Rafael Mendes, CEO da Vision One: “Na saúde, falta valorizar mais a cultura das instituições”

Rafael Mendes, CEO da Vision One: “Na saúde, falta valorizar mais a cultura das instituições”

Rede de hospitais e clínicas de oftalmologia tem focado na cultura da empresa e aquisições para ter um crescimento eficiente

By Published On: 27/03/2024
Rafael Mendes, CEO da Vision One, fala sobre as estratégias da empresa para ganhar mercado.

A oftalmologia é uma das especialidades da medicina que consegue ter uma estrutura independente, com redes de hospitais e clínicas que atuam sem uma vinculação aos grandes grupos da saúde. Essas redes realizam exames, diagnósticos, cirurgias e pós-operatório, atendendo o paciente de forma integral. Apesar de ser um mercado bem definido, existe espaço para crescimento, aumentando acesso da população aos serviços. Essa constatação é de Rafael Mendes, CEO da Vision One, em entrevista ao Futuro da Saúde.

A empresa nasceu após um investimento do fundo de private equity da XP para a compra do CBV, hospital referência de Brasília, e a fusão com o Grupo H.Olhos, uma das maiores redes de saúde ocular em São Paulo. Hoje, possui uma rede especializada em oftalmologia que realiza 4 milhões de procedimentos e mais de 1,5 milhão de consultas por ano. Ao longo da conversa, o CEO analisou, dentre outros temas, o cenário dos hospitais oftalmológicos, as inovações desse mercado e o impacto da crise dos planos de saúde. Ainda, trouxe perspectivas sobre os planos da Vision One para 2024, em busca de expandir seus negócios, que hoje conta com 50 unidades em 10 estados e o Distrito Federal.

Para o executivo, uma das principais estratégias para atingir novos públicos é através da informação. Ele afirma que um exemplo disso foi quando o jornalista e apresentador Tiago Leifert e sua esposa, a jornalista Diana Garbin, falaram nas redes sociais sobre o diagnóstico de retinoblastoma de sua filha, Lua, então com 1 ano. A doença é um tipo raro de câncer que afeta os olhos e atinge crianças antes dos 5 anos. “Após a divulgação, tínhamos uma fila de meses de espera para consultas pediátricas“, explica Mendes.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Hoje o mercado se movimenta entre hospitais gerais e hospitais especializados. Como a Vision One se posiciona nesse sentido?

Rafael Mendes – Antes de entrar na saúde ocular, eu estava em oncologia. Durante sete anos fui CEO do grupo Oncoclínicas. Se você olhar o mundo, os maiores centros especializados são hospitais especializados. Um dos maiores centros de câncer do mundo, o MD Anderson, é um hospital especializado. Quando você vai para o Brasil, na época quando a gente ajudou a desenvolver a tese da Oncoclínicas, os principais centros de câncer do país eram dentro de hospitais gerais. Na oftalmologia também não é muito diferente disso. Se você pegar os principais centros de oftalmologia do mundo, eles são hospitais especializados, como Wills Eye Hospital e Bascom Palmer. No Brasil, os hospitais gerais nunca tiveram uma grande relevância dentro da oftalmologia. A oftalmologia sempre foi apartada, nunca foi de dentro. Normalmente são hospitais antigos, os fundadores trouxeram técnicas que aprenderam fora do Brasil, criam reputação e crescem. Por ser uma especialidade onde conseguimos ter toda jornada do paciente conosco, acaba tendo um diferencial importante para o mercado e para o próprio paciente. 

Vemos que grandes fundos de private equity têm investido em áreas específicas da saúde, como oftalmologia e odontologia. Como você avalia esse cenário?

Rafael Mendes – Os fundos na verdade acabam investindo em todos os setores. Se você olhar o percentual de investimentos privados no Brasil, a área da saúde comparada com o PIB é a menor, apesar de ser um setor resiliente, com demanda e que precisa de investimentos para se desenvolver e crescer. Mas ao mesmo tempo, é um setor regulado e complexo, que a relação com meu cliente é uma relação especial, falando com um ser humano, de tratar algum problema da saúde dele. Não estou vendendo um livro para ele. Então, tem toda uma complexidade, uma tensão mais especial para a saúde versus outros setores, e por isso que, por um lado tem uma complexidade e desafios maiores, por outro lado é tão fascinante e apaixonante para quem está dentro da saúde.

Você foi CEO da Oncoclínicas. Quais as similaridades e diferenças com o trabalho na Vision One?

Rafael Mendes – Nos dois projetos a gente está falando da criação de uma empresa em um mercado extremamente fragmentado, com o objetivo de juntar formadores de opinião para montar um grupo forte e ganhar escala, podendo acelerar crescimento e expandir, mas principalmente focar em qualidade, acreditação, gestão, eficiência, e medição de indicadores. Ambos nasceram de médicos, são projetos onde a ideia de criação da rede veio deles, não foi uma tese que veio do financeiro. Quando você tem uma empresa que a origem dela são várias empresas de qualidade, a nossa vida facilita muito, porque não preciso ter que corrigir ou criar uma melhor prática. Na verdade, preciso que as pessoas se falam para elas mesmas. Como elas são já referências nacionais, criando essa comunicação e uma troca de conhecimento entre as próprias unidades. A integração é uma parte bem desafiadora. Você não ser um monte de empresas, ser uma única, com uma cultura única e com modelo de gestão, sabendo realmente usufruir dos benefícios de ser um grande grupo. O grande valor que tem nessa criação da empresa focando em ativos de qualidade é que seu trabalho é simplesmente promover a comunicação e a melhor prática, e eles mesmos vão descobrindo e melhorando hospitais e clínicas que já são muito bons.

Você também é Membro do Comitê de Inovação & Tecnologia do Sírio. Qual a importância desta atuação para a forma como você atua como CEO?

Rafael Mendes – Às vezes a gente toma decisões muito enviesadas. Aliás, às vezes não, sempre a gente tem um viés, é normal. Todo ser humano tem. Como é que você acaba com isso? Com outras visões. Ou você se força a olhar de uma outra forma, ou você corre atrás de uma outra forma ou você traz pessoas que te trazem outra visão. Por isso da importância de ter um time diverso. Na Vision One, valorizamos muito a questão da diversidade, de ter gente de dentro e fora da saúde, que já participou de grande grupo ou que vem das clínicas e dos hospitais, que cresceu junto com o hospital que era pequeno e se tornou uma grande referência. Quando a gente começou esse projeto dentro da oftalmologia, eu queria muito trazer algumas experiências que pudessem me dar uma visão mais ampla para algumas decisões. E, no futuro, não tem jeito, a saúde e tecnologia vão andar juntas. Fazer gestão é você ter indicadores, saber o que está acontecendo, medir e tomar decisão baseada em dados. Tem que transformar esse dado em informação e ele tem que ser confiável e comparável. Tem que investir em tecnologia. Quando o Sírio passou por um momento de reestruturação de governança, eles criaram alguns comitês com pessoas de fora para trazer uma visão diferente em temas específicos. E aí fui convidado para participar do comitê de inovação e tecnologia, muito pela minha atuação como investidor e investidor-anjo em várias startups, principalmente em saúde. O Sírio é considerado um dos melhores da América Latina e me traz muito conhecimento e projetos, que acaba também me ajudando a pensar na própria Vision One. Também sou conselheiro de duas empresas de saúde, uma de fertilidade e outra de ortopedia. Trazem desafios similares, juntando clínicas e instituições de saúde de referência, mas não atuo no papel de gestor, de dia a dia e execução. Atuo em um papel mais estratégico, só que as dores que eles têm eu já tive ou vou ter. É uma oportunidade dentro de um conselho também discutir como resolver.

E a Vision One acaba tendo proximidade com hospitais gerais de referência?

Rafael Mendes – Sim. Toda a cirurgia obviamente tem todo um processo legal e compliance, o paciente tem que fazer os exames para ver se está apto a fazer a cirurgia. Há pacientes que, obviamente, precisam de um tratamento especial ou é mais seguro estar dentro do hospital. Temos hospitais de referência para os quais encaminhamos para algumas cirurgias e fazemos parcerias. Tem uma relação com os hospitais gerais também, caso tenha alguma intercorrência. É raríssimo, mas tem todo um processo de segurança do paciente para encaminhar. Além disso, obviamente que por mais que a oftalmologia seja um mundo à parte, muitos tratamentos hoje acabam se correlacionando. Por exemplo, o problema da retina com a questão da diabetes. Cânceres oculares que são bem raros, mas são cânceres bem complexos de serem tratados, acaba tendo que trabalhar também com médicos de outras especialidades que estão muitas vezes em hospitais gerais. Mas a cirurgia oftalmológica tem um um processo tão diferente que fazer ela dentro de um centro cirúrgico em hospital geral é capaz de atrapalhar mais do que ajudar.

Quais as maiores dificuldades de negócios nesse setor?

Rafael Mendes – São as mesmas dores da saúde. Hoje, os maiores desafios são as operadoras que estão em momento especial, tendo reajustes e com seus desafios de sinistralidade. E nós, como prestadores, faz parte do nosso papel também ajudá-los, tentar evitar de fazer cirurgias que normalmente não precisaria, fazer uma medicina sustentável. Tratar o paciente da melhor maneira possível. Não deixar de oferecer nenhum tipo de tratamento, mas também fazer um protocolo que seja honesto, decente e eficiente. O modelo da saúde suplementar hoje está vivendo uma série de transformações. Temos um desafio importante de inflação. Se você olhar, por exemplo, para a tecnologia de dados, ela veio para democratizar. Muitas vezes permitir você ter um Terabyte de armazenamento pagando dezenas de reais por mês, isso era inimaginável no passado. A tecnologia veio para baratear muitos serviços. Mas quando você olha para a saúde, as últimas drogas para oncologia e outras áreas, elas chegam para ajudar em um tratamento ou cura de uma doença, mas normalmente atrelada a um custo maior do que temos.

E como isso se sustenta?

Rafael Mendes – Aí entra o nosso papel de gestores da saúde. Preciso ser eficiente, tratar mais pacientes, mas sabendo que a gente tem um equipamento ou uma droga de alta tecnologia que vai custar mais. Precisamos tentar utilizar essa solução de maneira mais eficiente, reduzindo todo o resto da cadeia. Tentando ganhar escala, fazer mais com menos mas sem perder a qualidade. Esse é outro grande desafio da saúde. E especificamente dentro da Vision One, que é uma empresa que cresce muito rápido, é crescer com qualidade. Saímos de 250 pessoas para 4.500 pessoas em menos de quatro anos. É muito rápido. O desafio é crescer, mas como é que está a satisfação do colaborador, a qualidade, o paciente e os nossos desfechos? Como é que estão as nossas integrações administrativas, processos e cultura? Um dos desafios é esse. Como a gente pode crescer e crescer sustentável, mantendo a qualidade, não só assistencial, mas de gestão mesmo. Desenvolver as pessoas, criar uma carreira onde eles possam crescer, melhorar processos, não dependendo de uma pessoa ou outra. Que a gente não tenha um monte de silos dentro da empresa, seja uma cultura única. Os gestores da saúde muitas vezes não dão o valor devido à cultura como deveria ser feito. Toma tempo, é pela ação no dia a dia. 

O que de mais inovador temos visto na área da oftalmologia?

Rafael Mendes – Se você olhar a oftalmologia há 30 ou 40 anos, era totalmente diferente. Por exemplo, toda a parte de retina teve uma evolução muito grande nos últimos anos, principalmente por alguns equipamentos de diagnóstico e alguns tratamentos. A degeneração ocular era uma doença muito complicada de ser tratada e hoje temos tratamentos bastante eficientes. Se você olhar a própria catarata, é uma cirurgia extremamente segura e evoluiu muito. Começa a entrar no mundo agora o que a gente chama de cirurgia facorrefrativa. Muitos pacientes, dependendo da idade e obviamente de orientação médica, podem fazer uma cirurgia antes mesmo da catarata estar no momento de ser operado, e já trocar o cristalino por uma lente para você não ter o problema do óculos, antecipando potenciais problemas. Tem uma evolução muito grande e contínua. Estamos vendo vários equipamentos novos chegando, tanto de diagnóstico como equipamento cirúrgicos. Temos visto uma evolução grande também nas próprias lentes, porque quando a gente fala de lente intraocular, estão cada vez mais customizadas para a situação e especificidades dos pacientes. Para dar uma visão boa independente de alguns parâmetros ou condições que ele tenha. Cada vez mais vemos lentes mais modernas e corrigindo deficiências do passado também. Há soluções interessantes para a área de glaucoma também, que é uma doença irreversível de pressão alta nos olhos. Os stents já estavam há algum tempo no mercado, mas estão se tornando mais usuais e entraram no rol da ANS. Fora os colírios, que vêm se desenvolvendo e ganhando novas fórmulas.

A gente já vê coisas como a utilização de inteligência artificial, gadgets, etc?

Rafael Mendes – Temos feito um trabalho na área de retina. Temos uma quantidade enorme de informações e pode ocorrer de algum exame passar despercebido. Temos feito alguns estudos e no mundo também existem vários deles sobre leitura através de inteligência artificial de diagnósticos de imagem, para ajudar os médicos a tomarem decisões ou identificarem alguns casos. No fundo, a gente sempre vai precisar do médico, não só pelo conhecimento técnico mas pela relação humana, mas a ideia é que a IA ajude a fazer um trabalho mais eficiente.

Ainda tem espaço para crescimento dentro do mercado da oftalmologia? 

Rafael Mendes – Mesmo sendo uma das maiores empresas de oftalmologia do Brasil, a gente ainda tem muito espaço para crescimento. O mercado ainda é muito fragmentado, tem muito potencial. O setor de saúde como um todo, e a oftalmologia se inclui nisso, tem muito potencial de crescimento com ampliação de acesso. Em algumas das nossas unidades, por exemplo, implementamos algumas tecnologias que só existiam em capitais e estamos possibilitando em cidades do interior. Tem um desafio de continuar apoiando e crescendo junto aos empresários e médicos empreendedores. 

Qual o caminho, abrir clínicas e hospitais próprios ou seguir com aquisições?

Rafael Mendes – O projeto da Vision One desde o começo era juntar formadores de opinião pelo Brasil e fizemos isso. Uma vez que você juntou, a gente quer expandir o acesso à saúde ocular de qualidade e podemos fazer isso com marketing, conscientização e com capilaridade. Nossa estratégia é continuar associando mais hospitais referências nas suas regiões para dentro da Vision One, porque cada hospital que entra a gente não só ganha essa capilaridade, mas ganhamos o conhecimento dos hospitais para nos ajudar cada vez a ser mais eficientes e melhores. Usamos o termo associação porque os sócios não vendem, eles trocam ações dos hospitais por ações do grupo. Mas temos construído novas unidades também e feito essa expansão.

Em entrevistas alguns anos atrás, porta-vozes da Vision One falavam em IPO em 2024. Isso está nos planos para este ano?

Rafael Mendes – Essa é uma questão mais acionista. Obviamente, sabemos quais fundos e empresas gostam da Vision One ou investiram em outras empresas. O que a gente fala para o time é fazer a nossa parte: continuar crescendo, saudável, eficiente, com qualidade, trazendo gente boa, inovando, investindo em tecnologia, trazendo esse essa cultura saudável ambiente seguro. Nosso foco como gestores é isso. Construir uma empresa incrível para que daqui alguns anos haja investidores querendo a Vision One. O caminho que vier vai ser bem-vindo e esperamos que seja produtivo para continuarmos o caminho que temos traçado.

Rafael Machado

Jornalista com foco em saúde. Formado pela FIAMFAAM, tem certificação em Storyteling e Práticas em Mídias Sociais. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou no Portal Drauzio Varella. Email: rafael@futurodasaude.com.br

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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