O desafio de reconstruir os programas de imunização infantil

A questão é levantada após dados da OMS e da UNICEF apontarem que a cobertura de vacinas contra a difteria, tétano e coqueluche registrarem queda de 3% de 2019 para 2020.

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Dados apontam que a cobertura de imunização infantil contra a difteria, tétano e coqueluche passaram por de 3% de queda de 2019 para 2020.

Ao longo dos últimos anos a imunização infantil apresentou diversos avanços. No Brasil, o programa foi capaz de erradicar doenças como a poliomielite, sarampo e outras. Porém, a disseminação de notícias falsas, o surgimento de grupos anti-vacinas e a falta de informação têm atingido as campanhas de vacinação. Na prática, já é possível acompanhar uma queda na cobertura vacinal no país, um tema que traz consequências diretas para a saúde da população.

No dia 30 de setembro, o debate As consequências da Covid: reconstruindo os programas de imunização pediátrica, patrocinado pela farmacêutica GSK e o jornal The Economist, reuniu especialistas para discutir como a pandemia expôs vulnerabilidades em programas de imunização pediátrica em economias emergentes e quais as ações necessárias para atingir novamente as taxas de cobertura vacinal recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A questão é levantada após dados da OMS e da UNICEF apontarem que a cobertura de vacinas como a DTP1 e DTP3 (contra a difteria, tétano e coqueluche) passaram por uma queda de 3%, quando comparado os anos de 2020 e 2019. Outros imunizantes como Hib3 (Haemophilus influenzae do tipo B) e MCV1 (sarampo) diminuíram em 2% em sua adesão.

A importância da aplicação dessas vacinas está representada em uma série de números. Estima-se que os programas de imunização infantil estejam evitando anualmente 2,7 milhões de casos de sarampo, 2 milhões de casos de tétano neonatal, 1 milhão de casos de coqueluche, 600 mil casos de poliomielite paralítica e 300 mil casos de difteria.

Elementos como hesitação, desinformação, produção, oferta e demanda associados às vacinas foram debatidos pelos especialistas: Heidi Larson, antropóloga americana e diretora fundadora do Projeto de Confiança em Vacina; Alejandra Gaiano, pediatra especialista em doenças infecciosas Hospital Materno Infantil de San Isidro, representando a Argentina; Cláudio Maierovitch Pessanha Henriques, médico sanitarista da Fiocruz de Brasília, representando o Brasil; Jaime Sepulveda, médico e diretor-executivo da Global Health Sciences, representando o México.

Efeitos da pandemia – O aumento da hesitação

Uma das primeiras dificuldades quando se fala de adesão à vacina é o desafio de estabelecer a confiança das pessoas com esse recurso. “Mitos como o que diz que a vacina causa autismo têm dado muito trabalho. Tentamos acalmar essas ansiedades, mas os mitos continuam circulando e tomando diferentes formas”, afirma Heidi Larson, fundadora do Projeto de Confiança em Vacina, durante o evento.

De acordo com os especialistas, a desinformação propagada nas redes sociais e a dificuldade de acessar informações precisas sobre as vacinas contribuem para esse cenário. Durante a pandemia da Covid-19, as chamadas fake news ganharam ainda mais força.

Junto a esses elementos, está também o fato de que “a pandemia expôs uma série de sentimentos como medo e ansiedade que foram inibidores à vacinação, mas sentimentos positivos, como a esperança, podem encorajar a população em campanhas”, explica Larson.

A união desses fatores têm contribuído para a baixa confiança das pessoas com as vacinas. Por essa razão, Larson cita a campanha Doses de esperança realizada na Bolívia como um exemplo positivo a ser seguido. Isso porque o uso da palavra esperança pode ajudar a mudar a percepção das pessoas sobre o ato de vacinar-se.

Soluções para o Brasil

No contexto brasileiro, a imunização infantil já era apontada como uma preocupação em 2017, quando os níveis atingiram os pontos mais baixos até aquele momento. Com a queda das taxas de imunização das crianças contra 17 doenças, entre elas a poliomielite e o sarampo, os profissionais da saúde ficaram em alerta desde então.

Segundo o Ministério da Saúde, o motivo para esse fenômeno era a percepção de uma parcela da população, que acredita não ser preciso vacinar porque as doenças desapareceram. Na visão de Cláudio Maierovitch, médico sanitarista da Fiocruz de Brasília, a questão se agravou ao longo dos anos, pois “A hesitação não era uma questão como há dois ou três anos. Havia um pouco de hesitação mas não tínhamos antivacinas”, disse durante o webinar. 

Mesmo assim, o especialista não acredita que esse fenômeno continuará crescendo no país, mas defende que para retomar às taxas ideais de imunização infantil é preciso “olhar mais para campanhas publicitárias, utilizar as redes sociais e, principalmente, os profissionais da saúde próximos às pessoas para cumprir esse papel de comunicação, já que muitos lugares hoje em dia passam pela falta desses profissionais”.

Os sistemas informações para análise de dados individuais também são apontados como uma solução. O objetivo seria permitir que os profissionais da saúde encontrem as crianças não vacinadas no país e entrem em contato com para minimizar a questão.

Medidas para a América Latina

Na questão de possíveis soluções para a América Latina, destaca-se a necessidade de maior atenção de legisladores e de líderes de programas vacinais, segundo a opinião do público do evento, respondida em enquete.

Além disso, 25% acredita que o foco deveria estar em melhorar o sistema público de saúde; 33% defende a necessidade de haver mais vigilância e adoção das recomendações nos espaços de saúde; e 8% vê a questão de oferta e demanda, junto à questão da hesitação, como principais pontos a serem solucionados.

Em complemento, Jaime Sepulveda, médico e diretor-executivo da Global Health Sciences, defende que “a antecipação é uma palavra chave para evitar surtos, epidemias e pandemias futuras”. Essa antecipação envolve ainda o conceito de equidade imunológica, motivação filosófica que defende a ideia de vacinar mais do que 80% das pessoas, encontrando alternativas para públicos que até o momento são barrados por questões médicas.

A ação das vacinas

Durante seu período de início, no século XX, as vacinas foram capazes de diminuir a incidência das doenças infecciosas. Com a consolidação dos programas de imunização e da confiança a partir dessa tecnologia, estima-se que cerca de 5 milhões de mortes ao redor do mundo foram evitadas entre 2010 e 2015.

Além de reduzir a incidência de doenças e taxas de mortalidade, as vacinas são uma possibilidade de reduzir o uso de antibióticos e prevenir contra alguns tipos de câncer. No contexto de gestão de saúde, a aplicação correta e coletiva das vacinas permite reduzir custos de tratamento, número de consultas no ambulatório, intervenções médicas e hospitalizações.

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