“Precisamos abrir condições para que o médico trabalhe em regiões que o Brasil mais carece”, diz Virgilio Gibbon, CEO da Afya Educacional

Maior grupo de educação médica do Brasil tem atuado para auxiliar o médico em toda a jornada, desde a formação até a prática

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A jornada do médico não termina quando ele conclui a faculdade de medicina. Depois de passar pelo longo e complexo processo de aprendizado, o  desafio não se encerra. É hora de  se preocupar com as novidades do mundo científico para garantir a conduta mais atualizada, pensar na forma de atendimento dos pacientes e até na gestão de dados.

De olho nessa jornada, a Afya Educacional, maior grupo de educação médica do Brasil, tem investido para ampliar não apenas a formação de qualidade, mas também apoiar médicos na gestão completa de informações de seus pacientes. Recentemente a empresa adquiriu três healthtechs, MedPhone, PebMed e iClinic, com o objetivo de tornar essa experiência ainda mais digital.

Em entrevista para Futuro da Saúde, o CEO da Afya Educacional, Virgilio Gibbon, analisa como a pandemia acelerou esse processo, aborda a situação da educação no País, explica a estratégia de atuação da Afya e aponta alguns desafios: “O Brasil hoje tem um problema gravíssimo de distribuição de médicos. Não é um problema de falta”. Para ele, a solução é estruturar e criar incentivos para os médicos se formem nas regiões mais carentes e atuem por lá.

Como a Afya foi afetada pela pandemia?

Em março, por uma coincidência, estávamos com todos os nossos executivos na semana de planejamento e nos últimos dias deste encontro avaliamos: “E se as aulas fossem interrompidas?”. Interrompemos em 17 de março e uma semana depois retomamos todas as aulas teóricas através da nossa plataforma online. Nós inclusive abrimos nossa ferramenta para outras instituições usarem também. Todo planejamento foi importante principalmente para os alunos veteranos, de quinto e sexto ano que,  em maio e junho, retomaram as atividades práticas em clinicas e hospitais seguindo todos os protocolos de segurança. Não sei se você lembra, mas eles foram até convocados pelo ministro da Saúde para ajudar a enfrentar a pandemia. Terminamos o primeiro semestre faltando apenas 12% da carga horária programada.

E a plataforma estava preparada para fazer essa transformação tão rápida?

O maior desafio foi a preparação docente. Não só do ponto de vista técnico de abordagem, mas principalmente de adequação do próprio espaço na residência deles. Investimos muito em treinamento e na questão psicológica também, pois os professores precisavam estar bem para dar uma aula de qualidade. Além disso, muitos familiares dos nossos funcionários perderam o emprego com a crise e toda a parte de orientação e de recolocação eram atividades fornecidas pelo nosso RH. Foi uma série de iniciativas para minimizar o impacto no final do dia no nosso aluno.

“A questão de engajamento é super complexa. É preciso ter uma boa aula, ter ferramentas para conseguir suportar tanto tempo aulas online com qualidade e não impactar a aprendizagem dos nossos alunos”.

E como foi, na sua opinião, essa curva de aprendizado?

Todo processo de mudança é complicado. Ainda mais para um médico, que está acostumado a dar atendimento ao paciente e estar próximo do aluno, ele nunca imaginaria que teria que fazer aulas online ou até telemedicina, que não era permitida antes. O próprio MEC soltou diretrizes específicas de como que seriam as aulas de cursos de medicina e da área de saúde, abrindo exceções para esse período de pandemia. Do lado dos alunos, temos os que gostaram e os que não se acostumaram. A questão de engajamento é super complexa. É preciso ter uma boa aula, ter ferramentas para conseguir suportar tanto tempo aulas online com qualidade e não impactar a aprendizagem dos nossos alunos.

É possível manter o engajamento e o mesmo nível de aprendizado?

Vou fazer uma analogia com a educação das minhas filhas. Elas estão hoje com aula remota, uma no ensino médio e outra no fundamental. O grande desafio do lado delas é o professor manter o engajamento. Quanto mais jovem o estudante, maior o desafio. No caso do ensino superior, a nossa metodologia é ativa do começo ao fim, com muita discussão de caso e participação. O professor não está ali apenas passando matéria, como em muitas escolas que seguem o ensino tradicional do passado. Então isso ajudou bastante a manter o engajamento e atividade da nossa plataforma.

A pandemia acelerou a telemedicina e dizem que é um caminho sem volta. Na educação, existe preocupação em retroceder ou a evolução veio para ficar?

Falar que a telemedicina não agrega valor na prestação de serviço médico, que não agrega valor no processo de aprendizagem de educação médica, é um equívoco. Por exemplo, imagine um paciente com um problema cardiológico gravíssimo no norte do Piauí ter um especialista dentro da Afya no Paraná, que é um craque em cirurgia cardíaca, podendo fazer o diagnóstico e a preceptoria através da telemedicina? Sem falar que você pode também, pela precisão do tratamento, ter uma segunda opinião. A telemedicina agrega um valor a todo processo e isso não pode voltar. Seria uma perda muito grande. Como educador, não gostaria de tirar isso, essas evoluções, dos meus alunos.

“A nossa ideia é ser o one-stop-shop médico, investir em educação continuada, para que ele possa se especializar e buscar suas habilidades dentro dos cursos do portfólio da Afya, como também serviços digitais como uma estratégia. Nunca substituindo a relação médico-paciente que é super importante”.

Discute-se muito sobre o sucateamento da educação dos médicos. Qual o papel da Afya para transformar esse cenário?

É uma preocupação de todos nós. Para minimizar o risco de um professor não dar uma aula de forma adequada, conseguimos através de estatística e de acompanhamento medir o processo de aprendizagem e a entrega de conteúdo. Conseguimos atuar com o professor e fazer planos de ação individualizados para determinado aluno, para que consiga recuperar tempo e informação com relação aos demais. Tem uma prova feita por várias escolas de medicina para medir o progresso e temos também o teste do progresso dentro da Afya. Assim garantimos que um aluno, no final de seis anos com a formação adequada, terá a sua jornada como médico atendida. Temos até um curso preparatório, através da Medcell, embutido dentro do nosso projeto pedagógico. O nosso aluno tem ferramentas completamente diferentes para ser um médico diferenciado ao longo da sua carreira.

Recentemente, a Afya fez três importantes aquisições: PebMed, iClinic e Medphone. Qual a estratégia por traz dessas aquisições?

Entramos definitivamente em serviços digitais de suporte à jornada do médico. Quando ele está no final da sua etapa de graduação, começa a se preocupar e fica ansioso com a residência. A gente tem o curso preparatório para a residência embutido ao nosso projeto pedagógico. Quando ele está em um plantão e chega um paciente, temos uma ferramenta, que veio junto com a aquisição da PebMedque é o maior aplicativo hoje de suporte a tomadas de decisão clínica na beira do leito. São 165 mil médicos utilizando mensalmente essa plataforma e ajudando nos protocolos. 79% dos médicos formados nos últimos cinco anos utilizam a nossa plataforma. Mais recentemente avançamos na aquisição da iClinic, quando o sonho do médico é ter um consultório. O iClinic oferece suporte à gestão do consultório, com ferramentas de prontuário digital para ver o status dos pacientes, agendamento de consulta e o marketplace. Ou seja, ajuda o médico a ganhar eficiência e produtividade. Então, a nossa ideia é ser o one-stop-shop médico, investir em educação continuada, para que ele possa se especializar e buscar suas habilidades dentro dos cursos do portfólio da Afya, como também serviços digitais como uma estratégia. Nunca substituindo a relação médico-paciente que é super importante. Se ganharmos agilidade, minimizaria o custo da atenção médica. Tudo isso faz parte do nosso propósito como empresa. 

A frase dita por você para o jornal O Globo, “a gente controla a caneta do médico”, não pegou muito bem entre os médicos. O que você quis dizer?

Essa frase deu bastante repercussão, foi uma analogia infeliz. Na verdade, queremos ser um parceiro da jornada do médico. Queremos estar próximos do médico ao longo de toda a cadeia do serviço de prestação de saúde após a visita do paciente, auxiliar na confecção do prontuário, fazer telemedicina, escrever uma prescrição, agilizar todo o processo. Quem sabe um dia poder substituir a caneta do médico por uma ferramenta digital. Essa é a ideia. Isso em termos de produtividade, não de tomar o lugar do médico.

“É um problema gravíssimo de política social. Para garantir o atendimento adequado, mesmo nos subúrbios do nosso país, nas regiões mais afetadas, é fundamental ter uma ação de política pública”.

Como é a relação com os conselhos médicos?

A sociedade médica hoje, além de ser muito ampla, tem sociedades das especialidades. Tem mais de 30, tem os conselhos regionais. A nossa área de pós-graduação se aproximou muito das sociedades das especialidades. A lei de residência médica que tem hoje no Brasil é um projeto da década de 80, onde havia instituições com fins lucrativos. Atualmente essas instituições privadas formam 30 mil médicos para pouco mais de 10 mil vagas de residência. Então é preciso uma mudança regulatória muito grande. E isso passa pelas sociedades, pelos conselhos e por todas as associações médicas para garantir as especialidades.

Você avalia que faltam médicos no Brasil?

O Brasil hoje tem um problema gravíssimo de distribuição de médicos. Não é um problema de falta de médicos. Hoje há um combate muito grande à abertura de faculdades sem qualidade e há um órgão regulador que olha a qualidade de tudo isso que é o Ministério da Educação. O MEC tem dentro da sua agenda, a cada 2 anos, um raio-x de todas as escolas, não só da medicina, e fecha-se muitas delas que não estão fazendo o trabalho de forma adequada. Por outro lado, temos um problema grave de incentivo à interiorização do médico. A região Sudeste hoje tem mais da metade dos médicos do país. Só São Paulo tem quase 50%. No Norte e Nordeste, mais de 90% das cidades, que possuem população abaixo de 100 mil, têm menos de 1 médico para cada 10 mil habitantes. É um problema gravíssimo de política social. Para garantir o atendimento adequado, mesmo nos subúrbios do nosso país, nas regiões mais afetadas, é fundamental ter uma ação de política pública.

Como funciona a abertura de novas escolas no País?

Hoje, você só abre escola de medicina através do Mais Médicos, que constitui basicamente duas etapas: o Ministério da Saúde e o Ministério da Educação escolhem as cidades, por carência de profissionais da área médica, e habilita essas cidades desde que tenham uma infraestrutura mínima para o processo de aprendizagem médica. Por exemplo, é preciso ter 5 leitos – e é leito do SUS – para cada vaga de medicina que abrir, pois assim o aluno pode ter paciente e fazer a sua prática. Ao todo, 28 cidades foram escolhidas lá em 2018, 2019 e muitas ainda nem abriram. E são cidades que carecem de profissionais da área médica.

Qual a solução então?

Eu acredito em projeto sério, com projeto pedagógico, infraestrutura adequada, parceria com a Secretaria de Saúde naquela prefeitura e com o Estado. Mesmo que a prefeitura tenha problemas, temos o compromisso de formar o melhor médico possível dentro daquela região e, na medida do possível, que esse médico continue trabalhando por lá, porque ele já conhece aquela região, tem pacientes, consegue montar clientela. Então as chances de você ter um médico formado naquela região e continuar trabalhando após a sua formatura dentro daquela região é muito maior que um médico que se formou em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Porto Alegre, se deslocar para o Tocantins, para o Pará, para o Piauí para atender em cidades mais remotas. É preciso abrir condições para que tenha incentivos para o médico formado continuar trabalhando nas regiões em que o Brasil mais carece.

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