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Novo tipo de prevenção para Covid-19 para imunossuprimidos ou pessoas com contraindicação à vacina já está disponível no Brasil

Combinação de dois anticorpos monoclonais entrega proteção ao organismo para evitar a infecção e, caso ela ocorra, previne o agravamento do quadro

               

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O primeiro caso de Covid-19, no Brasil, foi identificado no dia 26 de fevereiro de 2020. Mais de dois anos depois, o vírus contaminou pelo menos 33 milhões de pessoas e causou a morte de mais de 675 mil brasileiros. Com o rápido avanço da ciência, em tempo recorde foram produzidas vacinas contra o coronavírus — hoje, cerca de 83% da população tomou pelo menos a primeira dose e outros 78% estão com o esquema vacinal completo com as duas doses¹. A chegada da vacina e a adesão da sociedade trouxeram um impacto evidente na queda de casos graves e mortes. Embora o cenário tenha melhorado, há ainda dois grupos de pessoas mais vulneráveis à Covid-19: os imunossuprimidos e os que possuem contraindicação às vacinas contra Covid-19.

Os imunossuprimidos são pessoas que vivem, principalmente, com doenças autoimunes, tumores e malignidades hematológicas, foram submetidas a transplantes de medula ou de órgãos sólidos, como fígado e rim, estão em tratamento ativo com quimioterapia ou qualquer outro paciente em tratamento com algum medicamento imunossupressor. Eles não desenvolvem uma resposta imune a contento com a vacina contra a Covid-19². Ou seja, apesar de a imunização ser recomendada, nem sempre a vacina traz uma resposta suficiente para garantir o efeito necessário.

Aprovação da Anvisa

Foi com base nesse cenário que, em fevereiro de 2022, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, em caráter emergencial, um novo medicamento³, fabricado pela farmacêutica AstraZeneca, indicado para a prevenção da Covid-19 nestes dois grupos específicos.

A profilaxia aprovada pela agência é composta pela combinação de dois anticorpos monoclonais – cilgavimabe e tixagevimabe – que partem de um pressuposto simples: se o organismo apresenta dificuldades para fabricar anticorpos de forma natural, é possível entregá-los prontos.

“Os anticorpos monoclonais funcionam como um reforço de barreira em organismos que precisam de ajuda para combater o vírus. No cenário em que estamos, todos os imunossuprimidos já estão vacinados. Assim, as alternativas de proteção não devem ser excludentes”, explica o médico infectologista Alexandre Barbosa, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia e professor da UNESP.

O resultado é semelhante ao da vacinação, com redução de risco entre 80% e 90%, sendo uma estratégia de prevenção que auxilia a não ter a infecção e dificulta a evolução, caso haja a contaminação, para casos graves4. O medicamento apresentou um perfil de segurança comparado ao uso de placebo, mas é contraindicado para pacientes com histórico de hipersensibilidade grave, incluindo anafilaxia, aos princípios ativos ou a qualquer um dos componentes da formulação5.

No jargão médico, a nova terapia é considerada um medicamento de profilaxia pré-exposição (PrEP). Isso significa que deve ser administrada como complemento do calendário vacinal contra Covid-19 e antes da infecção para aqueles que vivem imunossupressão primária ou transplantados, que não conseguem produzir anticorpos suficientes.

No entanto, é importante que um médico seja consultado antes da administração, caso o paciente possua alergias, número baixo de plaquetas sanguíneas (que ajudam a coagulação do sangue), doença hemorrágica ou se estiver tomando um medicamento anticoagulante (para prevenir a formação de coágulos sanguíneos), já teve um ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral, se tem outros problemas cardíacos ou está em alto risco de eventos cardíacos (coração), estiver grávida ou amamentando.

A realidade dos imunossuprimidos

Enquanto vê quase todos à sua volta abandonando o uso de máscaras, já não obrigatório, e retomando uma rotina mais parecida com a pré-pandêmica, a realidade da enfermeira e influencer Maria Luiza Vilela, de 26 anos, ainda é de precaução.

Em novembro de 2021, depois de três anos e três meses de hemodiálise, ela recebeu o tão esperado transplante de rim. “Descobri a hipertensão arterial quando estava na faculdade. Comecei a tomar remédios e investigar a causa. Foi fazendo um check-up aleatório que descobri a insuficiência renal crônica. Algumas semanas depois, o órgão já estava comprometido”, conta.

Um ano após o diagnóstico, uma suspeita de câncer levou Maria Luiza à retirada dos dois rins e à entrada na fila do transplante. A princípio, sua mãe seria uma possível doadora, mas, com a chegada da pandemia, por segurança, os transplantes de doador vivo foram pausados.

Dez meses depois, às 7h da manhã de um domingo, porém, o telefone tocou “e a melhor notícia do mundo chegou”. O transplante, felizmente, foi bem-sucedido. Mas, a partir daquela data, Maria Luiza passara a fazer parte do grupo de imunossuprimidos, o que significa que ela tem que tomar ainda mais cuidado com infecções como a do coronavírus.

Sabendo que vai tomar imunossupressores para o resto da vida, Maria Luiza enxerga no novo medicamento uma possibilidade de viver com mais tranquilidade. “O Covid ainda não acabou e a existência de um remédio que ajude na proteção sem prejudicar o corpo é sinônimo de esperança”, diz.  “Esse reforço de proteção será um alívio. Assim como fiz com a vacina, vou ser a primeira na fila para tomar esse medicamento”, garante.

O que acontece com o sistema imunológico dos imunossuprimidos

As pessoas que fizeram transplantes de órgãos como fígado, pulmão, intestino, coração ou rim, como é o caso de Maria Luiza, tomam medicamentos chamados de imunossupressores, que diminuem a imunidade para que não haja rejeição do órgão.

“Quem faz quimioterapia, pacientes com HIV sem controle ou que têm doenças autoimunes também fazem parte desse grupo. Há também a imunossupressão natural causada pelo envelhecimento”, relata o infectologista Alexandre Barbosa.

Ele explica que uma pessoa imunossuprimida tem o sistema imunológico comprometido. Assim, a defesa do organismo contra vírus, bactérias e fungos parasitas não funciona de uma forma tão eficiente. “Essa população apresenta duas falhas no sistema imunológico: não consegue produzir uma quantidade suficiente de anticorpos para lidar com infecções e a duração desses anticorpos também é menor”.

É por conta disso que a vacina tem efeito menos intenso e duradouro do que deveria. “As vacinas levam um pedacinho do vírus para dar estímulos à proteção, são lembretes para que o sistema imunológico fique pronto para lidar com o inimigo, produzindo anticorpos neutralizantes. No caso dos imunossuprimidos, o organismo está menos preparado para esse combate”.

Assim, é preciso intensificar a imunização nesses indivíduos. E é aí que entra o novo medicamento, “não como uma substituição à vacina, mas um reforço de proteção contra o coronavírus”.

Um anticorpo ‘pronto’

Como o sistema imunológico do paciente imunossuprimido está enfraquecido e não consegue fabricar anticorpos, a terapia funciona entregando o anticorpo “pronto”.

Os anticorpos monoclonais são proteínas feitas em laboratório que imitam a capacidade do sistema imunológico de combater agentes nocivos, como vírus. As substâncias cilgavimabe e tixagevimabe são anticorpos monoclonais de ação prolongada que são especificamente direcionadas contra a proteína spike do SARS-CoV-2, projetadas para bloquear a ligação e a entrada do vírus nas células.

Na prática, a vacina é considerada uma imunização ativa e os anticorpos monoclonais são da classe de imunização passiva — não dependem do sistema imunológico para combater o vírus. “O vírus tem uma camada externa cheia de pequenos pregos em sua volta (a chamada ‘coroa’), que grudam nas células, infectando-as. Essa combinação de anticorpos se liga a esses receptores e os neutraliza. Ou seja, a coroa fica envelopada, incapaz de grudar nas células, evitando a infecção”, descreve Barbosa.

Referências

  1. Mapa da vacinação contra Covid-19 no Brasil. G1/Globo. Acessado em 13/07/2022.
  2. Quem são os indivíduos imunocomprometidos? Só Covid preocupa?. Veja Saúde. Acessado em 13/07/2022.
  3. Evusheld®️ (cilgavimabe + tixagevimabe). Anvisa. Acessado em 13/07/2022.
  4. Myron J. Levin, M.D., Andrew Ustianowski, M.D., Ph.D., Stéphane De Wit, M.D., et al. Intramuscular AZD7442 (Tixagevimab–Cilgavimab) for Prevention of Covid-19. N Engl J Med 2022
  5. Bula do produto.

Material destinado a todos os públicos. Aprovado em Julho/2022. BR-18804

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