Quatro principais aprendizados do 7º Fórum Latino-Americano de Qualidade e Segurança na Saúde

Quatro principais aprendizados do 7º Fórum Latino-Americano de Qualidade e Segurança na Saúde

O 7º Fórum Latino-Americano de Qualidade e Segurança na Saúde, […]

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By Published On: 21/09/2022

Alunos do curso de medicina leem Carta dos Estudantes no CEO Day. Foto: Fabio H Mendes/Einstein

O 7º Fórum Latino-Americano de Qualidade e Segurança na Saúde, realizado entre 12 e 15 de setembro em São Paulo, reuniu lideranças nacionais e internacionais para debater temas que têm impactado o dia a dia dos gestores de saúde. Um dos principais pontos de discussão foi a sustentabilidade no setor, com foco nas decisões que integrem os aspectos ambiental, social e de governança de operação.

“Nesse ano, nosso maior objetivo era fazer com que as pessoas saíssem do evento levando uma mensagem forte, que modificasse algo dentro delas, para fazer a diferença no mundo”, conta Miguel Cendoroglo, diretor superintendente médico e de serviços hospitalares do Einstein. A iniciativa é uma realização conjunta entre a instituição brasileira e o Institute for Healthcare Improvement (IHI), dos Estados Unidos.

O evento contou ao todo com 35 trilhas de conhecimento, entre apresentações, dinâmicas e debates para troca de experiências, com a expectativa de pensar em soluções e levantar desafios para influenciar as boas práticas para cada vez mais instituições e profissionais. Conheça os quatro principais aprendizados que o fórum trouxe:

Saúde humana é dependente da saúde planetária

Em julho, as temperaturas altíssimas, chegando a mais de 40 graus, pegaram os países europeus de surpresa – para se ter ideia, o Instituto Britânico de Meteorologia havia feito a previsão de temperaturas como essas para 2050 – levando à morte de mais de 1.700 pessoas. Nos EUA e na Ásia, uma onda de calor também fez a população sofrer com secas e mortes. E esse parece ser só o prelúdio do que o mundo todo deve esperar em termos de eventos climáticos extremos. 

Para Cendoroglo, não há dúvidas de que é preciso cuidar do planeta para cuidar das pessoas que o habitam: “As mudanças climáticas, que têm consequências como chuvas, deslizamentos, enchentes, falta de água e os choques térmicos, são uma das principais causas de sofrimento humano. Com elas, vêm também infecções, viroses e doenças parasitárias. As questões ambientais são um assunto urgente, que já está trazendo problemas e a corda rompe do lado da saúde sempre”.

Ele aponta que a indústria da saúde pode fazer mais em termos de contribuir com a redução da pegada de carbono, por exemplo, mas lembra que a saúde planetária vai além do meio ambiente. “Vale lembrar que questões geopolíticas, como as guerras, também afetam diretamente a saúde. No fórum, tivemos a participação emocionante de Olesya Vynnyk, uma médica ucraniana que contou como os profissionais de saúde estão tendo que resistir para conseguir cuidar das muitas pessoas que precisam de ajuda por lá”, aponta. “Trouxemos esse contexto porque temos que olhar para o todo”.

Equidade não é apenas acesso à saúde

As diferenças sociais e a falta de acesso da população a emprego, educação e à própria saúde também trazem uma carga de doenças e problemas. O evento contou com a participação de Jesus Peinado, médico peruano que relatou como tem trabalhado com populações vulneráveis e como o país está lidando com as questões de diversidade e inclusão.

Outro painel teve a presença da coordenadora da saúde populacional do Einstein e professora de medicina da USP, Dulce Pereira de Brito, que trabalha com atenção primária e saúde mental e que olha especificamente para a questão racial. Ela trouxe o tema do racismo estrutural ao evento.

“A equidade não é só no acesso à saúde, mas engloba a sociedade como um todo. O Einstein tem um projeto de atenção hospitalar no SUS que consiste na administração do hospital Mboi Mirim, mas não imaginávamos o impacto que o hospital teria na sociedade. Além de empregar pessoas a seu redor, ele passou a ser um lugar que oferece educação, cultura e esporte para a população. O IDH local subiu, a violência foi reduzida e entendemos que mais do que cuidar dos doentes, é possível impactar o bem-estar social”, conta Cendoroglo.

Ele também aponta os Programa de Diversidade e Inclusão da instituição como exemplos de humanização que vão além do atendimento ao paciente, como as vagas voltadas para a população LGBTQIAP+ e aos egressos do sistema prisional: “Temos parcerias com ONGs das quais temos muito orgulho. Estamos oferecendo, gratuitamente, um programa para melhorar a empregabilidade de pessoas trans e uma parte desses profissionais será absorvida pelo Einstein. Queremos ser um exemplo para que mais instituições façam o mesmo”.

Troca de experiências entre gerações e instituições é fundamental

Outro grande destaque, como ressalta Miguel Cendoroglo, foi a exposição da visão das gerações mais novas durante CEO Day, em que alunos do curso de medicina leram a intitulada Carta dos Estudantes às lideranças executivas, pedindo uma melhor administração de recursos, a reflexão sobre os impactos de seus produtos e serviços no mundo, a responsabilidade corporativa e uma proposta de união para transformar a realidade do planeta. A partir desse documento, foram compostas mesas de trabalho para pensar em soluções.

“A geração Z está sendo e ainda será muito afetada pelas consequências de tomadas de decisões anteriores a seu nascimento e estão cobrando um posicionamento. É uma geração que precisa ser ouvida, que não tolera mais discriminação, que tem uma visão de mundo madura, fluida e humana. Temos que aprender e dar espaço a eles”, comenta o diretor. Todo o material produzido no CEO Day foi registrado e compilado para gerar um documento que poderá ser publicado pelos estudantes.

Fórum Latino-Americano
Foto: Fabio H Mendes/Einstein

Não apenas a troca de experiências entre gerações foi alvo de debate, mas também entre as instituições. Neste ponto, Cendoroglo ressalta dois momentos: “No workshop com lideranças de enfermagem liderado por Claudia Laselva, diretora de Práticas Assistenciais do Einstein, os profissionais saíram com um compromisso firmado na questão de formação, força de trabalho assistencial e diretrizes para melhorias. Também no Think Tank de Políticas Públicas, onde tivemos a participação de secretários de saúde, ministros e ex-ministros, além de representantes do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, foi discutida a Declaração de São Paulo e eles também criaram um documento e novas propostas”.

Para mudar, é preciso tocar os corações

Nos dias de hoje, a palavra propósito tem ganhado cada vez mais força. Durante o fórum, além das informações sobre o setor de saúde, o envolvimento de pessoas ligadas a diversos projetos mostrou um pouco do valor das ações realizadas e das conexões reais que elas criam. De acordo com Cendoroglo, a população de Paraisópolis – segunda maior comunidade da cidade de São Paulo, onde a instituição se faz muito presente – ficou responsável por encantar quem passasse pelo fórum, com os shows de abertura e fechamento dos dias de encontro, e performances nos momentos de descanso.

“Tivemos a participação do coral, do grupo de hip hop, do balé de crianças e adultos. Foi muito significativo porque a instituição tem uma ligação forte com a comunidade. E sabemos que não basta oferecer um cursinho para dar mais oportunidades de trabalho, temos que incentivar o que há de melhor em cada um. Daqui, pode sair um bailarino do Bolshoi e uma vencedora do Prêmio Nobel”, afirma.

Outro momento importante foi a entrega do Prêmio Júlia Lima, criado a partir de um caso de falha assistencial, com o objetivo de reconhecer ações voltadas à promoção da segurança do paciente implantadas com sucesso. Em 2022, o projeto vencedor foi voltado à segurança do paciente em uma UBS.

Os conteúdos emocionais impactaram os participantes do evento: “Esse tipo de intervenção faz com que todos tenham mais vontade de se conectar. A melhor forma de gerar valor não é apenas usando o cérebro, mas estabelecendo conexões. A sociedade, unida, tem mais força do que cidadãos sozinhos. E as pessoas se juntam pela emoção, não pela razão. O fórum foi catalisador para que as pessoas se engajem”, conclui.

O 7º Fórum Latino-Americano de Qualidade e Segurança na Saúde

O evento é uma realização do Hospital Israelita Albert Einstein em parceria com o Institute for Healthcare Improvement (IHI), organização sem fins lucrativos sediada nos Estados Unidos, atuando como promotora, parceira e impulsionadora de resultados na melhoria da saúde há mais de 30 anos.

Em sua primeira edição feita de forma híbrida, depois de mais de dois anos de pandemia e encontros virtuais, o encontro reuniu cerca de 2.000 pessoas no recém-inaugurado prédio do centro de ensino e pesquisa do Einstein e mais 1.000 participantes de forma online. O público foi composto por lideranças de saúde no Brasil e na América Latina.

Miguel Cendoroglo ressalta que a parceria com o IHI, existente desde 2015, tem ajudado o Einstein a melhorar processos e até mesmo a alcançar melhores posições nos mais diversos rankings. Mas que esses, apesar de importantes, não são os pontos que mais motivam a instituição:

“O reconhecimento é uma verificação de que estamos no rumo certo, mas trabalhamos baseados em propósito. O IHI realiza fóruns na Europa e nos EUA há muitos anos e nosso sonho era trazê-lo para a América Latina. É nesse tipo de evento que nos juntamos para trocar ideias e transformar a saúde para melhor. Nesse ano nós atingimos esse objetivo”.

Ana Carolina Pereira

Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ao longo de sua carreira, passou por veículos como TV Globo, Editora Globo, Exame, Veja, Veja Saúde e Superinteressante. Email: ana@futurodasaude.com.br.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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