Precisamos falar sobre a síndrome pós-covid em neurologia

Precisamos falar sobre a síndrome pós-covid em neurologia

Desculpem, mas ainda precisamos falar, e muito, sobre isso. Caro […]

By Published On: 19/05/2021

Desculpem, mas ainda precisamos falar, e muito, sobre isso.

Caro leitor, sei que as informações sobre a Covid-19 chegam a todo momento até nós.

Mas um tema que surge com força crescente sobre esta doença – e não se trata de fake news – é a síndrome pós-covid.

Estima-se que cerca de 36% das pessoas que tiveram a doença e conseguiram sobreviver a ela ficam com sequelas neurológicas. Repetindo: este é um dado que considera apenas as sequelas neurológicas.

Destes, 67% tiveram a forma domiciliar da doença, 33% necessitaram ser hospitalizados e só 19% em UTIs. Ou seja, estas sequelas não estão diretamente relacionas a gravidade da doença.

Há um ano, o jornal americano The New York Times, publicou uma reportagem com a história de um paciente curado de Covid-19 que, após mais de um mês de decretada a sua cura, sofria por viver com a mente “nublada”, termo utilizado segundo ele próprio.

A medicina vem desde o início da pandemia rastreando os pacientes “Long Haulers”, do inglês de longa duração , que permanecem sintomáticos após a cura.

Não contabilizo aqui, aqueles com sintomas pulmonares, cardíacos, renais ou de outra natureza, pois neste caso estaríamos falando de 70% ou mais de indivíduos com alguma sequela pós-Covid.

Por que isso acontece

Um dado muito importante é que o vírus não acomete diretamente o cérebro ou medula, nem nervos, tudo é consequência da tempestade inflamatória e da resposta imunológica de nosso organismo. Desde os sintomas mais leves como a falta de olfato (anosmia) ou gosto (disgeusia) que são queixas iniciais de muitos e permanecem  após a cura em 50% dos casos ,até a mente nublada e/ou queixas bem definidas de prejuízo da memória que acometem, em média, 35% dos pacientes curados.

Outras queixas que podem perdurar são o cansaço, ansiedade, distúrbios de sono e cefaleia, que pode se iniciar com a doença ou, nos casos pré-existentes, ser exacerbada pela Covid-19.

No caso da perda do gosto e olfato, relato aparentemente banal, para alguns tem impacto direto no apetite e na perda indesejada de peso. Apesar de inicialmente relacionarmos a anosmia a uma ação direta do vírus no bulbo olfatório (nervo olfatório), a causa, de fato, é a inflamação do epitélio da fenda nasal, que em 63% dos casos regride completamente após 1 mês da cura, atenuando ou resolvendo completamente esta queixa. No entanto, 5 a 10% dos pacientem mantém a perda do olfato até 6 meses ou mais, dos seguimentos feitos até o presente.

O mesmo ocorre com as outras queixas citadas acima, com elas perdurando muitos meses, talvez definitivamente, para uma parcela destes pacientes.

Há ainda os casos relacionados ao sistema nervoso autônomo, que participam do controle, entre outras coisas, do ritmo cardíaco e da pressão arterial. O desajuste pós-covid pode acarretar em arritmias por exemplo.

A grande pergunta é se estas sequelas, em várias especialidades diferentes, serão ou não definitivas.

Muitos, que precocemente comemoraram e se gabaram de ter sobrevivido incólumes a doença, se deram conta que a mesma havia deixado rastros e marcas, não apenas nas famílias dos mais de 400 mil que perdemos neste país, mas também para uma legião de sobreviventes, que agora povoam os serviços médicos em busca de atenuar seus sofrimentos e curar as suas feridas.

Renato Anghinah

Vice-Presidente da Associação Brasileira de Traumatismo Crânio Encefálico (ABTCE) e Diretor Científico do Departamento de TCE da Academia Brasileira de Neurologia. Possui títulos de especialista em Neurologia, Neurofisiologia Clínica e de Fellow of American Academy of Neurology, além de ter a certificação como orientador da American Certification Brain Injury Society. É também Professor Livre Docente em Neurologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Professor Pleno de Pós-Graduação em Neurologia da FMUSP.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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