Prevenção: por que é tão difícil tomar decisões que melhoram a nossa saúde?

Precisamos mudar o discurso e passar para outra fase pois, caso contrário, assim como nos jogos eletrônicos, os inimigos e os monstros, que na saúde se apresentam como vírus, tumores, infartos ou síndromes, seguirão vencendo qualquer batalha

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Recentemente, em uma reunião de equipe do Instituto Lado a Lado pela Vida discutíamos o que leva as pessoas que são informadas, que recebem conteúdos qualificados sobre saúde a ignorarem o item “prevenção” de suas vidas. Surgiram inúmeras teorias e em todas elas o denominador comum foi o de que as pessoas nunca acham que algo de ruim acontecerá a elas. As chamadas síndromes de super-homem ou mulher-maravilha, que levam o indivíduo a “ter certeza” de que coisa ruim só acontece com os outros.  

Esse parecia ser um sentimento que permeava somente a mente dos jovens, que vivem o dia de hoje como se fosse o último. Mas, desde 12 de março de 2020 quando ocorreu a primeira morte por Covid-19 no Brasil, temos tido novas pistas de que não é somente a síndrome de inatingíveis seres que faz com que as pessoas não sigam as recomendações sobre prevenção, sobre adesão ao tratamento e sobre responsabilidade individual e coletiva.

Vou fazer uma simples analogia com as campanhas para reduzir os danos do tabagismo entre os brasileiros. São realizados investimentos em ações de prevenção e divulgados inúmeros alertas sobre os benefícios para quem para de fumar mas, ainda assim, segundo o INCA (Instituto Nacional de Câncer), 428 pessoas morrem diariamente no País devido à dependência da nicotina presente nos cigarros e 56,9 bilhões de reais são gastos a cada ano com despesas médicas e perda de produtividade, além das 156.216 mortes anuais que poderiam ser evitadas, principalmente devido ao câncer, doenças cardíacas e doenças pulmonares desenvolvidas pelo tabagismo. O que podemos deduzir, sem entrar aqui nas questões clínicas sobre a dependência química, é a de que ainda há um enorme contingente de pessoas que não acreditam nos males do cigarro ou que acham que estarão sempre do lado positivo das probabilidades.

Basta, também, deslocarmos nosso olhar para os dados divulgados pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), em 2018, que dizem que “a baixa adesão aos tratamentos são responsáveis por mais de 200 mil mortes prematuras anualmente na Europa e que o custo estimado por ano em hospitalizações evitáveis, atendimento de emergência e consultas ambulatoriais é de 125 bilhões de euros naquele continente e 105 bilhões de dólares nos Estados Unidos. E, ainda, que os pacientes com doenças crônicas são particularmente vulneráveis a problemas de saúde se não aderirem aos medicamentos. As taxas de mortalidade para pacientes com diabetes e doenças cardíacas que não seguem as recomendações do tratamento são quase duas vezes mais altas do que para aqueles que as seguem e que as três doenças crônicas mais prevalentes – diabetes, hipertensão e hiperlipidemia – destacam-se como as doenças com os maiores custos evitáveis, para os quais cada dólar extra gasto em medicamentos para pacientes que aderem ao tratamento pode gerar entre 3 a 13 dólares em economias evitáveis, visitas aos pronto atendimentos e hospitalizações”.

Minha posição enquanto líder social é a de que, como destaquei no meu último artigo para o Futuro da Saúde, a grande dificuldade para que o Brasil tenha sucesso no combate ao novo coronavírus e nas futuras pandemias que ocorrerão e não serão somente as causadas por vírus, mas as do câncer, da obesidade e das doenças crônicas e cardiovasculares, além da óbvia necessidade de uma gestão eficiente e responsável por parte de quem têm o mandato para exercê-la, é a falta da consciência coletiva sobre saúde. Além de estar entre os maiores desafios a serem enfrentados por nossa sociedade é, ainda, um dos grandes riscos que levarão o País a perpetuar o colapso que assistimos diariamente e que se agravou no último mês, em grande parte provocado pelo comportamento de super-homens e mulheres-maravilhas de grande parte da população.

Esse cenário em nada me surpreende e só reforça a premissa de que já passou da hora de não só educarmos nossa sociedade para a prevenção e a promoção de uma vida mais saudável, mas de fazermos um chamado ativo e barulhento para que cada indivíduo no Brasil se envolva, assuma sua responsabilidade, participe das discussões, acompanhe as definições das políticas públicas sobre saúde e lute para melhorar aquelas que não atendem às demandas dos pacientes.

Os problemas, as dificuldades e os “porquês” do colapso da saúde no Brasil nós já conhecemos há anos. A pandemia da Covid-19 só os colocou no holofote. Precisamos mudar o discurso e passar para outra fase pois, caso contrário, assim como nos jogos eletrônicos, os inimigos e os monstros, que na saúde se apresentam como vírus, tumores, infartos ou síndromes seguirão vencendo toda e qualquer batalha. E os brasileiros que acreditam fazer parte do grupo de seres conscientes e inteligentes que habitam o planeta, serão os eternos perdedores.

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