Quando ansiedade e tristeza de crianças e adolescentes devem ser uma preocupação para os pais

Ansiedade ou tristeza não são transtornos, são emoções normais. Em um momento como o que estamos vivendo, é absolutamente normal que exista um aumento dessas emoções. Quando ficar alerta?

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Em tempos de pandemia, que afeta diretamente as nossas emoções e comportamentos, pais estão mais e mais preocupados que seus filhos possam desenvolver um transtorno de ansiedade ou depressão em silêncio e que eles não percebam. A mídia vem contribuindo para isso: notícias frequentes de que os jovens estão mais ansiosos e deprimidos. Como se não bastasse, há o receio, também estimulado pela mídia, de que o uso da internet pode levar crianças e adolescentes a um caminho sem volta de doença mental. Preocupações pertinentes, mas que devem ser relativizadas.

Ansiedade ou tristeza não são transtornos, são emoções normais. Em um momento como o que estamos vivendo, é absolutamente normal que exista um aumento dessas emoções. Choro ou medos eventuais, sensação de que as coisas não têm tanta graça, irritação pelas festas e viagens perdidas e momentos de isolamento são esperados. Temos aí um estressor claro (a falta de encontrar os amigos, a preocupação com os avós ou várias outras situações adversas) e um sentimento que sinaliza o processamento desse estressor. Ótimo que estejam sentindo e expressando as emoções.

O que fazer?

Não podemos ter medo de que tenham esses sentimentos, nem nos assustarmos e logo pensar que precisamos “resolver”. É preciso acreditar nos recursos das crianças e adolescentes e oferecer suporte.

  • Primeiro, ouvir. Ouvir atentamente, em silêncio, com interesse.
  • Fazer perguntas que demonstram genuíno interesse de entender completamente o que está ocorrendo.
  • Se for pertinente, depois de ouvir, pode-se contar uma experiência similar que você tenha vivido e como resolveu.
  • Não se deve ouvir para logo dizer: “pare de ficar triste” ou “existem pessoas sofrendo mais do que você”. Essas são frases comuns ditas pelos pais, que logo querem resolver o problema do filho, mas que na verdade não validam o sofrimento que aquele indivíduo, naquele momento, está experimentando.

Experimentar a emoção é fundamental. Além disso, algumas estratégias objetivas são muito úteis para lidar com a ansiedade ou a tristeza: relativizar o estressor, mudar a perspectiva e olhar para os aspectos positivos, lidar com o estresse, buscar atividades que sejam positivas, movimentar-se, aumentar a conexão social e reduzir o sentimento de solidão, diminuir o perfeccionismo e a necessidade de controlar tudo a sua volta, regularizar o padrão de sono. Pais podem e devem fazer isso.

Quando ficar alerta?

  • Quando a ansiedade e tristeza ocorrem sem um motivo aparente, ou quando o motivo é relativamente pequeno para a reação que o jovem está tendo, ou ainda quando o estressor já ocorreu há muito tempo, e a “ferida” continua aberta, temos um sinal de alerta.
  • Aumento de tristeza ou de irritabilidade, que passam a ocorrer a maior parte do tempo, chamam a atenção, mesmo que melhorem momentaneamente em um momento agradável.
  • Crises de raiva, brigas, mau-humor, podem ser sintomas de depressão.
  • Tristeza que leva ao choro frequente, que vem acompanhada de pensamentos de que não há saída, não há futuro, as coisas não irão melhorar, é um sinal de grande alerta.
  • Pensamentos negativos, depreciativos sobre si próprio são também indicativos importantes.
  • Falta de vontade de conversar com amigos, isolamento, alterações do sono (dormir mais ou menos), de apetite (comer mais ou menos), cansaço, falta de energia, dores e mal-estares, aumento de preocupações ou medos podem indicar depressão.
  • Se há pensamentos frequentes sobre a morte, ou mesmo com ideias de tirar a própria vida, a procura de um profissional especializado é urgente. A depressão é o conjunto dessas manifestações, que ocorrem de forma persistente ao longo de um período de tempo, não apenas uma tristeza ou ansiedade eventual.

Alterações de humor como as descritas acima muitas vezes vêm acompanhadas por ansiedade. Ansiedade é ter medo ou preocupações excessivas. Medo de animais, de altura, de lugares fechados que impedem que a criança ou adolescente se encontre com esses estímulos ou que gere ansiedade intensa. Preocupação com a escola, com os pais é esperada, mas preocupação quase que constante, que ocorre mesmo em momentos sem pressão, pode refletir um transtorno de ansiedade.

Preocupações com a segurança, com a saúde, com o aquecimento global, em se expor socialmente, a lista é interminável. Acreditem, há crianças e adolescentes que se preocupam com tudo isso, e muito mais. Frequentemente não contam para ninguém, eventualmente deixam escapar algum sinal, e sofrem em silêncio. Estes são sinais de transtornos de ansiedade e devem ser avaliados por um profissional especializado.

Em todas as situações – manifestação normal de emoções ou presença de transtornos – o apoio e suporte dos pais é fundamental. Estar aberto para ouvir o sofrimento do filho, acreditar nos seus recursos e juntos, trabalharem para superá-lo, tornará o caminho mais fácil, prazeroso, e muito frequentemente, levará a criança ou adolescente para estágios mais avançados de desenvolvimento do que estava anteriormente. Claro que não estou minimizando a importância de ajuda profissional. Em algumas situações, não haverá melhora sem tratamento especializado adequado. Estudos em nosso país mostram que a enorme maioria das crianças e adolescentes com transtornos mentais não recebe tratamento. O que os estudos também mostram é que a relação com os pais, os seus modelos familiares de como lidar com as emoções e com as relações, o diálogo e a rotina familiar, são as bases para o desenvolvimento saudável do ser humano. Algo insubstituível, que deve ocupar a mente de todos os pais. Uma vez que pais estejam verdadeiramente conectados com seus filhos, oferecendo as bases necessárias para o seu desenvolvimento, muito provavelmente perceberão se eventualmente um transtorno mental se instalar.

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