considerando que agentes infecciosos resistentes podem ser transmitidos entre animais, humanos e alimentos, o que pede uma visão ampla do tema, pois ainda se sabe pouco sobre a conexão entre eles e as análises dos dados e de informações muitas vezes são tratadas de forma setorizada e independente.

Tema se intensifica na agenda

Enquanto organização que atua nas duas principais causas da mortalidade, as doenças cardiovasculares/crônicas e o câncer, não poderíamos deixar de incorporar a resistência antimicrobiana à nossa agenda de ações. Foi fundamental inclui-la em nosso planejamento de atividades e estudar seu impacto nos pacientes, visto que já sabemos que ela ultrapassou o estágio das ameaças e tornou-se uma realidade, como nos casos de óbito por infecção causada pelo fungo Candida auris ocorridos recentemente no Brasil. Tenham certeza de que, daqui para a frente, vocês acompanharão cada vez mais em nossas comunicações nas redes sociais, em artigos e eventos, a inclusão desse assunto, assim como fizemos em novembro de 2022, quando novamente estivemos em um evento global sobre resistência antimicrobiana, em Berlim, na Alemanha.

O nosso pioneirismo de incluir assuntos relevantes nas discussões e na disseminação de informações confiáveis para pacientes e sociedade é um diferencial importante, considerando que a missão do Instituto Lado a Lado pela Vida é a de mudar para valer o cenário da saúde no Brasil. Faz parte do nosso DNA gerar conteúdo até então pouco explorado ou visível para o grande público e movimentar as discussões relevantes sobre saúde e, principalmente, contribuir para que ações efetivas ocorram em benefício dos brasileiros.

Foi assim em 2008, quando iniciamos nossas atividades colocando em destaque a importância dos exames para detecção precoce e tratamento do câncer de próstata e, em 2011 quando criamos o Novembro Azul, que rapidamente tornou-se domínio público e o maior movimento em prol da saúde do homem do País. Desde lá, nossa atenção para temas relevantes só aumentou: em 2015, trouxemos a medicina personalizada para o centro das discussões; em 2017 fizemos o mesmo com a cardio-oncologia; em 2019, destacamos a sustentabilidade econômica dos sistemas de saúde, com a criação do Global Forum Fronteiras da Saúde e, agora, faremos o mesmo com a resistência antimicrobiana, ou AMR.

O ambiente pós-covid é propício para que atitudes básicas como a higienização das mãos, o uso de equipamento de proteção individual, como as máscaras em locais recomendados e a limpeza e desinfecção dos ambientes de atendimento e tratamento de pacientes sejam reforçadas, o que será um passo importante para que as infecções sejam monitoradas e os fungos, bactérias e vírus sejam menos letais do que o que se prevê. Em 2019, o mundo registrou 1,2 milhão de mortes causadas por resistência antimicrobiana e, para 2050, a expectativa é a de que mais de 10 milhões de mortes diretas ligadas a ela ocorrerão, o que representa o mesmo índice de mortes por câncer registradas em 2020.

Fontes: Organização Mundial da Saúde; Organização Panamericana da Saúde; Deutsche Well e IAPO-p4ps Observatory

Marlene Oliveira

Formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) e em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes. É Empreendedora Social e Presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida, organização que dedica esforços para nutrir a população brasileira com informações qualificadas e oferecer orientação sobre as políticas públicas de saúde. Para o Triênio 2019 – 2021, Marlene Oliveira é também Conselheira no Conselho Nacional de Saúde (CNS). É a idealizadora da Campanha Novembro Azul, movimento que ao longo dos anos tornou-se uma ação de domínio público e a maior em prol da saúde do homem no país, e também criadora do Global Forum – Fronteiras da Saúde, evento internacional que discute os desafios e tendências da saúde no Brasil

About the Author: Marlene Oliveira

Formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) e em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes. É Empreendedora Social e Presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida, organização que dedica esforços para nutrir a população brasileira com informações qualificadas e oferecer orientação sobre as políticas públicas de saúde. Para o Triênio 2019 – 2021, Marlene Oliveira é também Conselheira no Conselho Nacional de Saúde (CNS). É a idealizadora da Campanha Novembro Azul, movimento que ao longo dos anos tornou-se uma ação de domínio público e a maior em prol da saúde do homem no país, e também criadora do Global Forum – Fronteiras da Saúde, evento internacional que discute os desafios e tendências da saúde no Brasil

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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Formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) e em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes. É Empreendedora Social e Presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida, organização que dedica esforços para nutrir a população brasileira com informações qualificadas e oferecer orientação sobre as políticas públicas de saúde. Para o Triênio 2019 – 2021, Marlene Oliveira é também Conselheira no Conselho Nacional de Saúde (CNS). É a idealizadora da Campanha Novembro Azul, movimento que ao longo dos anos tornou-se uma ação de domínio público e a maior em prol da saúde do homem no país, e também criadora do Global Forum – Fronteiras da Saúde, evento internacional que discute os desafios e tendências da saúde no Brasil