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Psicodélicos na saúde: healthtechs investem na pesquisa para tratamento de doenças mentais

Pesquisas para uso medicinal de substâncias psicodélicas aumentam. No Brasil, legislação proibitiva inibe negócios, mas produção científica segue alta

               
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Se você perguntar a qualquer pessoa se ela conhece o que são psicodélicos, corre o risco de ouvir respostas de dois tipos de pessoas: aquelas que pouco sabem sobre o assunto (embora reconheçam o nome “ecstasy”) e as que lembram – horrorizadas – de drogas como LSD e mescalina, símbolos da contracultura e dos jovens que encheram os shows do festival americano Woodstock, em 1969.

Os dois contextos não estão errados. Afinal, foi justamente por conta do festival, marcado pelo uso excessivo de drogas – entre elas, as psicodélicas –, que o então governo conservador de George Nixon empreendeu uma caça às bruxas e a demonização dessas substâncias, que acabaram, assim, sendo proibidas e criminalizadas em todo o mundo.

Até o começo da década de 1960, no entanto, elas estavam na mira da ciência, que tentava descobrir o possível potencial terapêutico dessas substâncias. “Elas ficaram de lado por cerca de 40 anos”, afirma o biomédico Renato Filev, pesquisador do Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Segundo ele, apenas em 2010 houve um “renascimento” das substâncias psicodélicas, com novas pesquisas e trabalhos científicos analisando o potencial medicamentoso – e não recreativo – de substâncias como a psilocibina, o MDMA (metilenodioximetanfetamina, popularmente conhecida como ecstasy), a cetamina (ou ketamina), a ayahuasca e a ibogaína, em especial nos casos de transtornos como depressão, ansiedade, TEPT (transtorno do estresse pós-traumático) e vício em outras substâncias.

O crescente número de estudos científicos, claro, chamou a atenção do mercado de startups, que passou a olhar essa área com carinho e a investir cada vez mais nas pesquisas dessas substâncias – que atuam no sistema nervoso por meio dos receptores de serotonina, alterando a consciência e a percepção sensorial, criando experiências muitas vezes descritas como “transformadoras” ou de êxtase espiritual.

Valor de mercado crescente

Uma das principais razões pelas quais as substâncias psicodélicas voltaram a ser tema de estudos é o aumento dos casos de transtornos mentais entre a população, que não são resolvidos com os medicamentos disponíveis atualmente.

“Diante disso, o caminho natural é buscar alternativas, e os psicodélicos se mostraram muito relevantes”, avalia Lívia Goto Silva, pós-doutoranda do Idor (Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino), que atualmente analisa o resultado da combinação da escetamina (ou esketamina), primeiro antidepressivo em spray nasal e já aprovado para uso no Brasil, associado a sessões de psicoterapia. “É um uso diferente do que foi proposto, mas acreditamos que melhora o efeito da substância”, afirma.

A cetamina já estava em uso nos EUA desde 2019, quando foi recomendada para tratar pacientes com depressão resistente – ou seja, que não responde aos medicamentos tradicionais. Em 2020, o estado de Oregon autorizou, por meio de plebiscito, a fabricação e o uso terapêutico da psilocibina, substância alucinógena extraída de cogumelos.

É um mercado que, de acordo com analistas, têm um grande potencial de crescimento nos próximos anos. Dados recentes da consultoria Data Bridge Market Research, por exemplo, indicam um crescimento anual de 13.3% entre 2022 e 2029, quando o setor deve chegar a valer US$ 8,02 bilhões. Outra análise, dessa vez feita pela Research and Markets, projeta os mesmos 13,3% de crescimento médio anual e estima que, até 2026, o mercado de psicodélicos atingirá valor de US$ 7,58 bilhões.

É com essa expectativa de valorização que algumas healthtechs têm investido nas pesquisas e aplicações dos psicodélicos pelo mundo. A Atai Life Sciences, por exemplo, uma startup especializada em biotecnologia apoiada por Peter Thiel, ninguém menos que o fundador do PayPal, realizou seu primeiro IPO nos EUA e conseguiu uma capitalização de mercado de US$ 3.1 bilhões logo em sua estreia.

Com sede em Berlim, a empresa comanda algumas entidades que direcionam seus estudos dentro do universo de substâncias psicodélicas. Uma das mais conhecidas, chamada de COMPASS Pathways, anunciou, no fim do ano passado, resultados positivos de estudo de fase 2, randomizado, controlado e duplo-cego utilizando doses de psilocibina e psicoterapia em pacientes com depressão resistente.

Já a DemeRx NB, outro braço da Atai, investe nos estudos da noribogaína, substância semelhante à ibogaína (composto da planta africana Tabernanthe iboga), para tratar o vício em opióides. Há ainda mais nove organizações associadas à empresa que realizam estudos na área.

Mas as pesquisas não são o único foco dessas startups. A canadense Mind Cure Health Inc., por exemplo, investe no desenvolvimento de tecnologias digitais que possam auxiliar a terapia realizada com psicodélicos. Caminho semelhante à da americana TRIPP, que utiliza imagens, sons e experiências virtuais e psicodélicas para tratar depressão, ansiedade e vício em outras substâncias e, recentemente, adquiriu a PsyAssist, plataforma que apoia terapeutas e pacientes durante o tratamento assistido com cetamina.

Psicodélicos na saúde no Brasil

Ao contrário do que acontece lá fora, o Brasil ainda dá passos pequenos em direção ao uso dos psicodélicos como alternativa para transtornos mentais. Além da barreira cultural, que ainda enxerga essas substâncias como algo perigoso e que pode provocar surtos psicóticos, a legislação brasileira mantém ilegal o uso de praticamente todas as substâncias que estão sendo pesquisadas atualmente.

“É um mercado muito aquecido, com empresas estrangeiras querendo colocar medicamentos no mercado para o consumidor final, mas por aqui ainda muito preliminar”, avalia Rafael Guimarães dos Santos, professor e orientador no Programa de Pós-Graduação em Saúde Mental da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto.

Santos, que foi listado recentemente como um dos maiores pesquisadores de alucinógenos do mundo pelo portal Expertscape, que classifica pesquisadores com base em sua produção científica, atualmente está à frente de dois estudos que buscam voluntários. Um para analisar os efeitos da cetamina em comparação com a ayahuasca no tratamento para depressão; outro sobre o uso da ayahuasca em universitários com histórico de consumo abusivo de álcool.

Utilizada há séculos por indígenas na Amazônia e por décadas em cultos religiosos como Santo Daime e Barquinha, a ayahuasca tem autorização para ser consumida durante esses rituais. O preparo é feito com folhas de duas plantas amazônicas: a chacrona (Psychotria viridis) e um cipó chamado de jagube ou mariri (Banisteriopsis caapi). Os efeitos alucinógenos são provocados pela DMT (dimetiltriptamina), encontrada nas folhas da chacrona.

A facilidade de acesso à bebida alucinógena levou o país a ser um dos principais produtores de pesquisas em psicodélicos no mundo todo, com centros de estudo em universidades como a UFRN (no Rio Grande do Norte), a UFBA (na Bahia) e a UFRJ (no Rio de Janeiro, em parceria com o IDOR – Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino), além de outros núcleos em São Paulo.

Além da ayahuasca, há outras pesquisas em andamento com psilocibina, cetamina, ibogaína e MDMA para ver o impacto do seu uso em transtornos como depressão, ansiedade, vício em álcool e crack e estresse pós-traumático.

Startup brasileira

É justamente para direcionar essa pesquisa científica rica e não deixá-la morrer dentro dos muros das universidades que nasceu a Scirama, primeira – e, até agora, única – startup brasileira envolvida no mercado de substâncias psicodélicas. A empresa se descreve como tendo base biotecnológica e visa “tornar realidade pesquisas científicas que possam trazer qualidade de vida à parcela da sociedade que aguarda por abordagens terapêuticas mais eficientes, especialmente em saúde mental.”

A empresa conta com o apoio de nomes de peso do campo de pesquisa, como o neurocientista e pesquisador Stevens Rehen, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e pesquisador do IDOR; e Sidarta Ribeiro, professor e vice-diretor do Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade Federal do Rio de Janeiro). E, além de pesquisar os efeitos dos psicodélicos para transtornos mentais, também apoia pesquisas envolvendo essas substâncias com foco em doenças neurodegenerativas e inflamatórias.

De acordo com Clarice Pires, CEO da startup, o objetivo é co-desenvolver tecnologias com universidades e centros de pesquisa, dando suporte jurídico até que grandes companhias se interessem e absorvam esses produtos. “Queremos transformar essas pesquisas em produtos que possam ser licenciados para a indústria farmacêutica”, explica.

Clarice Pires, Scirama. Psicodélicos na saúde.
Clarice Pires, CEO da Scirama

Pires afirma ainda que o Brasil definitivamente está na rota das grandes farmacêuticas quando o assunto são os psicodélicos. “É um dos maiores mercados de saúde do mundo e um dos que mais produz estudos sobre o tema, então, nossa relevância é mundial, sem dúvida”, acredita.

No entanto, o desafio regulatório por aqui é um empecilho que tende a deixar o avanço das coisas mais lento. “Nesse sentido, nosso papel também é estimular a conversa sobre o assunto, trazer realidade científica, dados robustos e, dessa forma, pressionar os órgãos reguladores a analisar essa demanda”, diz ela, que tem noção da urgência do assunto. “É importante que isso aconteça pois, ao final dessa trilha, existe um paciente com problemas concretos aguardando ansiosamente por um medicamento.”

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