Private Equity no Brasil: há oportunidades na saúde, mas fundos estão cautelosos

Private Equity no Brasil: há oportunidades na saúde, mas fundos estão cautelosos

Os investimentos em saúde têm chamado atenção nos últimos anos: […]

By Published On: 22/02/2023

Os investimentos em saúde têm chamado atenção nos últimos anos: do ponto de vista global, 2021 e 2022 foram os melhores anos da história nesse âmbito. Contudo, as instabilidades geopolíticas, inflação e taxas de juros crescentes têm pressionado o acesso ao crédito e dificultado o fechamento de negócios, cenário que tem feito fundos de private equity se tornarem mais seletivos, como indicou um recente relatório da consultoria Bain & Company. O cenário de private equity no Brasil não é diferente: o aporte em empresas de saúde continua ocorrendo e ainda há espaço para oportunidades, mas o nível de maturidade é diferente e os investidores vêm se mostrando mais cautelosos.

Em entrevista para Futuro da Saúde, Rita Ragazzi, líder do segmento Healthcare & LifeSciences da KPMG, avalia que, quando um investidor olha para o Brasil, um fator inerente a todos os setores da economia é o Custo Brasil, com a questão tributária e a complexidade intrínseca ao estabelecimento de um negócio no país. A saúde é regulamentada, mas ainda assim possui muitas oportunidades:

“Hoje você tem um sistema público que abrange uma população enorme que depende somente dele e um outro sistema que atende somente a cerca de 25%. Entre esses dois modelos, entre aquele que utilizará sempre o sistema privado tradicional e aquele que não sairá do modelo público, existe uma fatia muito grande da população que tem um poder de pagamento e que ainda hoje depende muito do SUS. Existe uma parcela importante da população que quer esses serviços que tenham a capacidade de pagamento do privado e que pode ser uma grande via de investimento. Isso auxilia de uma maneira coletiva esses investimentos porque ajuda a desonerar o serviço de saúde público, girar a economia e trazer melhorias, qualidade de serviço e qualidade da saúde”.

Na visão dela, o nível de maturidade do mercado de saúde brasileiro ainda está evoluindo, com discussões regulatórias importantes, mas que é um ambiente próspero de investimentos. Ela ressalta dois pontos: o relatório do grupo de transição para o Ministério da Saúde, que trouxe a questão do Complexo Industrial da Saúde e a possibilidade de mais “investimentos para o setor industrial nacional, o que tende a impactar, esperamos que positivamente, dentro da cadeia de fornecimento para os serviços de saúde”, e o papel das healthtechs, que possuem a capacidade de conectar a indústria tradicional com um modelo ágil de transformações e implementação de mudanças focalizadas nas principais dores.

Para 2023, a expectativa é que “os investimentos vão ser talvez um pouco mais tímidos do que foram em 2021, por exemplo, e acho que um pouco mais alinhados com 2022”. Além disso, ela destaca a tecnologia como o grande norte desses investimentos, como tecnologias de atenção remota, telemedicina, trabalhos com dados, analytics e inteligência artificial para melhoria do acesso, eficiência de tratamentos, redução de custos, assertividade e produtividade.

Um balanço de private equity no Brasil 2022

A cena de investimentos em saúde dos últimos anos no Brasil trouxe 2020 e 2021 como anos recordes em número de negócios fechados. Enquanto isso, em 2022 houve uma queda nesse número, mas o valor investido continua em crescimento, o que, segundo Ragazzi, é o que torna o mercado razoavelmente estável, dado que essa demanda em saúde não vai desaparecer.

“Eu acho que, apesar de tudo, 2022 foi um ano muito interessante em termos de investimento de private equity, não só de totais de deals mas também em valores investidos e pelo próprio movimento do mercado. Quem vê a evolução da área de saúde há muitos anos, vê muitos investimentos na área de tecnologia […] quanto a todos os temas que falávamos há muitos anos, como a transformação digital na saúde, nós temos começado a ver players com volume, fôlego e o investimento de capital de risco suficiente para começar a realmente tirar isso do papel”, avalia Rita.

Além disso, assim como se constatou que os investidores vêm se tornando mais seletivos mundo afora, no Brasil não é diferente. De acordo com a líder de Healthcare & LifeSciences da consultoria, antigamente as empresas na saúde possuíam um caráter mais familiar, de forma que o private equity entrava injetando dinheiro, profissionalização e alguns processos, resultando em grandes saltos de receita e lucratividade. Hoje o mercado é mais maduro, o que exige uma análise maior da tese de investimento para compreender se o que está proposto é possível de ser alcançado em um período de tempo e com maior rentabilidade que outra forma de investimento.

Outra questão pontuada diz respeito ao desafio de implementação gradativa dos modelos de tecnologia e da integração e consolidação dos dados. “Este é um grande tema e dificuldade. Temos tecnologias de diferentes épocas, modelos e graus de desenvolvimento de instituições que estão sendo colocadas para trabalharem juntas. Por exemplo, eu como private equity preciso de escala, então eu compro várias empresas e cada uma tem um nível de maturidade. O que acontece? Consolidar, ganhar escala e rentabilidade na agilidade do passado não é mais tão simples, porque essa integração não tem sido tão fácil quanto se esperava. Então, há um cuidado maior, além da questão de que os volumes também têm sido muito maiores. Eu acho que o nível de private equity no Brasil subiu a régua […] Os cheques que têm sido preenchidos são maiores, então você também tem que ser muito mais criterioso na hora de preencher e entregar na mão de uma empresa esses cheques”, analisa Rita.

Quatro pontos para avaliar oportunidades

O private equity é uma forma de investimento privado em que o investidor faz um aporte direto de capital em uma empresa, visando o crescimento dela a médio e longo prazo. Além disso, ele pode contar também com uma participação mais direta na gestão. A líder do segmento Healthcare & LifeSciences da KPMG explica que a identificação de uma oportunidade de mercado passa por quatro importantes camadas: mercado, entrada, tese e saída.

Primeiro, quanto ao mercado, os investidores buscam um setor resiliente e que seja capaz de passar por solavancos, assim como a saúde. “Nós vivenciamos uma pandemia que durou dois anos. Obviamente o mercado sofreu, mas ele não minguou, ele floresceu e cresceu na adversidade. Então, o primeiro ponto é entender a estabilidade e o grau de risco do mercado, se ele pode ser rompido facilmente”, constata Rita.

O segundo ponto diz respeito à compra, seja ela integral ou parcial, pois o investidor quer entender se o preço daquele ativo está correto e se a estrutura da transação garante que ele irá receber no futuro. A terceira parte se relaciona com a tese do investimento e a avaliação sobre a possibilidade de crescimento da receita e da lucratividade. Por último, é necessário que o investidor entenda como ele vai fazer sua saída, considerando que ele pode levar esse ativo a uma melhor performance e elevar o valor de mercado ou que ele pode abrir o capital.

Rita Ragazzi destaca que antigamente o olhar do private equity se voltava para o crescimento e consequente verticalização da assistência, algo que tem se ampliado para um novo horizonte nos últimos anos: “Nós temos olhado de uma maneira mais interessante para o mercado e temos visto investimentos de private equity que têm um core, mas que investem na cadeia de valor. Isso faz muito sentido, porque não existe um setor que pode florescer se a cadeia de suprimentos, de serviços e a rede de apoio também não estão desenvolvidas”. Por isso, esse tipo de investimento acaba sendo interessante para o próprio ecossistema por promover um desenvolvimento e uma atenção maior para toda a estrutura envolta no serviço de saúde.

Dilema entre retorno financeiro e qualidade de serviço

Por fim, uma questão recorrente quando se fala de investimento em saúde está relacionada a um possível dilema entre a busca dos investidores por um alto retorno em detrimento da qualidade do serviço oferecido. Para Rita, é necessário desassociar a imagem do investimento em saúde com a figura da pessoa física ou do trader, pois tratam-se de investimentos de médio a longo prazo, que avaliam relatórios anuais e a performance da empresa na sua tendência. Ainda, se o serviço prestado não é bom ou se a resolutividade dos casos é baixa, o paciente não optará mais por aquele serviço oferecido, então, segundo ela, não se olha para essa equação sob a ótica de cortes de custos para um benefício de curto prazo.

Rita também indica que deve ser levado em conta o mercado competidor e a onda do debate sobre governança e sustentabilidade: “Quando você abre para o mercado, faz um IPO e tudo mais, você fica exposto e o seu concorrente também está captando recursos. Você não pode baixar sua qualidade porque você vai perder não só clientes, mas também investidores e a sua reputação. É lógico que existem oscilações, inclusive não intencionais, mas é por isso que você tem hoje hospitais e planos interessados em pensar em indicadores e torná-los públicos. […] Acredito que vamos sentir uma onda de sustentabilidade e transparência à medida que o mercado vai ficando mais maduro. Todo o tema de ESG que temos visto nos ajuda a trazer esse equilíbrio entre qualidade, custos e o retorno do investimento. Há casos de captação por hospitais e planos baseado em suas métricas ESG, isso mostra que o mercado caminha para um sentido contrário da redução de custos que tangencia a perda da qualidade”.

Paola Costa

Estudante de Jornalismo da Cásper Líbero e graduada em Relações Internacionais pela UNIFESP. Compõe o time de redação do Futuro da Saúde desde setembro de 2022. Email: paola@futurodasaude.com.br

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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