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Problemas emocionais contagiosos: há uma nova epidemia entre adolescentes?

Eventos recentes trouxeram à tona a preocupação sobre a saúde mental de crianças e adolescentes no pós-pandemia. Com isso, surgiram novas questões: problemas emocionais podem ser contagiosos? Estamos frente a uma nova epidemia?

               
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Recentemente em uma escola de Recife, após uma aluna apresentar uma crise de asma que parece ter evoluído para uma ataque de pânico, mais de 20 adolescentes apresentaram sintomas de ansiedade intensos e tiveram de ser atendidos por serviços médicos de urgência, com necessidade de múltiplas ambulâncias e profissionais. Alguns dias depois, após uma criança cortar-se com a lâmina de uma apontador em uma escola no interior de São Paulo, 8 colegas o imitaram. Esses eventos trouxeram à tona a preocupação sobre a saúde mental de crianças e adolescentes no pós-pandemia e levantaram questões como: problemas emocionais podem ser contagiosos? Estamos frente a uma nova epidemia?

A influência dos amigos no desenvolvimento

A suscetibilidade à influência dos amigos cresce ao longo da infância e tem um pico na adolescência. Os adolescentes são especialmente sensíveis às influências dos seus pares, muito mais do que são os adultos. Há muitos estudos que mostram que um adolescente cujos amigos apresentam problemas de comportamento tem mais chances de desenvolver esses problemas ao longo do tempo.

Esse fenômeno pode contribuir para o desenvolvimento de agressividade e comportamento de desvio de regras, para comportamentos de autolesão, para a autoimagem corporal e comportamento alimentar e também para problemas emocionais como ansiedade e sintomas depressivos. Isso provavelmente ocorre através de um processo em que os jovens organizam as suas relações em torno da expressão de problemas de comportamento e seus amigos respondem de forma positiva frente ao seu discurso, estimulando que os comportamentos e as interações em torno delas continuem.

No caso de problemas emocionais, a co-ruminação, ou a discussão excessiva de problemas no contexto interpessoal, parece exacerbar emoções negativas. Não se trata de um processo simples, mas que depende de múltiplos fatores, como o quão próxima e cooperativa é a relação entre amigos, da aceitação do comportamento desviante no contexto onde os jovens estão inseridos, da dependência de um jovem em relação ao seu amigo e do quanto sente-se isolado, do monitoramento dos seus pais e da qualidade do cuidado parental, entre outros fatores.

A influência dos amigos é significativa e robusta entre diferentes contextos e comportamentos, mas a magnitude do seu efeito é pequena, ou seja, isoladamente não é suficiente para provocar problemas emocionais ou comportamentais em um adolescente. Como então podemos entender os eventos recentes?

Questão de saúde pública

A saúde mental de crianças e adolescentes é um problema de saúde pública historicamente negligenciado pelo estado, pelas escolas e pelas famílias em nosso país. Há grande desconhecimento e estigma acerca de problemas emocionais e comportamentais, bem como falta de políticas públicas, de serviços e profissionais treinados. Sistemas educacionais, de saúde e assistência social são desarticulados.

Estimativas provavelmente conservadores apontam para 15% das crianças e adolescentes com transtornos. Durante a pandemia, um monitoramento do nosso grupo de pesquisa mostrou que entre 3 crianças e adolescentes em todo o país, 1 apresentava problemas clínicos de ansiedade e depressão.

Esses jovens, sofrendo dificuldades emocionais que foram acentuados pela pandemia, estão de volta às escolas, que não contam com o preparo e a estrutura necessária para abordar os problemas de saúde mental. Depois de dois anos reclusos e praticamente sem estudar, encontram na escola a cobrança acadêmica, professores também enfrentado dificuldades emocionais, dinâmicas sociais adolescentes marcadas por conflitos, agressividade e exclusão social, intensificadas pelo longo período de isolamento.

Possibilidades

Em algum momento, então, o sofrimento emocional se expressa, e aí surgem situações como aquelas que ocorreram em Recife e no interior de São Paulo. Essa situação pode então piorar? Sim.

Não sabemos ao certo como está o estado atual da saúde mental das crianças e adolescentes no país e é possível que exista um número crescente de jovens com dificuldades sérias. Os consultórios privados e os serviços públicos especializados em psiquiatria da infância e adolescência estão com taxas superiores a 100% de ocupação nesse momento.

Se houver um aumento de casos, se situações como aquela que ocorreu em Recife se propagarem, não teremos recursos estabelecidos que possam dar conta da demanda. Há a possibilidade de que essa situação melhore? Sim.

As crianças e adolescentes apresentam uma grande capacidade de adaptação e resiliência, há muitas famílias saudáveis e recursos na comunidade. Assim como jovens com dificuldades podem transmitir seus problemas, jovens saudáveis podem propagar saúde mental para os amigos. Qualquer que seja o desdobramento, não devemos esperar para agir.

A pandemia pelo covid-19 provou que a prevenção e a identificação precoce de casos é fundamental para que tenhamos sucesso no controle da situação. O estado, a sociedade, incluindo escolas e famílias, devem se mobilizar frente a necessidade urgente de cuidar da saúde mental das crianças e adolescentes.

Referências

“Entenda a crise de ansiedade coletiva sofrida por estudantes em escola de Recife” – https://oglobo.globo.com/saude/medicina/entenda-crise-de-ansiedade-coletiva-sofrida-por-estudantes-em-escola-de-recife-1-25470881

Giletta M, Choukas-Bradley S, Maes M, Linthicum KP, Card NA, Prinstein MJ. A meta-analysis of longitudinal peer influence effects in childhood and adolescence. Psychol Bull. 2021 Jul;147(7):719-747.

Polanczyk GV, Salum GA, Sugaya LS, Caye A, Rohde LA. Annual research review: A meta-analysis of the worldwide prevalence of mental disorders in children and adolescents. J Child Psychol Psychiatry. 2015 Mar;56(3):345-65. doi: 10.1111/jcpp.12381.

Zuccolo PF, Casella CB, Fatori D, Shephard E, Argeu A, Teixeira M, Otoch L,  Polanczyk GV. Children and adolescents’ emotional problems during the COVID-19 pandemic in Brazil. Eur Child Adolesc Psychiatry, no prelo.

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