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Resistência a antibióticos: setor cria estratégias para contornar esse desafio de saúde pública

A partir de 2050, estima-se que a cada 3 segundos, uma pessoa irá a óbito como consequência da resistência a antibióticos. A questão tem sido agravada pela prescrição indiscriminada dessa classe de medicamento

               
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A prescrição indiscriminada dos antibióticos traz uma série de consequências para a saúde e é uma preocupação urgente das autoridades sanitárias. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o Brasil se tornou o maior consumidor de antibióticos no continente americano. E, ainda segundo a OMS, a resistência a antibióticos poderá ser associada à morte de 10 milhões de pessoas por ano, a partir de 2050 – em outras palavras, 1 morte a cada 3 segundos.

“Ao mesmo tempo em que houve aumento no uso de antibióticos ao longo dos anos, aumentou também a resistência da população a essa classe de medicamentos, passando de 4,7% em 2012 para 19,26% em 2019”, explicou Larissa Hermann, médica, integrante do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da PUCPR e pesquisadora do estudo sobre aspectos sociodemográficos associados ao uso de antibióticos em Curitiba, no Paraná.

Para combater esse problema de saúde pública, o setor tem elaborado estratégias que passam por programas educativos de uso racional dentro de instituições como também o surgimento de iniciativas que envolvem até o uso de inteligência artificial. De acordo com a infectologista Marina Della Negra, diretora da farmacêutica MSD para vacinas, doenças infecciosas e cuidados primários no Brasil, as iniciativas para contornar essa crise envolvem um conjunto de elementos como a questão cultura, o controle e a duração adequada do tratamento, novas moléculas e novos mecanismos de diagnósticos.

Os desafios do ponto de vista médico

De acordo com Hermann, um dos primeiros aspectos a ser considerado é: a resistência aos antibióticos não é somente sobre o mau uso individual – como tomar a medicação por menos dias ou mais dias do que o indicado na receita –, mas de práticas ruins realizadas coletivamente.

Na prática clínica, os especialistas se preocupam com a prescrição inadequada dos antibacterianos dentro dos ambulatórios. Enquanto dentro dos hospitais já existem programas de controle do uso de antibióticos, o mesmo não ocorre dentro de consultórios, de onde saem 80% das prescrições. 

“Em um contexto geral, as pessoas esperam que, quando elas vão ao médico – seja um quadro intestinal, tosse ou diarreia –, o médico receite um antibiótico. Se o médico não fornece essa receita, porque ele entende que é uma infecção viral (que é o mais comum), os pacientes ficam frustrados e muitas vezes o médico não quer ter que lidar com essa questão. É muito mais prático apenas fornecer o antibiótico e dizer que vai melhorar, do que educar o paciente sobre o uso e a indicação correta”, afirma a pesquisadora Larissa Hermann.

Junto a isso, há a questão de que a área de resistência bacteriana e microbiana é complexa até mesmo para os especialistas. Nessa questão, Marina Della Negra, da MSD, explica que “quem prescreve antibiótico, na maioria das vezes, não é o médico especialista”. “Há um desconhecimento, por vezes de profissionais da saúde de que antibiótico não trata infecção viral“, pontua Della Negra.

Por que os pacientes querem antibióticos?

As especialistas pontuam que, ao procurar por assistência médica, os indivíduos buscam também pela sensação de acolhimento, que se combina ao imediatismo.

“Muitas vezes o acesso à saúde não é fácil. O paciente ficou 5 horas na fila, esperando atendimento na UPA, para que o médico passasse um remédio para a dor, outro para o nariz escorrendo e um anti-inflamatório para controlar um pouco os sintomas. Nessa hora surgem pacientes que se sentem pouco acolhidos. Nisso o médico diz ‘se você não melhorar em 48h, volte que eu vou te prescrever um antibiótico’. Então culturalmente muitos pacientes esperam receber o antibiótico”, exemplificou a infectologista Marina Della Negra.

Além disso, os antibióticos passam a falsa impressão de que utilizá-los vai fazer a doença ser curada mais rápido. No entanto, ela reforça que nesses casos é possível “melhorar rápido de doenças bacterianas, não de doenças virais. A doença viral tem o seu curso e irá melhorar independentemente do antibiótico. Então é uma questão de confiar no diagnóstico e entender que, com ou sem antibiótico, o tempo será exatamente o mesmo – a não ser que o quadro seja causado por bactérias”.

O impacto na saúde pública

O aumento da resistência aos antibióticos implica em maior dificuldade de tratar doenças como pneumonia, pielonefrite, tuberculose e gonorreia. 

No estudo realizado por Larissa Hermann, há uma preocupação específica com as infecções urinárias, que costumam ocorrer principalmente devido à bactéria Escherichia coli. Através da análise de amostras de urina, coletada em ambulatórios de 2011 a 2019, foi observado o aumento de bactérias que tornam as infecções mais difíceis de serem tratadas, por serem portadoras da enzima beta-lactamases de espectro estendido (ESBL).

Com a pandemia por Covid-19, a detecção de bactérias com fator de resistência triplicou. No estudo realizado pelo Laboratório de Pesquisa em Infecção Hospitalar do Instituto Oswaldo Cruz, da Fiocruz, foram isoladas cerca de 1000 dessas bactérias para análise aprofundada, em 2019. Em 2020, esse número passou para quase 2000. Já em 2021, foram mais 3700 amostras coletadas para o mesmo propósito, ao longo dos meses de janeiro e outubro.

Essas bactérias representam riscos principalmente para pacientes que passam por processos invasivos, como ventilação mecânica e cateteres intravenosos, e também para aqueles alojados em hospitais ou casas de repouso. As primeiras consequências desse problema foram vistas em 2019, com a morte de mais de 1,2 milhão de pessoas, por infecções que não responderam aos tratamentos com antibióticos.

Iniciativas para combater as superbactérias

A UNICAMP, por exemplo, anunciou em 2021 o desenvolvimento de um novo composto para ser utilizado nas substâncias, através de nanopartículas de açúcar, que devem atuar como uma cápsula para antibióticos tradicionais. A medida seria uma forma de ‘enganar’ os mecanismos de defesa das bactérias, o que as impediria de criar resistência aos remédios.

Entre outras possibilidades, há ainda o Programa de Gerenciamento do Uso de Antimicrobianos, que ajuda hospitais a fazerem o uso racional de antibacterianos e antifúngicos. No entanto, o último levantamento da Anvisa – que avaliou 954 hospitais com UTI, em 2019 –, indica que apenas 47,5% dos hospitais possuem o programa em suas instalações. 

Além disso, o uso de inteligência artificial pode ser um aliado. Uma iniciativa recente é o projeto “Laura Stewardship Powered by MSD”, criado pela farmacêutica MSD, em parceria com a startup Laura, que ajuda médicos a prescrever medicamentos com maior rapidez e precisão, por permitir melhor compreensão da microbiota do ambiente hospitalar.

Há ainda outras iniciativas, como o One Health Brazilian Resistance (OneBR), um banco de dados genômicos desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), que tem como objetivo otimizar o monitoramento e controle das superbactérias. A ferramenta já contempla cerca de 500 patógenos humanos e, em breve, deve agregar outros 200. Na plataforma estão dados epidemiológicos, fenotípicos e informações genômicas de microrganismos de prioridade crítica – conforme classificação da OMS. 

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