PNI: o risco de enfraquecimento do Programa Nacional de Imunizações

Carla Domingues e Francieli Fantinato citam diversos fatores como causas para as dificuldades atuais e o enfraquecimento do Programa Nacional de Imunizações (PNI)

               
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A falta de protagonismo do Programa Nacional de Imunizações (PNI) durante a pandemia acarretou em uma série de críticas a essa entidade. Para compreender essa questão, Carla Domingues e Francieli Fantinato citam diversos fatores como causas para as dificuldades atuais do programa.

Quando se trata de vacinar a população, o Brasil sempre foi considerado um exemplo mundial, com taxas de imunização superiores às registradas em outros locais. Até mesmo durante a pandemia de coronavírus, o país de dimensões continentais e com início tardio já tem 67% da população com o primeiro ciclo vacinal completo e 78% das pessoas com ao menos uma dose. Embora os dados sejam considerados positivos, há uma preocupação com o enfraquecimento do Programa Nacional de Imunizações (PNI) e com a cobertura vacinal, que tem apresentado queda desde 2017.

Diversos fatores são apontados como responsáveis por essa queda, como a falta de liderança, de recursos humanos, problemas de comunicação como campanhas mais eficazes, coleta de dados, além da influência de fake news. “O PNI foi e continua sendo um programa de grande sucesso, mas exige melhorias”, afirmou ao Futuro da Saúde, Francieli Fantinato, agente de saúde pública e ex-coordenadora do PNI.

Segundo Fantinato, é necessário fazer um planejamento específico para atacar os diferentes fatores da queda das coberturas vacinais. E para que isso seja feito, é necessária “uma liderança forte no programa, grande envolvimento com a comunidade científica e da sociedade como um todo”.

A desarticulação e o enfraquecimento do PNI na pandemia

Com 48 anos de história, o Programa Nacional de Imunizações é o responsável por coordenar as campanhas de vacinação no Brasil. Ao longo das últimas décadas, o programa obteve sucesso no combate à poliomielite, rubéola, difteria, coqueluche, sarampo e diversas outras doenças.

Para garantir a imunização, o Ministério da Saúde, os estados e os municípios atuam em conjunto para distribuir as vacinas e incentivar a vacinação de forma igualitária. Mas, no que se refere ao novo coronavírus, o protagonismo do PNI foi ofuscado pelos governadores de cada estado, que foram em busca das vacinas individualmente. 

Atualmente, a Secretaria Extraordinária de Enfretamento à Covid-19 é quem decide os rumos da campanha de vacinação contra o coronavírus. Nessa secretaria, participam também as equipes técnicas do PNI, do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems).

Na visão de Carla Domingues, epidemiologista e ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações, essa forma de trabalhar consiste em “uma desarticulação total da liderança do Ministério da Saúde, que sempre foi o condutor da política de imunização organizada pelo PNI”.

Baixa adesão à vacinação

Em 2020, nenhuma vacina conseguiu atingir a taxa ideal de adesão e o mesmo deve acontecer para o ano de 2021. A queda da cobertura vacinal já havia sido apontada pelos especialistas antes da pandemia, mas certamente a circulação do novo coronavírus também impactou na imunização da população.

Durante a pandemia, as pessoas evitaram ambientes de saúde por conta do medo da contaminação pela Covid-19. Portanto. O medo combinado à falta de orientação são fatores apontados pelas especialistas como fatores de influência negativa quanto à adesão das vacinas, algo que poderia ser minimizado caso houvesse comunicação adequada e campanhas de vacinação eficazes.

A consequência desse cenário é o risco de doenças consideradas erradicadas voltarem a circular no Brasil. É o caso do sarampo, que desde 2018 colocou o país em um surto permanente. Ainda hoje os profissionais da saúde tentam lidar com o desafio de conter a cadeia de transmissão dessa doença infecciosa, mas sem muito sucesso.

“E isso pode acontecer com outras doenças. Precisamos voltar a fortalecer as ações de imunização para restabelecer a cobertura vacinal de todas as vacinas, como era feito nas décadas de 80 e 90. Temos que reconhecer as outras doenças como tão importantes quanto a Covid. Já voltamos a ter sarampo e podemos voltar a ter poliomielite”, afirmou Carla Domingues.

Outros gargalos do PNI

Outro ponto a ser considerado é o calendário de vacinação dos adolescentes, que passa por dificuldades de adesão. Para minimizar esse cenário, a solução implica em trabalhar em parceria com as escolas, onde são aplicadas as vacinas.

Anteriormente, no ano de 2014, essa tática foi aplicada para a campanha da vacina contra o HPV. Fantinato conta que houve “sucesso quando implementamos a vacina do HPV em 2014, porque foi feita uma ampla comunicação e parceria com o Ministério da Educação. Atingimos quase 100% de cobertura vacinal para a primeira dose e a meta era 80%. Ficamos muito acima do que prevíamos, isso foi muito positivo para poder eliminar o câncer”.

Há ainda a questão de recursos humanos, onde muitas vezes faltam profissionais para trabalhar nas unidades de saúde. Um exemplo desse cenário é o programa “Saúde na Hora” que estende o horário de funcionamento das salas de vacina, mas que por vezes tem sua estrutura subutilizada devido à falta de mão de obra. Assim, o horário de funcionamento mais curto acaba por dificultar que algumas pessoas recebam o imunizante.

Para o futuro, o Programa Nacional de Imunizações contará com uma parceria com a Fiocruz para recuperar as taxas de coberturas vacinais ideais. O projeto começará com o diagnóstico de empecilhos nos estados da Paraíba e Amapá, junto a campanhas adequadas nessas localizações. A seguir, as demais unidades federadas devem passar pelo mesmo processo.

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